No Reverence Festival Valada encontram-se as margens do rock nas margens do Tejo

Na sua segunda edição, o Reverence Festival, em Valada do Ribatejo, pretende consolidar espaço no panorama de festivais em Portugal. Tem bons argumentos: Amon Düul II, Jon Spencer Blues Explosion, Horrors ou Sleep.

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Os alemães Amon Düul, históricos do krautrock são uns dos destaques e tocam sábado dr

O ano passado foi o ano da estreia e foi um fartote. 85 bandas, entre históricos como Hawkwind, destaques do nosso tempo como os Black Angels, bandas de culto como os Bardo Pond ou os Electric Wizard, gente a descobrir por mais gente como os Moon Duo, ou nomes de ontem e de hoje indispensáveis no rock que se faz por cá, como os Mão Morta, os Black Bombaim ou JIBÓIA. Este ano, em Valada do Ribatejo, na paisagem bucólica às margens do Tejo, o Reverence Valada Festival reincide.

Entre esta quinta-feira e sábado, haverá históricos (Amon Düul), haverá clássicos do nosso tempo (Jon Spencer Blues Explosion), haverá gente na crista da onda (os Horrors) e haverá descobertas a fazer (ponhamos os ouvidos nos chilenos Chicos de Nazca; não percamos os americanos Magic Castles).

Valada do Ribatejo é uma pequena vila às portas do Cartaxo. Foi ali que uma equipa formada por um inglês a viver há alguns anos na zona, Nick Allport, com longo passado no meio musical, juntou esforços a promotores independentes ingleses e portugueses (respondem hoje pelo nome de RevFest), e reuniu o apoio da Câmara Municipal do Cartaxo. O objectivo? Montar um festival que fosse montra e celebração do rock das margens – o psicadélico, o stoner, o shoegaze, o metal. O primeiro ano atraiu cerca de oito mil pessoas que saltaram entre os três palcos disponíveis no Parque das Merendas de Valada do Ribatejo, que aproveitaram os bancos e mesas de pedra à sombra da zona de restauração, com DJs a oferecer-lhes boa música desde o início da tarde até longe na madrugada, que descansaram o olhar no Tejo e que aproveitaram as boas tascas e restaurantes à disposição.

Assegurados os melhoramentos logísticos na zona de campismo, alargada a oferta de restauração e disponibilizados novos serviços, como o espaço onde se podem deixar os filhos pequenos para ir receber sem preocupações o volume de decibéis obrigatoriamente e agradavelmente elevado, foi montado este ano um cartaz menos extenso que à estreia. A razão para tal é meritória: assegura-se assim uma maior duração dos concertos, mais tempo para submergir nestas músicas que pedem que nos demoremos nelas para que o seu efeito seja total.

Equilibrando a criatividade nacional com talento resgatado a vários recantos europeus e norte-americanos, o Reverence Festival Valada faz o pleno nas suas duas primeiras edições. Neste sentido: o ano passado, promoveu a estreia em Portugal dos Hawkwind, lendas britânicas do rock psicadélico; este ano, traz até nós, também pela primeira vez, os Amon Düul II, banda histórica do rock cósmico alemão dos anos 70. Foram fundados em 1968 em Munique, no seio de uma comuna de libertários políticos e artísticos que traduziram em música as suas convicções: rock livre, aberto a várias contaminações e alheio a regras pré-definidas do que deve ser uma canção. Momento histórico a viver no sábado, a partir das 23h30, imediatamente antes da entrada em palco dos cabeças-de-cartaz The Horrors.

O último dia de festival será particularmente preenchido. Teremos o espírito dos Brian Jonestown Massacre, representado por Joel Gion e os antigos membros dessa banda charneira que o acompanham; (20h30, entrevista amanhã no Ípsilon); teremos o sempre bom rock’n’roll do Barreiro representado em dose tripla (Fast Eddie Nelson, 16h20; The Jack Shits, 18h40; The Act-Ups, 20h); teremos os 10000 Russos, sedeados no Porto, e que asseguraram contrato discográfico com a britânica Fuzz Club no momento em que, já de madrugada, saíram de palco no concerto em Valada o ano passado. E deveremos prestar atenção ao caleidoscópio colorido que são os óptimos Magic Castles (2h50).

Um dia antes, sexta-feira, saudaremos, como sempre, o regresso dessa máquina rock’n’roll chamada Jon Spencer Blues Explosion (23h). Sucedem-lhe, às 0h30, os Sleep, banda imprescindível, nos anos 90, na definição do stoner, ou seja o metal entregue à divagação psicadélica, regressados aos palcos em 2009. No mesmo dia, destaque também para os americanos Warlocks, como que uns Velvet Underground nascidos num cemitério índio no deserto (18h10), para o shoegaze feito canção dos britânicos Cheatahs (18h40) ou para o shoegaze feito viagem dos italianos Ufomammut (22h30) - e será sempre bom reencontrar Sean Riley & The Slowriders (22h) ou os bissextos Saturnia do guru psicadélico Luís Simões, habitualmente a bordo da nave Blasted Mechanism (3h20).

Esta quinta-feira, o festival arranca em modo “redux”, tal como o ano passado, com apenas o palco Rio aberto à música (o palco Reverence e o palco Praia guardam-se para os dias seguintes). Será ali que veremos os supracitados Chicos de Nazca (20h30), o psicadelismo tropical dos Beautify Junkyards (18h10) ou os Keep Razors Sharp (24h).

Nesta segunda edição, os objectivos da organização passam por consolidar o festival, no que será mais um passo no ambicioso objectivo anunciado em Julho, quando da apresentação da edição 2015 à imprensa: “estabelecer o nome Reverence Valada como um evento de referência e cimentá-lo como um acontecimento de renome internacional, fazendo melhorias significativas, com o intuito de o transformar no maior festival de rock ‘underground’ do Sul da Europa.” A história ainda está a dar os primeiros passos. Acompanhemo-la enquanto acontece.

Os passes de três dias custam 70 euros. Os bilhetes diários custam 15 euros (quinta-feira) e 45 euros (sexta e sábado).