Ataque suicida atribuído ao PKK faz temer regresso da guerra civil

Há cada vez mais sinais do retorno à violência quotidiana no conflito entre o Governo turco e os rebeldes curdos. Iraquianos acusam Ancara de matar civis nos bombardeamentos do seu lado da fronteira.

Manifestação anti-guerra no centro de Istambul, junto à praça Taksim
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Manifestação antiguerra no centro de Istambul, junto à praça Taksim Ozan Kose/AFP

Um atentado suicida atribuído ao PKK matou dois soldados turcos e feriu 31, no último sinal de escalada de um conflito que parece definitivamente reacendido entre o Governo da Turquia e os rebeldes curdos. A confirmar-se a autoria, este é o primeiro ataque suicida do Partido dos Trabalhadores do Curdistão desde a trégua de 2013, quebrada quando Ancara declarou, há quase duas semanas, uma ofensiva “contra ao terrorismo”, avisando que não distinguiria entre os curdos armados e os jihadistas do Estado Islâmico.

De acordo com a agência de notícias governamental Anatolia, um tractor armadilhado lançou-se ao início da manhã de domingo contra um quartel militar nos arredores da cidade de Dogubayazit, no Leste da Turquia. Os media turcos asseguram ainda que logo depois da explosão, os soldados foram visados por disparos e que os rebeldes tentaram emboscar as equipas de socorro que acorreram ao local. Entre os feridos, “quatro encontram-se em estado grave”.

O PKK, que em 1984 iniciou uma rebelião armada contra o Estado turco, desencadeando uma guerra civil que matou mais de 40 mil pessoas, é ainda acusado de um outro ataque que matou um soldado turco e feriu quatro quando uma mina explodiu à passagem de uma coluna militar numa estrada da província de Mardin (Sudeste).

Sábado tinha sido Ancara a bombardear uma série de posições alegadamente usadas pelo PKK no Curdistão iraquiano. Num comunicado, o presidente desta região autónoma do Norte do Iraque, Massoud Barzani, acusou os turcos de terem morto pelo menos dez civis e feridos 15 nos seus raides aéreos e exigiu à Turquia que pare com os bombardeamentos do lado iraquiano da fronteira. Barzani também pediu ao PKK para abandonar a zona: “O PKK deve afastar o campo de batalha para evitar que os civis sejam vítimas desta guerra. Se o PKK não tivesse bases nesta região, a Turquia não estaria a bombardear civis”, afirmou Barzani.

Na última semana, os caças da Força Aérea turca têm atacado as bases do PKK dos dois lados da fronteira e largado bombas na montanha de Kandil (na fronteira entre o Iraque e o Irão, uma das bases mais importantes da guerrilha curda). Ancara diz que já matou 260 combatentes; o PKK só reconhece meia dúzia de baixas.

“Com estes ataques, a Turquia praticamente pôs fim de forma unilateral ao estado de não conflito e ao processo de paz”, diz à Al-Jazira Zagros Hiwa, porta-voz da União das Comunidades Curdas, a ala política do PKK, nas montas de Kandil, no Iraque, onde os raides turcos continuam.

As autoridades turcas desmentem ter atingido civis. “Os alvos no Norte do Iraque e dentro da Turquia estão a ser identificados por pessoal qualificado, baseiam-se em dados que permitem confirmação visual depois de um estudo meticuloso e detalhado”, garante o Exército.

Bagdad também criticou a “violação de soberania” de Ancara, mas o Ministério dos Negócios Estrangeiros turco respondeu acusando o Governo iraquiano de não cumprir o acordado entre os países. “Apesar de o Governo sublinhar o seu compromisso de não permitir ataques contra a Turquia lançados a partir de território iraquiano, é claro que este compromisso não foi cumprido e muitos militantes armados do PKK continuaram a ser acolhidos no território iraquiano nos últimos anos”. Bagdad e Ancara têm um acordo que permite às forças de segurança dos dois países entrarem no território do outro para perseguir “terroristas”, desde que estas incursões não ultrapassar os 15 quilómetros.

"Tempestade violenta"
Enquanto no terreno a situação parece ser cada vez mais de guerra civil, na Turquia sucedem-se as manifestações contra os ataques do Governo ao PKK. A maioria acontece nas regiões onde se concentra a população curda, no Sudeste do país, mas também há protestos em Istambul.

Muitos turcos – curdos e não só – acusam o Governo do AKP e o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, de terem aproveitado o atentado suicida do Estado Islâmico de dia 20 de Julho no Sul do país para enterrar o processo de paz iniciado em 2012 com os curdos e, ao mesmo tempo, perseguir o partido pró-curdo HDP, que nas legislativas de Maio tirou a maioria absoluta ao partido no poder. Nas últimas semanas, as autoridades já detiveram centenas de militantes curdos, muitos sem ligações óbvias ao PKK mas sim ao activismo social e político.

O líder do HPD, Selahattin Demirtas, fez um apelo ao PKK, pedindo à rebelião para pôr fim aos seus ataques. Em declarações à imprensa turca, Demirtas pediu aos rebeldes e ao Governo para recomeçarem o diálogo, assegurando que se isso não acontecer o país "se aproxima rapidamente de uma violenta tempestade".