Editorial

As responsabilidades da Europa

Em vez de políticas cegas, os líderes europeus devem parar para pensar.

A crise dos migrantes em Calais não tem fim à vista. Por muito que os políticos de cada um dos dois lados da fronteira façam proclamações ou ameaças, o desespero falará sempre mais alto nas decisões de vida das pessoas que se sentem sem futuro. Numa declaração conjunta, os ministros do Interior da França e do Reino Unido lançam agora um aviso aos milhares de imigrantes que, numa espera interminável, espreitam a melhor oportunidade para entrar num camião que os leve para Inglaterra através do Eurotúnel: “As ruas da Europa não são pavimentadas a ouro”. Não estão a brincar. David Cameron, o primeiro-ministro britânico, já prometeu enviar cães e dinheiro para erguer mais barreiras e os franceses puseram mais polícias no terreno, mas não chega para resolver um problema cuja solução se situa lá longe, nos países de origem destes imigrantes em fuga da guerra e da miséria. 
Em vez da repressão e do desprezo por regras elementares dos direitos humanos, os governos europeus deviam parar para pensar. Se a intervenção em países do Médio Oriente como a Síria ou o Iraque, ou a benevolência face a governos corruptos e ditatoriais em África é justificada por interesses políticos, económicos e estratégicos da Europa e de outros países ocidentais, então as consequências dessas acções devem ser assumidas. É injusto e desumano que todo o ónus recaia justamente sobre quem já sofre directamente na pele os efeitos da guerra e da cupidez dos seus líderes. Quem procura entrar na Europa são sobretudo populações vítimas de conflitos graves ou de políticas de pura pilhagem dos recursos dos respectivos países. Muitos deles tinham casa, emprego, bens, não andavam a pedir nas ruas de Trípoli ou nas planícies da Eritreia. 

É óbvio que a pressão migrante sobre a Europa não começou agora, mas a multiplicação de conflitos, a deterioração da situação internacional e a mediocridade das lideranças europeias conferem uma dimensão quase incontrolável a esta vaga migratória. Ao ponto de ameaçar, ainda mais, as tensões entre parceiros, já de si muito abaladas pelos efeitos da crise da dívida. Veja-se a declaração subscrita pelos dois ministros acima citados, que acusa directamente “a Grécia e a Itália” por não impedirem os imigrantes de atravessar o seu território antes de chegarem a Calais. Outro sinal ameaçador é o recente inquérito promovido pela Comissão Europeia, segundo o qual a imigração é a maior preocupação dos europeus, à frente do terrorismo. Junte-se a isto as hordas de desempregados, o empobrecimento geral, a xenofobia e os extremismos e temos o caldo de cultura capaz de gerar conflitos incontroláveis. 

Muitos destes migrantes também estão ligados ao velho continente por séculos de passado colonial e até por isso a Europa tem responsabilidades para com eles. Não pode lavar as mãos como Pilatos. Mas a quem não consiga ver além dos seus próprios interesses, talvez seja útil pensar nas consequências de tanta cegueira. Os muros acabam por ser derrubados. Mais cedo ou mais tarde.