Opinião

O futuro da Grande Barreira de Coral no Antropoceno

Se não se conseguir travar a mudança climática global, é muito provável que a grande maioria dos recifes de corais desapareça até ao final do século.

É muito provável que os navegadores portugueses do século XVI tenham sido os primeiros europeus a aventurarem-se nas águas dos recifes de coral das costas da Austrália. Porém, não se encontraram registos históricos dessas viagens porque a ilha gigante da Austrália – a “Terra Java” dos mapas de Nicholas Vallard de Dieppe, de 1547 –, além de relativamente pouco apetecível para os portugueses da época, era uma região potencialmente controversa face a Espanha, porque não se sabia bem por onde passava o meridiano do Tratado de Tordesilhas (1494) no oriente.

Há vários indícios da presença portuguesa há cerca de 500 anos nessa região do mundo relatados em Beyond Capricorn, de Peter Trickett, 2007, e em Portugueses na Austrália: As primeiras viagens, volume coordenado por Carlota Simões e Francisco Domingues, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013.

Curiosamente, o sistema de recifes mais meridional na costa Oeste da Austrália chama-se Houtman Abrolhos, com origem na expressão portuguesa “abre os olhos” escolhida pelo navegador holandês Frederick de Houtman para o arquipélago que descobriu em 1619, provavelmente porque conhecia o Arquipélago de Abrolhos e seus recifes na costa do Brasil frente à parte sul do estado da Baía, este sim nomeado por portugueses para salientar o cuidado que era necessário ter ao navegar em regiões com recifes de coral. Nessas épocas, a notoriedade dos recifes de coral provinha sobretudo do perigo que constituíam para a navegação. Desde então houve grandes evoluções no conhecimento, na apreciação e no valor económico destes ecossistemas notáveis.

A Grande Barreira de Coral, situada frente à costa do estado de Queensland, no Leste da Austrália, é o maior sistema de recifes de coral do mundo, com uma extensão de 2300 quilómetros e uma área de 345.000 quilómetros quadrados. É formado por um labirinto com cerca de 3000 recifes individualizados que cobrem 21.000 quilómetros quadrados, cerca de 64% na plataforma continental entre um metro e 150 metros, e o restante no talude continental entre 150 metros e 2000 metros.

A biodiversidade deste ecossistema é extraordinária: identificaram-se 350 espécies de coral, 1500 peixes, 4000 moluscos, 500 algas, seis das sete espécies conhecidas de tartarugas marinhas, 30 espécies de baleias e golfinhos e o célebre dugongo, o único mamífero herbívoro marinho que resta.

A Grande Barreira de Coral tem uma grande importância social e económica para a Austrália, ao gerar, de forma direta ou indirecta, uma receita anual de 3500 milhões de euros, assegurar 69.000 empregos e receber 1,9 milhões de visitantes através de operadores de turismo (dados de 2011-2012). Contudo, está profundamente ameaçada, por várias razões, relacionadas com algumas atividades humanas, principalmente a poluição do oceano com origem terrestre, dragagens, sobrepesca, acidificação e aquecimento das águas oceânicas, provocados pela mudança climática global e, finalmente, as espécies invasoras.

Um estudo recente, publicado nos Proceedings of the National Academy of Sciences, que monitorizou o sistema ao longo de vários anos, concluiu que a área coberta por recifes de coral diminuiu 50,7%, de 1985 a 2012. Mais preocupante é o facto de haver uma aceleração do processo, dado que dois terços do declínio se deu a partir de 1998. Não é um problema específico da Grande Barreira de Coral, mas dos recifes de coral de todo o mundo.  

Os recifes de coral serão provavelmente o primeiro ecossistema de grande relevância ambiental e económica a sucumbir no Antropoceno. Este termo foi proposto por Paul Crutzen e Eugene Stoermer em 2000 para designar uma nova época geológica caracterizada pelo impacto intensivo das atividades humanas à escala global sobre o sistema Terra. Está a ser usado cada vez com mais frequência nos meios científicos e de comunicação social, embora não se tenha ainda chegado a acordo sobre a data do seu início, no âmbito do Grupo de Trabalho Internacional sobre o Antropoceno.

A pergunta que se coloca é, pois, saber qual o futuro da Grande Barreira de Coral no Antropoceno? O que está a ser feito e planeado para a salvar? Irá sobreviver?

Antes de procurar responder, recordemos o que é um recife de coral. Os corais são cnidários da classe dos antozoários que vivem geralmente em colónias de pólipos geneticamente idênticos. A sua ecologia é complexa. Muitos deles vivem em simbiose com algas unicelulares, chamadas zooxantelas, implantadas nas células dos tecidos gastrovasculares dos pólipos, dando-lhes cores variadas.

O coral providencia à alga um ambiente protegido e os compostos necessários à fotossíntese, tais como dióxido de carbono (CO2) produzido pela respiração do coral e nutrientes inorgânicos, como nitratos e fosfatos. Em contrapartida, a alga fornece ao coral os produtos orgânicos gerados na fotossíntese, tais como glucose e aminoácidos, que lhe permitem produzir proteínas, hidratos de carbono e o carbonato de cálcio que depois segrega para formar o exosqueleto protetor dos predadores. Se os pólipos ficam sujeitos a stresses fisiológicos prolongados, como os que resultam do aumento da temperatura da água do mar, expelem as algas, morrem e os corais perdem a cor, processo designado por branqueamento.

Os recifes de coral são as “florestas tropicais húmidas do oceano” devido à sua grande biodiversidade. Estima-se que constituam o habitat para cerca de 25% da biodiversidade marinha, apesar de ocuparem menos de 0,1% da área do fundo do oceano. Se não se conseguir travar a mudança climática global, é muito provável que a grande maioria dos recifes de corais desapareça até ao final do século.

Note-se que o coral é um tipo de organismo que evolui desde há 400 milhões de anos. Os atuais corais construtores de recifes surgiram há cerca de 25 milhões de anos. Há várias montanhas constituídas pelos restos fósseis de recifes de coral. O exemplo mais célebre é o das Dolomites na Itália e Áustria, em grande parte formadas pelos fósseis de recifes de corais que viveram no oceano Tétis, o proto-Mediterrâneo que separou a Laurásia da Gondwana há cerca de 240 milhões de anos. Agora, pela ação inadvertida do homem, estão a ficar próximos da extinção num intervalo de tempo da ordem de poucos séculos!  

A UNESCO anunciou, num relatório de junho de 2012, que se o Governo da Austrália não tomasse medidas de proteção adequadas a Grande Barreira de Coral seria colocada na lista do património em perigo. Uma eventualidade muito negativa tanto sob o ponto de vista da imagem e reputação do país como do ponto de vista económico e social. A partir daí desenvolveu-se um grande esforço para travar o declínio dos recifes e em 2015 foi publicado um plano ambicioso de sustentabilidade até 2050.

O Governo da Austrália está a encarar os riscos que afetam a Grande Barreira de Coral de forma séria e empenhada. Importa distinguir dois tipos de ameaças: as de natureza local e regional e as de carácter global resultantes da mudança climática.

Entre as primeiras salienta-se a poluição marinha provocada pelo transporte fluvial de sedimentos, fertilizantes, pesticidas e outros poluentes associados à agricultura intensiva no estado de Queensland, que se encontra em fase de grande expansão. A outra resulta do crescimento da exploração de carvão nas minas do interior do estado que exige a construção de infraestruturas portuárias, dragagens e aumenta o trafego marítimo.

O excesso de nutrientes nas águas costeiras é provavelmente a causa principal da proliferação de uma estrela-do-mar (crown-of-thorns starfish, Acanthaster planci) que se alimenta de corais. Inicialmente, para travar a invasão destruidora, era necessário injetar cada estrela em cada um dos seus braços (atingem 21 braços) para que nenhum sobrevivesse, mas agora, com um novo produto, basta uma injeção letal e estão a desenvolver-se robots para a efetuar.  

Para além do aumento da temperatura e acidificação das águas, os ciclones tropicais mais intensos são também muito destrutivos para os corais, sendo provável que se estejam a tornar mais frequentes com as alterações climáticas. Nos últimos sete anos houve cinco ciclones de categoria 5, um tipo de ciclone que tinha um período médio de retorno superior a 50 anos.

Numa visita que fiz recentemente à Grande Barreira de Coral e a várias instituições de investigação e departamentos governamentais organizada pelo Governo Australiano aprendi muito sobre o investimento e o esforço humano que está a ser feito para proteger e aumentar a resiliência dos recifes de coral. É um programa muito meritório que, por agora, convenceu a UNESCO.

Mas a ameaça das alterações climáticas mantém-se e a Austrália irá provavelmente contribuir de forma significativa para as agravar devido à exploração futura das suas gigantescas reservas de carvão. Estima-se que nas minas da bacia carbonífera da Galileia no interior do Queensland há 27.000 milhões de toneladas de carvão. Se o carvão continuar a ser explorado ao ritmo atual à escala mundial, os recifes de coral irão ficar próximos da extinção, sobrevivendo apenas em pequenos nichos residuais.

Trava-se atualmente um combate intenso, mas quase secreto, entre os que apostam nos grandes projetos de exploração de carvão, como é o caso da mina de Carmichael, no Queensland, explorada pelo grupo indiano Adani, e os que preferem investir em formas de energia com menos emissões de CO2.

Recentemente, o Commonwealth Bank, Citigroup, Deutsche Bank e Morgan Stanley, entre outros, decidiram não financiar os grandes projetos de exploração de carvão da Bacia da Galileia. É, em grande parte, a política global de exploração do carvão que decidirá o futuro do clima e a sobrevivência da Grande Barreira de Coral depende desse clima futuro.

 

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