Crítica

O importante é a voz

O material compilado garante que este será sempre um documento precioso sobre Amy Winehouse. Mas, ao mesmo tempo, não resiste à vitimização da figura

Um filme inteiramente justo sobre Amy teria que a filmar como a primeira inimiga dela pro´pria
Foto
Um filme inteiramente justo sobre Amy teria que a filmar como a primeira inimiga dela própria

O britânico Asif Kapadia vai-se tornando um pequeno mestre da hagiografia de celebridades.

Antes de Amy Winehouse tínhamo-lo conhecido por Senna, documentário sobre o lendário piloto brasileiro, que inexplicavelmente não chegou às salas portuguesas. Senna fugia às soluções mais óbvias do esquema “imagens de arquivo”+“depoimentos” com alguma felicidade, e Kapadia usa o mesmo template para o seu olhar sobre Amy: centra o essencial na montagem das imagens de arquivo, frequentemente sem som directo ou com o som apagado, e remete os depoimentos para uma voz off, assim criando uma aura evocativa não desprovida de singularidade, capaz até de algum poder encantatório – sendo certo que, como no filme sobre Senna, Amy procura não a distância do espectador mas a sua proximidade emocional, facilmente conquistada porque a tragédia da “morte jovem” tem uma capacidade universal de comover.

Amy segue este rumo, valendo em primeiro lugar pela enorme quantidade de imagens de arquivo que vai desencantar, e que documentam praticamente todos os estados da curta vida da malograda cantora britânica, e todas as suas facetas, dos pontos altos aos pontos baixos, das grandes demonstrações do seu vozeirão às actuações caóticas. O material compilado, e a inteligência com que a compilação é feita, garantem que Amy, no seu mais objectivo, será sempre um documento precioso sobre a vida e a obra de Amy Winehouse. Mas, ao mesmo tempo, Kapadia não resiste à vitimização da sua figura. Amy, por “única” que tenha sido, repetiu um estereótipo bem conhecido na história dos mártires do pop rock (o “clube dos 27”), e mais pormenor menos pormenor todas essas histórias são muito parecidas – a atracção pelo abismo, as tendências auto-destrutivas, a pressão do show business. Um filme inteiramente justo sobre Amy, como um filme inteiramente justo sobre Cobain ou Hendrix ou Janis, teria que a filmar como a primeira inimiga dela própria. Mas isso vai contra a vocação hagiográfica de Kapadia, que já em Senna precisara de criar um vilão (Prost) para o seu santo. É quando Kapadia retira o foco da sua protagonista para a sugerir enquanto vítima, sobretudo dos homens (o pai e o marido), que Amy perde um bocadinho da sua objectividade – passa-se a ver menos Amy e mais o que Kapadia pensa sobre a vida e o destino dela. Que não será mentira nenhuma, mas “tabloidiza” um bocado o olhar do filme, e torna demasiado visível a sua estratégia de sedução emocional.