Katrina - a destruição de uma cidade com hora marcada

Há dez anos houve um desastre, uma catástrofe, uma tragédia, que todos preferiam esquecer. O Katrina chegou a uma cidade vibrante e deixou-a vergada. A tempestade começou a 27 — e por isso Obama estará lá.

Foi uma tragédia anunciada: como o resto da América, também eu estive hipnotizada em frente ao écrã da televisão, a assistir em Washington à transmissão em directo, e com hora marcada, da destruição de uma cidade. Nos dias imediatamente anteriores, o impacto da tempestade fora amplamente antecipado pelos meteorologistas e cientistas, que alertaram para a possibilidade de cheias de proporções épicas.

Mas apesar da ordem de evacuação obrigatória da cidade, mais de cem mil dos seus 483.663 residentes permaneceram em casa, ou por não terem condições e meios para sair, ou por se recusarem acreditar que o furacão que aí vinha era o “Big One”, prometido há décadas: seja como for, para milhares de pessoas começava ali uma desesperada batalha contra os elementos e pela sobrevivência.

Logo depois do nascer do dia 29 de Agosto, e em pouco mais de cinco horas, a força destruidora do Katrina — que entrou em terra como uma tempestade de categoria 5 — arrasou mais de 200 quilómetros de costa, deixou 80% da cidade submersa e matou quase duas mil pessoas, naquele que continua a ser o desastre natural mais devastador da História dos Estados Unidos.

O furacão foi uma tragédia em três actos: o primeiro correspondente à tempestade, o segundo resultado da inundação e o terceiro referente à crise social e política, alimentada pela confusão e inaptidão das autoridades e líderes políticos.

Nas primeiras horas e dias após a passagem da tempestade, o grande desafio foi entrar e — principalmente — sair de Nova Orleães. Inexplicavelmente impreparada, mas acima de tudo absolutamente impotente perante a força destruidora do vento (de mais de 250 quilómetros por hora), e da água (grande parte do território está encaixado, a uma cota abaixo do nível do mar, entre o rio Mississippi, o lago Pontchartrain e um complexo esquema de diques e canais, alguns de dimensões industriais), Nova Orleães tornou-se uma ilha inóspita, selvagem e isolada do resto do mundo.

O Superdome, um imponente complexo desportivo na zona alta da cidade, abriu as portas à população e viu-se convertido num campo de refugiados — com 9000 pessoas, na véspera do Katrina, e mais de 26 mil, no “day-after” do furacão, que deixou meio milhão de casas submersas. Dali chegaram, durante os cinco dias em que funcionou como albergue da cidade, os relatos mais dramáticos e assustadores: sem electricidade e água potável, sem camas ou privacidade, famílias inteiras ou dispersas viam morrer crianças e idosos sem poder fazer nada para os salvar.

A tensão acumulada rebentou em menos de 24 horas: roubos, violações, violência, saques, delapidação. A tempestade deu origem à maior crise de refugiados desde a Guerra Civil americana — que durante os primeiros dias foram forçados a viver em condições miseráveis e desumanas, sem hipótese de escape.

Enquanto se anunciavam os primeiros “comboios” de autocarros para transportar os desalojados do Superdome para o Astrodome de Houston, milhares de habitantes tomavam de assalto o Centro de Convenções, entre 15 mil e 25 mil pessoas que “governaram” o lugar até à chegada de mil soldados da Guarda Nacional no dia 2 de Setembro, quando comeram a primeira refeição (ração de combate) desde o Katrina.

De Baton Rouge (capital do estado), do Texas e de Washington, ensaiava-se a tímida resposta à crise humanitária. A agência federal de emergência e protecção civil (FEMA, na sigla em inglês) mobilizou mil funcionários e deu-lhes dois dias para chegar à cidade. Um dia depois, um contingente de mais de 5000 soldados da Guarda Nacional, mobilizados à pressa, tentavam impôr um mínimo de ordem. Na televisão, o país via — incrédulo e angustiado — um cenário familiar mas totalmente inédito, de checkpoints e tanques de guerra nas ruas de uma cidade americana.

A resposta de emergência, um autêntico pesadelo logístico, demorou a ser organizada porque só na quarta-feira, dia 31, é que a inundação da cidade estancou. A Guarda Costeira entrou em Nova Orleães com cerca de 60 barcos de borracha, dezenas de canoas e mais de 30 helicópteros, para resgatar habitantes empoleirados em árvores e nos telhados das suas casas, desidratados e em choque. A dimensão grotesca da tragédia tornava-se clara quando os barcos de socorro eram forçados a desviar-se dos cadáveres que flutuavam.

No aeroporto Louis Armstrong, só começaram a aterrar aviões civis cinco dias depois do furacão (o edifício tinha sido, entretanto, transformado num centro médico de emergência). Enquanto isso, centenas de voluntários faziam-se à estrada a partir do Texas ou da Florida, as malas dos carros carregadas com bidões de gasolina, garrafões de água, caixotes com barras de cereais, medicamentos e roupas limpas. Esse movimento, de organizações mas também famílias generosas e desinteressadas prolongou-se durante anos e permitiu que, a conta-gotas, numa micro-escala, muitas das 100 mil casas destruídas na tempestade fossem reconstruídas e várias comunidades fossem reerguidas.

Quando aterrei em Nova Orleães semanas depois da tragédia, só havia um hotel aberto em toda a cidade e pouco mais do que dez restaurantes, que abriam entre as duas e as cinco da tarde. Em Washington, à distância de cerca de 1700 quilómetros, tinha escrito todos os dias sobre as operações de resgate de sobreviventes e identificação dos mortos; sobre os incêndios e os saques; a paralisação completa da produção petrolífera do Golfo ou as infindáveis discussões e trocas de acusações entre políticos, especialistas e populações furiosas.

Lembro-me que ao aterrar se ouviu no avião um suspiro colectivo: o cenário visto de cima era de completa desolação. Mas ao perto era mil vezes pior. Por mais poderosas e dramáticas que fossem as fotografias e vídeos que durante dias sem fim preencheram os jornais e as emissões, não impressionavam (nem assustavam e arrepiavam e emocionavam) tanto como o ruído abafado de uma cidade que se conheceu alegre e exuberante — o jazz, a cultura cajun, o Mardi Gras — e se encontrava agora vergada e abandonada.

Nenhuma imagem representou melhor a negligência e abandono de Nova Orleães do que a fotografia do Presidente, George W. Bush, a vislumbrar da janela do Air Force One a devastação provocada pelo Katrina. Bush demorou três dias a montar uma reacção ao desastre: renitentemente interrompeu as férias de seis semanas para voltar a Washington, e só pôs os pés na cidade ao princípio da tarde de sexta-feira, para tirar uma fotografia em frente de um dos diques da cidade e fazer uma declaração de cinco minutos no aeroporto.

A resposta “oficial” federal, estadual e local ao Katrina, a tempestade que matou mais gente e destruiu mais património na História do país, será para sempre lembrada como o paradigma da incompetência e soberba da Administração Bush. O olhar vazio do Presidente, captado pelo fotógrafo oficial da Casa Branca a bordo do avião presidencial, tornou-se o retrato acabado do fracasso da sua presidência.

Foi o mayor de Nova Orleães, Ray Nagin, actualmente a cumprir uma pena de dez anos por corrupção, quem introduziu a questão da raça no debate sobre a resposta ao furacão. Numa entrevista televisiva em directo, o Nagin explodiu e atribuiu o aparente desinteresse do Governo federal na preparação e resposta de emergência ao facto de Nova Orleães ser uma “cidade chocolate”, ou seja, de maioria negra e pobre. Mas acabaria por ser o rapper Kanye West, durante uma tele-maratona de recolha de fundos para os desalojados do furacão, a pôr o dedo na ferida: “Já passaram cinco dias e a ajuda não chega. É porque são pretos. George W. Bush não quer saber dos pretos”, atacou.

Os discursos politicamente incorrecto e ligeiramente insensíveis de Nagin e West não contribuiram para aumentar a boa-vontade de Washington. Mas passados dez anos, é difícil desqualificar os seus desabafos da época, quando a informação de todos os relatórios e estudos feitos desde 2005 comprova que a população afro-americana foi a que mais sofreu e que menos recuperou da catástrofe. Em 2007, quando voltei a Nova Orleães para o segundo aniversário do Katrina, descrevi um outro cenário de guerra, que já não era dos soldados e desalojados, mas “uma guerra surda como havia antes: a dos ricos e dos pobres, dos brancos e dos negros, dos que pensam voltar e dos que só querem fugir”.

Uma sondagem da Universidade Estadual do Luisiana divulgada esta semana prova que, dez anos depois, brancos e negros têm uma percepção muito diferente da recuperação da cidade depois do furacão, resultado das suas experiências opostas: quatro em cinco residentes brancos dizem que Nova Orleães recuperou e que a qualidade de vida está igual ou até melhor, enquanto três em cinco negros dizem que está pior. Uma década depois do Katrina, um em cada dois negros com menos de 18 anos em Nova Orleães vive abaixo do limiar da pobreza; o fosso de rendimentos entre brancos e negros aumentou 18% e a taxa de desemprego da população afro-americana é o dobro da dos caucasianos, para usar as designações raciais das estatísticas.

Barack Obama, que no ano passado teve de lidar com uma profunda crise racial provocada pela morte de um adolescente negro por um polícia branco em Ferguson, ultrapassou uma série de episódios — incidentes nacionais e internacionais, de componente racial ou sectária — que a imprensa especulou constituírem o seu “Katrina moment”, o momento em que a sua Administração perderia o laço com a realidade. Mas as sucessivas previsões do fim da sua presidência nunca se materializaram, e esta quinta-feira, a dias do aniverário do furacão que engoliu Nova Orleães, o “momento Katrina” de Obama será uma visita por todos os bairros, paróquias e comunidades reconquistadas.

A data escolhida para o início das cerimónias remete para o dia em que o furacão começou a formar-se, sobre as águas do Golfo do México, a quilómetros de Key West, na ponta da Florida. Era a madrugada do dia 27, sábado, e o Katrina era uma tempestade de categoria 3 que evoluía lentamente, o que fazia aumentar o seu potencial destrutivo. À meia-noite de domingo, o Katrina era declarado um furacão de categoria 4, que até às seis da manhã ganharia força suficiente no delta do Mississippi para atingir a categoria 5, máxima na escala de classificação dos furacões. A tempestade entrou em terra em Buras, às 6h10 de segunda-feira, dia 29 — o olho do furacão a menos de 100 quilómetros de Nova Orleães. Às oito da manhã, uma parede de água ultrapassa o canal industrial e começa a inundar a zona oriental; em 15 minutos, as águas sobem acima dos dois metros.

Nesses primeiros dias pós-Katrina, a população de Nova Orleães era composta basicamente por militares, jornalistas, pessoal de emergência e os operários que vinham para as demolições — trabalhadores do México, de El Salvador e da Nicarágua. Poucos residentes se tinham atrevido a regressar quando as estradas reabriram: alguns chefes de família, sobretudo aqueles que viviam nos bairros de classe média alta, vinham pela primeira vez verificar o estado das suas casas.

Falei com vários que, pragmaticamente, documentavam os danos para participar às companhias de seguro. Percorri com eles as suas ruas, num sinistro inventário de casas destruídas e comidas pelo bolor, árvores e postes tombados, carros revirados, canos de esgotos expostos: esta casa não tem hipótese, avaliavam, estes vizinhos já me disseram que não voltam…

Só quando voltei, seis meses mais tarde, consegui entrar no famoso Lower 9th Ward, o bairro “problemático” de população maioritariamente negra, desempregada e pobre que foi dado como perdido por causa da cheia — foram precisos meses para escoar toda a água acumulada com o rombo monumental do canal industrial que atirou uma barca de contentores para o meio da rua.

Em Fevereiro de 2006, a cidade atordoada tentava lamber as feridas e organizar o primeiro Mardi Gras (Carnaval) pós-Katrina. Havia poucos sinais de recuperação, algum movimento aqui e ali mas pouco mais. A economia continuava em suspenso, a criminalidade era elevada, a maioria dos moradores que tinham decidido voltar para a cidade vivia nas traseiras ou nos relvados das suas casas, nas infames roulottes disponibilizadas pela FEMA. E como as escolas nunca reabriram depois do furacão (56 mil alunos do sistema público ficaram sem aulas), a maior parte das famílias ainda estavam distribuídas por outros estados, a tentar viver uma vida “normal”.

No Lower 9th, a abreviatura por que é conhecido o célebre bairro natal do mítico Fats Domino (“Walking to New Orleans”), a tragédia do Katrina ainda se revelava no seu máximo. Lembro-me que parei o carro e passeei sob um sol inclemente, surpreendida com a determinação da natureza em reclamar os destroços das casas abandonadas. Os arbustos e as flores silvestres abundavam, mas o bairro era um lugar sombrio e sem vida, um escombro, um cemitério. Escrevi na altura que durante horas não vi “uma pessoa, um pássaro, um cão”, nada de carros a ir e vir e muito menos máquinas a trabalhar, nenhum residente a espreitar, nenhuma roulotte FEMA. O ar era denso, o silêncio era opressor, carregado de tristeza e solidão.

Hoje, o canal está reconstruído, Fats Domino está de volta a casa e pelas ruas do Lower 9th há música e churrascos. Mas metade dos antigos residentes não regressaram — na enxurrada do Katrina, houve coisas que se perderam para sempre.
 

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