Rir e chorar com Tig Notaro

Com o documentário Tig, que conta a vida da humorista norte-americana Tig Notaro, ri-se, chora-se e volta-se a rir. Pode a comédia transformar a tragédia em humor? Pode. Tig é a prova.

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Tig Notaro quando lançou o álbum Tig Notaro – Live em 2013 Brian Cahn/Corbis
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Tig Notaro e a actriz Stephanie Allynne no documentário Tig dr
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Tig Notaro e a actriz Stephanie Allynne no documentário Tig dr
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Tig Notaro no documentário Tig dr
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A capa do disco Tig Notaro – Live dr
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Um outro documentário, Knock Knock, It’s Tig Notaro, de Michael LaHaie e de Christopher Wilcha dr
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um outro documentário, Knock Knock, It’s Tig Notaro, de Michael LaHaie e de Christopher Wilcha dr

“Boa noite. Olá. Eu tenho cancro. E com vocês, tudo bem?”. Foi assim que a humorista norte-americana Tig Notaro começou, em 2012, aquele que se tornou o seu mais famoso espectáculo de stand-up comedy, no Largo Theater, em Los Angeles.

O espectáculo deu origem a um disco, Tig Notaro – Live - disponível no iTunes, na Amazon e no Spotify - que chegou ao top de comédia da revista Billboard e esteve nomeado nos Grammy na categoria de Melhor Álbum de Comédia em 2014.

É com a recordação desse espectáculo de stand-up que começa o documentário Tig – Finding Life in the Face of Death, realizado por Kristina Goolsby e Ashley York, que se estreou no serviço de streaming Netflix no dia 17 de Julho depois de ter sido apresentado no Festival de Cinema de Sundance no início do ano.

O documentário, que demorou dois anos a ser feito, começa em Agosto de 2013, um ano depois desse show memorável e com a apresentação de um outro espectáculo de stand-up de Tig em que os comediantes Sarah Silverman e Zach Galifianakis, seus amigos, também participam. Vemos a azáfama nos bastidores e o nervoso miudinho que invade Tig neste regresso ao mesmo palco. 

“A comédia é sempre um risco. Mas há exactamente um ano, quando estava atrás do palco à espera que o Ed [Helms, também comediante e actor] me anunciasse, eu só pensava que não tinha nenhuma ideia de como é que ia correr. Entrei em palco sem saber se ia viver ou morrer. E por causa da minha vida estar a ruir tão rapidamente, de alguma maneira assumi que ia morrer”, conta Notaro no início do documentário.

2012 foi o seu annus horribilis. A carreira até parecia ir bem, tinha mais trabalho do que alguma vez tinha tido, estava em digressão pelo país, todas as semanas participava no podcast Professor Blastoff com outros humoristas (o programa só terminou no mês passado), tinha um espectáculo regular no Largo Theater, andava em filmagens e até tinha planos para tentar engravidar. Mas depois de uma pneumonia, durante as filmagens de In a World, de Lake Bell, não se sentia bem e um dia colapsou. Foi parar ao hospital com fortes dores abdominais. Descobriram que tinha uma infecção causada pela bactéria Clostridium difficile. Emagreceu mais de nove quilos, tinha dificuldade em comer, ficou muito fraca. Parecia-lhe que sentir-se pior era impossível. Ainda não sabia o que lhe ia acontecer.

Uma semana depois, a 24 de Março de 2012, dia do seu 41.º aniversário, Tig não conseguiu atender a tempo o telefonema da mãe a cantar-lhe os Parabéns. Dois dias depois o telefone voltou a tocar - era de casa dos pais. Achou que era a mãe a tentar apanhá-la para lhe dar os parabéns outra vez, mas era o padrasto, com uma má notícia. A mãe de Tig tinha caído na sala na noite anterior, bateu com a cabeça, mas parecia estar bem e não foi ao hospital. No dia seguinte o marido encontrou-a inconsciente. Os médicos diziam que não ia sobreviver. A mãe de Tig tinha 65 anos e morreu pouco depois. No filme, Notaro conta que se sentiu como se no momento em que estava a começar a ver a luz ao fundo do túnel alguém lhe colocasse um outro túnel a seguir.

Viral da noite para o dia
Dois meses depois, em Julho, Tig Notaro descobriu dois nódulos e foi diagnosticada com cancro da mama bilateral. No dia seguinte tinha um espectáculo de stand-up marcado. Decidiu mantê-lo. Via sentido de humor no que lhe estava a acontecer. Era tão ridículo, tão hilariante. Depois de tudo o que lhe tinha acontecido ainda tinha cancro?! Afinal a comédia podia transformar a tragédia em humor. E começou a escrever as piadas.

Foi esse o famoso espectáculo que aconteceu no dia 3 de Agosto de 2012: “Hello. I have cancer. How are you? Is everybody having a good time? Diagnosed with cancer.” A plateia foi apanhada de surpresa. As pessoas não sabiam como reagir, se rir ou se chorar ou se fazer as duas coisas. Quando perceberam que não era uma ficção, algumas choraram. Ela quase chorou e quis ir embora mas o público incentivou-a a continuar. Durante a noite a notícia do que tinha acontecido no espectáculo tinha-se tornado viral. O Twitter começou a encher-se de mensagens. O comediante Louis C.K. twittou: “Em 27 anos disto, vi uma mão cheia de números de stand-up estupendos. Um deles foi o que Tig Notaro fez a noite passada no Largo.”

A caixa-de-correio da comediante encheu-se com centenas de emails. Fizeram-lhe propostas para que escrevesse um livro e ela só pensava: ‘Mas será que vou viver tempo suficiente para o acabar?’ Era tanto o hype que Louis C.K lhe propôs recuperar o áudio do espectáculo e vendê-lo através do seu website (já que não havia sequer um vídeo). Foi um sucesso de vendas. A sua carreira vivia um momento de euforia, Tig Notaro ganhou fãs como nunca tinha tido.

Um mês depois a humorista foi submetida a uma dupla mastectomia. Ela que durante anos tinha feito piadas por as suas mamas serem tão pequenas e por a confundirem inúmeras vezes com um rapaz. Uma boa notícia chegou finalmente. Os médicos disseram-lhe que não havia metástases e que tinham conseguido retirar tudo. Pela primeira vez, em muito tempo, respirou aliviada.

Esta história já foi várias vezes contada - Tig Notaro passou grande parte do período da sua recuperação a dar entrevistas. Mas mesmo assim ficamos emocionados ao ver o documentário, muito íntimo - soa a verdadeiro. No Festival de Cinema de Sundance, numa sessão de conversas organizadas pelo New York Times e que está disponível online, Tig Notaro contou que foi a sua amiga Kristina Goolsby que lhe propôs fazer um filme e que concordou porque achou importante mostrar como tentou compor a sua vida quando tudo parecia ruir. “Honestamente não sabia se o filme podia a ir a algum lado. Eles apareciam todos os dias e filmavam. Agora estamos em Sundance e o filme é tão pessoal… Tenho muito orgulho, fizeram um trabalho espectacular”, disse nesse evento no Cinema Cafe. em Sundance.

Final feliz
No filme, a actriz revela a sua insegurança depois do sucesso do espectáculo no Largo e como foi difícil o regresso aos palcos. Aliás, um outro documentário, Knock Knock, It’s Tig Notaro, de Michael LaHaie e de Christopher Wilcha (que passou em Abril no canal Showtime e está disponível no YouTube), mostra também esse período depois da doença, em que para combater o medo do palco Notaro fez uma tournée pelos Estados Unidos actuando em casas de fãs. Foi ela que os seleccionou através de vídeos que lhe enviaram para a receber em suas casas acompanhada pelo comediante Jon Dore.

Mas o que é também emocionante em Tig é a sua luta para ter filhos, já que por causa da estimulação hormonal necessária para a inseminação artificial, havia o perigo de o cancro se voltar a desenvolver noutro sítio do seu corpo. E se voltasse não seria tratável. A sua escolha é revelada no filme, bem como o processo que usou para encontrar uma barriga de aluguer (lançou um apelo através do seu podcast). Tig é também um filme que  conta uma bonita história de amor.

Quando estava a filmar In a World, Tig contracenou com a actriz Stephanie Allynne e ao longo do tempo foram ficando cada vez mais amigas. Notaro foi percebendo que queria passar o resto da sua vida com aquela mulher mas não era fácil:  Stephanie Allynne era heterossexual.  Mas o  final foi feliz - Tig e Stephanie  ficaram noivas em Dezembro passado, na passagem de ano.

Tig Notaro está agora a escrever as suas memórias, o tal livro que ela não sabia se viveria para escrever, que deverá ser publicado em 2016. 
Por estes dias, a revista Hollywood Reporter anunciou que irá fazer, com Louis C.K. e para a Amazon, um episódio piloto de uma série semiautobiográfica que escreverá a meias com Diablo Cody.

Trabalho parece não lhe faltar, mas a verdade é que precisou de seis meses para voltar a enfrentar o público e conseguir voltar a produzir material novo. Custou-lhe. Foi um processo longo mas agora está contente com o seu novo espectáculo, Tig Notaro: Boyish Girl Interrupted, que teve uma das sessões gravadas ao vivo no Wilbur Theater de Boston e passará na HBO, no dia 22 de Agosto (já há trailer). Em duas ocasiões, enquanto estava a actuar Tig Nataro despiu a camisa (como se nada se passasse) para mostrar as suas cicatrizes resultantes da sua dupla mastectomia. Uma dessas vezes foi no dia da gravação do espectáculo para a HBO. Diz que não repetirá.

Depois da cirurgia tinha-se imaginado a fazê-lo e deu-lhe vontade de rir. Tal como lhe tinha acontecido quando pensou pela primeira vez entrar no palco e divulgar que tinha cancro, incorporando a tragédia pessoal da sua vida no seu trabalho de stand-up. Tig não fez uma reconstrução mamária, por isso não tem mamilos. Passaram-se semanas até que conseguisse olhar para as cicatrizes do seu corpo. “Foi um processo de perceber simplesmente que tenho uma doença mortal, que os médicos fizeram uma cirurgia e que agora a minha pele cicatrizou”, explicou no evento do New York Times no Cinema Cafe, em Sundance.

Por que é um tabu tão grande despir a camisa e mostrar as cicatrizes? Se tivesse uma cicatriz na cara, assegura que ninguém lhe pediria para actuar com um saco enfiado na cabeça. Quando Tig Notaro divulgou aos amigos o que pensava fazer, alguns incentivaram-na, outros tiveram medo que não conseguisse recuperar a audiência ou que o gesto fosse interpretado como truque publicitário.

Tig Notaro diz que o fez porque quer que as pessoas falem do seu humor, de assuntos relacionados com o corpo (neste caso um corpo que sobreviveu à doença), de cancro e de cicatrizes. Com aquele espaço para fazer statements como mulher e como sobrevivente de cancro, não ia perder a oportunidade. Conta que no final do espectáculo, lhe vieram dizer que sentiram a cabeça explodir quando ela ficou em topless mas que ao fim de 35 segundos deixaram de reparar. Só estavam atentos ao que ela dizia e ao seu espectáculo de stand-up comedy