Chick Corea e Herbie Hancock: aventura para dois pianos e quatro mãos

As duas lendas do jazz encontram-se em palco para um concerto em dueto, 37 anos depois da digressão conjunta de que resultou An Evening With Herbie Hancock & Chick Corea. Este domingo nos Jardins do Marquês de Pombal, em Oeiras.

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Chick Corea Manuel Roberto
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Herbie Hancock Fernando Veludo/NFactos

O “nada”, neste caso, nunca é vazio, ausência. Como poderia ser? De um lado, Herbie Hancock, do outro Chick Corea. Dois dos maiores pianistas da história do jazz, frente a frente em diálogo livre. O “nada” deles está sempre repleto de muita coisa, como poderá testemunhar o público que, este domingo, lotará (os bilhetes estão esgotados) os Jardins do Marquês de Pombal para assistir a partir das 21h30 ao encontro entre as duas lendas. Será o concerto inaugural da edição 2015 do EDP Cool Jazz, que encerrará a 31 de Julho com outro dueto de históricos, protagonizado por Caetano Veloso e Gilberto Gil no Parque dos Poetas. Entre uma actuação e outra, o festival acolhe António Zambujo (dia 23), Lianne La Havas (dia 26), Mark Knopfler (dia 28), Melody Margot (dia 29) e Lionel Richie (dia 30).

Herbie Hancock nasceu a 12 de Abril de 1940, em Chicago. Chick Corea nasceu a 12 de Junho de 1941, em Chelsea, Massachussetts. Corea, guiado pelo pai trompetista, começou a tocar piano aos quatro anos. Hancock iniciou os estudos do piano aos 7 e, considerado um prodígio, estreou-se com a Orquestra Sinfónica de Chicago, interpretando Mozart, quatro anos depois. Isto é o início. Quando, em 1978, os dois se juntam para uma série de concertos em dueto, dos quais resultou An Evening With Herbie Hancock & Chick Corea, já tinham contribuído decisivamente para a história que o jazz havia percorrido nas duas décadas anteriores. Membros do seminal Quinteto de Miles Davis (Hancock o primeiro a chegar, Corea entrando para o seu lugar a tempo de participar no revolucionário Bitches Brew), destacaram-se não apenas pelo virtuosismo no instrumento que escolheram mas também pela vontade de alargar os horizontes do jazz, encarando-o enquanto música livre e omnívora, desejosa de todo o tipo de contaminações.

Hancock, que depois de trabalhar com Donald Byrd ou Coleman Hawkins, se estreou a solo com Takin’ Off em 1962, chamado desde logo a atenção de Miles Davis, seguiria uma percurso que o levou a aproximar-se das linguagens funk de James Brown ou, principalmente Sly & The Family Stone, e a usar a evolução tecnológica como mote criativo: o uso do piano eléctrico e dos sintetizadores, para os quais se voltara incentivado por Davis, resultou num álbum como Headhunters, editado em 1973 e um clássico absoluto da sua discografia.

Chick Corea, por sua vez, alimentado pelo discurso elegante de Horace Silver e de ouvidos atentos a Bud Powell, trabalhara com Stan Getz e editara, por exemplo, Tones for Joan’s Bones (1966), gravado com Roy Haynes e Miroslav Vitous, antes de substituir Hancock no quinteto de Miles e gravar com ele Bitches Brew ou Filles de Kilimanjaro. Depois da decisiva aprendizagem com o mestre, explorou uma abordagem libertária nos Circle, com Anthony Braxton, Dave Holland e Barry Alstschul. Pouco depois, mudava novamente de direcção, experimentando a fusão nos frenéticos Return To Forever.

“Já me desafiei imenso, o suficiente para o resto da minha vida. Tento sempre fazer um disco que nunca fiz. E chega-me. Gosto desses desafios, de ser o primeiro a tentar algo”, dizia Herbie Hancock ao PÚBLICO em 2012, quando da visita a Portugal para duas datas, em Guimarães e Lisboa. Pondo em perspectiva a sua carreira e os seus 75 anos de vida, é inegável a verdade do que afirma. Herbie Hancock entranhou o funk, explorou os sintetizadores, flirtou com o hip hop na conhecida Rockit, deixou-nos temas imortais como Cantaloupe island ou Watermelon man e homenageou a cantautora Joni Mitchell em The River: The Joni Letters, o que lhe valeu em 2008 um Grammy de Álbum de Ano (a segunda vez que tal distinção foi dada a um álbum de jazz na história dos prémios da indústria discográfica americana). Hancock poderia aplicar a frase também ao seu companheiro de longa data Chick Corea – basta conferir, por exemplo, o trabalho sobre a música latina de que resultou, por exemplo, Spain, de 1972, ou o álbum My Spanish Heart, de 1976, onde jazz e flamenco bailavam sob olhar atento, desde o futuro, de um sintetizador Minimoog.

No EDP Cool Jazz, veremos os dois mestres do piano a mostrar de forma despida, assentes “apenas” na tremenda expressividade de um piano acústico, todo o seu talento inato e a sabedoria acumulada ao longo das décadas. Não sabemos se, como no Barbican, perguntarão ao público se devem começar com nada ou com alguma coisa. Certo é que naquele diálogo conseguiremos aperceber-nos das vastas paisagens para as quais foram expandindo a sua música.

Corea dobrado sobre as cordas do piano para as percutir, como já fazia na década de 1970, Herbie Hancock mostrando como o impressionismo de Debussy é também marca do seu temperamento artístico. Os dois observando-se com prazer, respondendo um ao outro, encaminhando as peças em novas direcções, procurando novos destinos para a caminhada encetada enquanto se ouvem citações ou reinterpretações de standards como Stella by starlight ou de Solar, de Miles Davis, como se ouviram quando da passagem em Junho por Melbourne, ou de clássicos da sua lavra como Cantaloupe Island ou Spain, como se ouviram no supracitado concerto no Barbican – e, algures no percurso, o piano acústico ganha a companhia dos sintetizadores, instrumento que há muito deixou de ser o futuro para se assumir como ferramenta do presente.

37 anos depois da digressão de 1978 preservada em disco, dois nomes indispensáveis do jazz do século XX, dois pianistas de excepção, dois músicos que escolheram ser aventureiros e, eternamente curiosos, não pararam de partir em busca de novas descobertas, regressam ao sítio onde tudo começou. Duas mãos, um piano. Em dobro. Que aventura.