Entre o viver e o morrer no hospital

Poderíamos dizer que trocamos uma vida curta e uma morte rápida, por uma vida longa e uma morte lenta

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Shaun Best/Reuters

Com o avançar dos séculos mudou a forma de viver, mas também a forma de morrer. Poderíamos dizer que trocamos uma vida curta e uma morte rápida, por uma vida longa e uma morte lenta.

Os conhecimentos científicos e a tecnologia de que hoje dispomos, transformaram a forma de percepcionar e vivenciar a doença mas também a morte. Antigamente, uma doença grave representaria muito provavelmente a morte, contudo, actualmente, as doenças graves, quando não curáveis, tornam-se crónicas, ou avançam progressivamente. Antigamente morria-se da doença. Hoje, vive-se com a doença até dela morrer.

Associada a esta vivência de doença estão os tempos de espera. Espera-se desde o aparecimento do primeiro sintoma até à visita ao médico. Espera-se pelos resultados dos exames. Espera-se pela consulta com o especialista. Espera-se pela confirmação do diagnóstico. Espera-se pelo início dos tratamentos. São inúmeros os tempos de espera, e quando a doença é incurável muitas vezes espera-se pela progressão da doença e espera-se pelo fim do sofrimento. Tempos aparentemente inúteis de espera, preenchidos com impotência e sofrimento.

Contrariamente a outros tempos em que se morria principalmente em casa, abraçado pela família e pelo conforto do lar, hoje e nas últimas décadas, tem-se assistido a uma morte cada vez mais hospitalizada, muitas vezes longe daqueles que nos são próximos podendo este derradeiro momento tornar-se profundamente doloroso e vazio. Como explicam os psicólogos Constança Paúl e António Fonseca no seu livro Psicossociologia da Saúde, a morte passou a ser ocultada e dissimulada transformando-se progressivamente de algo familiar em algo interdito. Gómez Sancho, no seu livro “El Hombre y el Médico ante la muerte” acrescenta, “a morte mudou de cama (...) escolheram-se os hospitais com a sua massificação e desumanização para que a morte passe despercebida e se converta em algo estranho, asséptico, silencioso e solitário”.

Como se morre no hospital? Talvez a resposta se espelhe na questão, como se vive no hospital? E talvez a forma como se vive no hospital dependa, em larga medida, da forma como as pessoas são recebidas pelos profissionais de saúde. Gómez Sancho é peremptório ao referir que “o hospital de hoje é um sítio para diagnosticar e curar e nele trabalham profissionais preparados e treinados para diagnosticar e curar (...) por este motivo, é um mau sítio para levar os doentes terminais que, por sua definição, já estão diagnosticados e são incuráveis”. Assiste-se hoje a uma excessiva ênfase no dever de curar e uma assustadora omissão do dever de cuidar. As instituições que formam os profissionais de saúde parecem valorizar sobretudo uma visão tecnicista e mecânica do ser humano focando-se no corpo que sofre, estando por isso impreparados curricularmente para abordarem a pessoa que sofre. Quem se encontra no hospital não é doente, mas está doente; humanizar significa ver para além da doença, para além do corpo que sofre, procurando compreender a Pessoa na sua inteireza e interioridade, a sua biografia, a sua narrativa de vida que existe e se constrói, até ao último suspiro.

É necessária uma nova concepção do hospital como instituição, porventura, vê-lo como um luxuoso hotel, em que as pessoas que lá se encontram sejam consideradas e acolhidas, não como doentes, mas como clientes com necessidades individualizadas.