Em Palmira, a Síria perdeu mais um pedaço do seu futuro

Imagens de satélite mostram que quase nada restou do Templo de Bel após explosão levada a cabo pelos jihadistas.A cidade conta uma história antiga de tolerância e multiculturalidade, valores que o auto-intitulado Estado Islâmico quer destruir.

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O Templo de Bel em 2010 Reuters
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Vista geral de Palmira, com o Templo de Bel à direita
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Gustau Nacarino/Reuters
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Fazer desaparecer partes da antiga cidade de Palmira é mais do que destruir algo que passou incólume a mais de dois mil anos. É apagar o que resta de uma cidade que deveu o seu sucesso à passagem de pessoas diferentes, à multiculturalidade. Ao apagar marcas de um passado comum a todos os sírios, é uma acção para tentar impedir um futuro para a Síria enquanto país.

O auto-proclamado Estado Islâmico (EI) levou a cabo mais uma atrocidade com uma explosão que deitou abaixo o Tempo de Bel, considerado o mais importante do complexo arqueológico de Palmira.

Esta terça-feira, a ONU confirmou os efeitos da explosão de domingo: “Infelizmente, as imagens de satélite mostram que o principal edifício do templo foi destruído”, disse Einar Bjorgo, da Unosat, o serviço de satélite da ONU, à emissora britânica BBC. Um conjunto de colunas situadas perto também caiu.

A importância de Palmira é difícil de exagerar. Foi um dos primeiros locais a receber a distinção de Património da Humanidade da UNESCO, em 1980, pelas ruínas que datam de há mais de dois mil anos. Para os sírios, era não só um dos locais mais visitados por turistas (150 mil por ano antes da guerra) como um ponto de cruzamento de culturas e símbolo de tolerância, adorado por todos, independentemente da sua religião.

Foi lá que passaram mercadores da Síria e do Oriente, foi lá que foi adoptada arquitectura romana e governação grega, numa cidade que foi cristã e muçulmana. Os edifícios mudaram conforme a ocupação – foram igrejas, fortalezas ou mesquitas, notava a semana passada o professor de cultura clássica na universidade de Cambridge Tim Whitmarsh num artigo de opinião no diário britânico The Guardian. Mas mantiveram-se sempre intocados e preservados. Ironicamente, aponta, foi preciso chegar ao século XXI e à barbárie do EI para serem destruídos.

“Palmira é um dos mais belos e impressionantes locais que sobreviveu da antiguidade clássica”, sublinhava o historiador Tom Holland ao Guardian quando a cidade caiu nas mãos dos jihadistas, em Maio. “Mais do que isso, é um monumento ao grande caldo de culturas que estava no flanco oriental do império romano: o mesmo que, em última análise, serviu de incubadora ao islão. Considerar a sua destruição é demasiado terrível.”

Essa é outra razão para os jihadistas o fazerem: levar o mundo a reagir, de um modo que lhes permita argumentar que os ocidentais se preocupam mais com construções antigas do que com pessoas, dizem especialistas. Os apelos a intervenções estrangeiras para evitar a tomada de Palmira, quando houve ataques do regime de Bashar al-Assad que mataram dezenas de crianças com gás e não aconteceu nada, ajudam esta narrativa.

O avanço dos jihadistas em Palmira (que tem ainda importância estratégica e fica perto de instalações militares e campos de extracção de gás) foi ainda visto como uma medida do declínio do regime de Assad, impotente perante a ameaça a um dos símbolos mais acarinhados do país.

A força do EI na Síria mantém-se apesar dos ataques da coligação internacional. Ainda na segunda-feira, o primeiro-ministro canadiano reconhecia que as acções da coligação internacional contra o EI não estavam a dar resultados suficientes. “A intervenção teve o resultado de parar o avanço do EI no norte do Iraque e em alguma medida noutras partes do Iraque e da Síria, mas não tanto quanto gostaríamos”, disse Stephen Harper.

Apagar uma cultura
Depois de tomarem a cidade, os jihadistas disseram que destruiriam estátuas por considerarem a sua adoração idolatria, e logo o fizeram. Prometeram que não destruiriam estruturas, mas fizeram explodir dois mausoléus. Agora, passaram aos templos. Na semana passada, puseram explosivos no templo de Baal-Shamin, o segundo mais importante do complexo. A chefe da UNESCO Irina Bokova classificou então a acção como “mais um crime de guerra”, garantindo no entanto que apesar disto, “o Daesh [outra denominação para o grupo jihadista] não vai silenciar a história e não vai conseguir apagar esta grande cultura da memória do mundo.” Este domingo, foi a vez do que é considerado o principal templo da antiga cidade-reino, o de Bel.

Estes não foram os únicos crimes cometidos pelo EI em Palmira: há duas semanas, os jihadistas decapitaram o arqueólogo Khaled al-Assad, de 81 anos, responsável pelas antiguidades e pelos museus da cidade entre 1963 e 2003, e que continuava a ter um papel na sua preservação como consultor.

“Destruir a história é parte de a re-imaginar nos seus termos, e cada sítio e monumento destruído é mais uma vitória” para os jihadistas, comentou James Denslow, do centro de estudos britânico Foreign Policy Center, no site da emissora panárabe Al-Jazira.

Um antigo responsável por antiguidades agora apoiante da oposição ao regime, Amr al-Azm, lembrava ao Guardian como a história de Zenóbia, a rainha que enfrentou os romanos, ainda diz muito aos sírios hoje.

“Quando este conflito acabar – e há-de ter de acabar um dia – os sírios vão olhar para os denominadores comuns que os ajudem a identificar como sírios, os incentivos para viverem juntos”, disse Azm. “A herança cultural é uma das poucas áreas em que todos concordam”, sublinhou. “Destruir o passado da Síria é também destruir o seu futuro.”