Prato forte de teatro na despedida do Próximo Futuro

É o prato forte desta derradeira edição do programa desenhado por António Pinto Ribeiro. Um fim antecipado com a sua saída da Fundação Gulbenkian, em ruptura com o Conselho de Administração.

<i>El Loco y la Camisa</i> é um dos maiores sucessos recentes do teatro independente argentino
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El Loco y la Camisa é um dos maiores sucessos recentes do teatro independente argentino DR

O momento em que o Próximo Futuro, ao fim de sete anos, se tornará passado acontecerá a 15 de Setembro, com o cair do pano sobre a última de duas apresentações de A Circularidade do Quadrado, do dramaturgo grego Dimitris Dimitriadis, em encenação de Dimitris Karantzas. O teatro, de resto, é o prato forte desta derradeira edição do programa desenhado por António Pinto Ribeiro, o programador-geral que deixou as suas funções em ruptura com o conselho de administração Fundação Calouste Gulbenkian.

Muito embora o foco esteja claramente apontado na direcção do teatro, o arranque do Próximo Futuro far-se-á com um concerto da Orquestra de Câmara Portuguesa dirigida pelo maestro Pedro Carneiro. Nos dias 4 e 5, no Grande Auditório, o programa, intitulado Espírito Radical, terá evidentes ressonâncias políticas, com a escolha de obras de Iannis Xenakis e de Louis Andriessen. Okho, peça de Xenakis (imigrante grego nascido na Roménia, membro activo da Resistência grega comunista durante a II Guerra Mundial) composta por encomenda do Estado francês no âmbito das comemorações do 200.º aniversário da República, foi escrita para três djembés, três instrumentos de percussão africanos, tendo logo sido entendida como uma tomada de posição sobre o colonialismo gaulês. Workers Union, de Andriessen, combina o rigor da escrita com o espaço para a liberdade interpretativa, sendo o público chamado também a participar.

Entre 5 e 7 de Setembro, no Teatro Aberto, El Loco y la Camisa será a primeira peça de teatro a integrar o programa (segue para Loulé dia 10). O espectáculo da companhia argentina Banfield Teatro Ensamble, encenado por Nelson Valente, cumpriu cinco temporadas em Buenos Aires, sendo um dos maiores sucessos recentes do teatro independente argentino, e põe-nos diante de uma família desesperada por esconder de todas as formas possíveis o louco que lhe calhou em sorte. Da América Latina chegará ainda o teatro de marionetas chileno da companhia Silencio Blanco, de 9 a 13 de Setembro. O silêncio no nome da companhia indica precisamente uma das ferramentas criativas deste colectivo que trabalha com marionetas de papel, aqui ao serviço de Chiflón, el Silencio del Carbón, a história baseada num conto de Baldomero Lillo e que segue um jovem mineiro obrigado a trabalhar numa mina pouco recomendável. A 12 e 13 os chilenos apresentarão ainda De Papel, espectáculo para a infância.

A partir da obra do escritor e antropólogo Ruy Duarte de Carvalho, Vou Lá Visitar Pastores (6, 7 e 8) estabelece uma ponte para assinalar os 40 anos da independência de Angola. Encomendada originalmente pela Culturgest em 2003, a encenação de Manuel Wiborg debruçar-se-á sobre a vida e o meio dos kuvale, valendo-se de desenhos, fotografias e vídeos documentados pelo autor naquelas terras, adicionando uma dimensão visual recolhida junto do espólio pessoal de Ruy Duarte de Carvalho e aproximando o texto do registo do teatro documental.

Durante todo o Próximo Futuro, a Casa-Arquivo, lugar de construção temporária nos Jardins da Gulbenkian, acolherá um Ciclo de Curtas e Médias Metragens em sessões de entrada livre, um concerto de hang pelo percussionista Kabeção Rodrigues e um debate com Viriato Soromenho-Marques, Juan Marchena Fernández e Aurora Carapinha sobre a “lei da mãe-terra” boliviana (dia 9). O encerramento ficará, então, por conta de A Circularidade do Quadrado (14 e 15), peça-sensação do ano passado no Festival de Avignon e que coloca em cena 11 personagens de diferentes géneros, gerações e preferências sexuais. Todas à procura do mesmo: serem amadas.