Desfecho fatídico na serra de Aire e Candeeiros num ano pródigo em resgates nas áreas protegidas

Homem de 62 anos que praticava geocaching foi encontrado sem vida. No Gerês, autoridades tiveram que socorrer 12 pessoas desde o início do ano.

Na Peneda-Gerês, os pedestrianistas avisam que a taxa desincentiva o usufruto ordenado do parque
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Na Peneda-Gerês, os pedestrianistas avisam que a taxa desincentiva o usufruto ordenado do parque Fernando Veludo/NFACTOS

Quase 48 horas depois de ter sido dado o alerto para o seu desaparecimento, foi encontrado sem vida o homem que praticava geocaching na área do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. O corpo de José Andrade, de 62 anos, foi localizado ao início da tarde desta segunda-feira, a poucos metros do seu carro, numa zona de difícil acesso. Este caso com desfecho fatídico acontece num ano em que têm sido muitos os pedidos de resgates a pessoas perdidas em áreas protegidas. O aumento da procura turística e a moda de algumas modalidades de desportos de natureza podem explicar esta realidade.

O alerta para o desaparecimento de José Andrade, um antigo professor de Educação Física, tinha sido dado pela sua esposa cerca das 15h00 de sábado. Desde então decorriam buscas na área da serra de Aire e Candeeiros, no distrito de Leiria, para tentar localizar o homem que praticava geocaching, um jogo tipo "caça ao tesouro" realizado ao ar livre em que se usa um sistema de navegação por satélite GPS. As buscas tinham sido retomadas na manhã desta segunda-feira, com cerca de 30 operacionais da GNR, bombeiros, Protecção Civil e Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.

De acordo com a GNR, foi um elemento deste grupo de operacionais que encontrou o corpo, num local "que não fica muito longe da viatura do homem". A mesma fonte disse ao PÚBLICO que "se presume que ele estaria de regresso ao carro" quando algo aconteceu. Mas não adiantou mais detalhes a não ser que o cadáver do homem está numa zona de arbustos, pouco acessível.

À agência Lusa o comandante da GNR das Caldas da Rainha, Hugo Carneiro, deu mais pormenores: o cadáver foi encontrado "às 13h30, a cerca de 50 metros do próprio carro, num local de difíceis acessos e escondido pela vegetação", por um militar e um cão de busca da GNR. Estava a cerca de três quilómetros do Itinerário Complementar (IC) 2 para o interior da serra, na localidade de Ataíja de Cima, no concelho de Alcobaça, precisou o mesmo responsável.

A GNR não esclarece também se o corpo foi ou não encontrado com algum tipo de ferimentos que pudessem indiciar o que motivou o falecimento de José Andrade. "As causas da morte vão ser investigadas", avança fonte policial. O corpo da vítima foi transportado para o Instituto de Medicina Legal de Leiria para ser autopsiado.

O PÚBLICO tentou obter dados sobre o número de resgates em áreas protegidas ao longo deste ano junto do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, mas não foi possível obter uma resposta em tempo útil. Mas, olhando para as notícias dos últimos meses, percebe-se que o ano tem sido pródigo em desaparecimentos em parques naturais.

Por exemplo, no início do ano, um turista finlandês foi resgatado nas serras do norte da Madeira quando saiu de um trilho marcado para tirar fotografias. Há duas semanas, os bombeiros de Setúbal tiveram que resgatar um casal na Serra da Arrábida. Ao final da tarde, entra a zona da praia do Creiro e o portinho da Arrábida.

"Tem havido um aumento muito grande da procura", explica Marcelo Miranda Ribeiro da agência Tapete Voador, que há sete anos trabalha com viajantes em áreas protegidas, sobretudo no Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). "Neste momento nem conseguimos arranjar alojamento para todos os pedidos que recebemos", justifica.

O PNPG é, de resto, exemplo paradigmático desta realidade. Naquela área, a GNR já foi chamada a resgatar 12 pessoas desde o início do ano. Um número que contrasta de forma evidente com o que tinha acontecido em 2013 e 2014, quando só tinha sido registada uma ocorrência deste género em cada um desses anos. De entre os turistas que estiveram desaparecidos no Gerês, apenas dois eram portugueses. Os restantes eram estrangeiros (franceses, alemães, ingleses e chilenos) de visita a Portugal.

"Quantas mais pessoas vêm, mais varia o tipo de 'aventureiros'. Fica mais fácil que as pessoas se percam nessas circunstâncias", defende Marcelo Ribeiro. Para a GNR da vila do Gerês, responsável pelo patrulhamento na área, a explicação para o aumento do número de pedidos de resgates também tem a ver com a popularidade do turismo de natureza e de modalidades que privilegiam espaços florestais como é o caso do geocaching. "Muitas das vezes as pessoas saem dos trilhos apesar de estes estarem sinalizados e acabam por perder", conta a mesma fonte do comando daquele posto territorial.

Ao contrário do desfecho trágico da Serra de Aire e Candeeiros, todos os turistas que tiveram que ser resgatados na área no PNPG foram socorridos em tempo útil e não tiveram quaisquer sequelas. O caso mais complicado aconteceu em Junho quando uma turista de nacionalidade francesa foi encontrada, pelas 3h, já em hipotermia.