Cantemos Amália para que nos continue a faltar

Reunindo um elenco de luxo do fado dos nossos dias – Ana Moura, António Zambujo, Carminho, Camané, Gisela João e Ricardo Ribeiro –, o realizador Ruben Alves montou um disco de homenagem a Amália que testa a individualidade dos intérpretes. E a superação desse desafio, na verdade, era o maior tributo

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Poucos poemas haverá na escrita de Amália Rodrigues que nos roubem tanto o ar quanto aquele a que chamou Faz-me Pena.

Nele, Amália não fazia por esconder a sua atracção pelo abismo, pela melancolia, por um lado trágico da existência. Sem falsas pistas, cantava-nos que “se o desgosto é pequenino” ela própria lhe aumentava “o tamanho”. E anunciando que o fim já se instalara nos seus aposentos, fazia-lhe pena e chorava já a hipótese (naturalmente impossível) de que nessa hora derradeira ninguém chorasse a sua partida. Dava por si assaltada pela sugestão do vazio mais absoluto, da ausência de aplausos, de uma falta que temia não fosse notada. A 6 de Outubro de 1999, vários anos passados sobre estes versos, não seriam poucas as lágrimas derramadas pela sua morte.

Em Amália e os Poetas, o seu biógrafo Vítor Pavão dos Santos recorda o dia em que ficou a saber da existência de Faz-me Pena: “Já fiz uma cantiga para a minha despedida”, confidenciou-lhe a fadista. “No fundo, é aquilo que você está farto de saber, é pedir para chorarem por mim, mas não sei se alguém vai chorar, sempre estas coisas que me andam na cabeça.”

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Domingos Camarinha (à esquerda) acompanha Amália

Sabendo tratar-se de um fado de despedida, Ruben Alves, realizador do filme A Gaiola Dourada e director artístico do álbum de homenagem Amália – As Vozes do Fado, entendeu que este deveria ser o tema final do disco e só o concebia cantado por Celeste Rodrigues, irmã mais nova (dois anos) de Amália, e fadista por direito próprio. “Não era um fado com o qual tivesse vivido durante muito tempo, ao contrário de outros”, conta o realizador ao Ípsilon, “mas quando o ouvi tocou-me muito, sobretudo porque era um fado de adeus.” Sem o saber, ao convidar Celeste, alfinetava o destino com particular destreza. Apesar da rejeição inicial da irmã – “Ah, esse é muito triste, eu não me quero despedir; quero viver, quero estar aqui”, ter-lhe-á respondido –, perante a insistência do realizador acabou por ceder. Até porque Faz-me Pena é um dos fados que Amália nunca gravou.

A escolha muito pouco óbvia de Ruben para um álbum de homenagem a Amália encontrava na postura de Celeste Rodrigues um eco particular em relação a Faz-me Pena. Não na relação estabelecida por cada uma com o passar dos dias (Celeste nunca deu grande troco ao trágico), mas no distanciamento que a irmã sempre cuidou de manter relativamente à referência maior do fado. “Canto poucos temas do reportório dela, um ou dois”, concretiza Celeste Rodrigues. “Aquilo está tão bem cantado, para que é que vou estragar? Eu tinha a maneira de ela cantar no meu ouvido desde miúda, e achava que estava tão marcado na voz dela que era impossível fugir. E então não canto. Só canto este porque nunca lho ouvi, não sabia como ela cantava isto, de maneira que posso dar a minha personalidade ao número.”

Esse cuidado constante de evitar o reportório amaliano nunca deixou de estar presente nas escolhas de Celeste Rodrigues, mas espraiou-se igualmente para gerações posteriores. É público o mesmo pudor defendido por Camané para a sua carreira. Ele que era admirado por Amália precisamente por cantar com a sua voz e não com um pedido de empréstimo a um herói de maior ou menor envergadura, raras vezes se atreveu a pisar esse terreno sagrado, inventado e cultivado soberbamente por Amália. É histórica a noite em Outubro de 2014 em que cantou 11 fados da diva de um só fôlego numa homenagem no Museu do Fado, muitos deles confessadamente pela primeira vez. A sua aproximação a Amália, na verdade, tem-se feito sobretudo pelas suas milagrosas interpretações de inéditos de Alain Oulman – compositor nuclear na revolução operada por Amália no seu destemido percurso – salpicadas pela discografia.

Medo e a falta dele
Camané surge em Amália – As Vozes do Fado entregando-se com a sua espantosa secura a Abandono, belíssimo, tremendo poema de David Mourão-Ferreira pouco inocentemente designado por Fado Peniche na sua denúncia dos encarceramentos com motivação política do regime salazarista (“Por teu livre pensamento / foram-te longe encerrar”, assim começa). Amália é aqui cantada por uma selecção primorosa das vozes contemporâneas do fado – ao lado de Camané, Ricardo Ribeiro, Carminho, Ana Moura, António Zambujo e Gisela João, cada um emprestando excelentes visões personalizadas de temas emblemáticos da fadista maior, ajudando a compor um álbum de qualidade invulgar para este tipo de tributos. Para isso contribui também o critério de gosto pessoal definido por Ruben Alves – não há aqui presenças impostas por editoras, tentativas de alavancar alguma carreira por associação aos nomes certos; há somente uma primeiríssima água que merece e justifica a homenagem sem a tornar coisa baça e viciada por desequilíbrios naturais entre intérpretes, sem tentativas antecipadamente falhadas de cantar na cauda do registo inigualável de Amália.

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Celeste Rodrigues, irmã de Amália Rodrigues Estelle Valente

Talvez também por desembarcar de França e não ser um homem do meio fadista, Ruben Alves espantou-se com algumas interdições veladas que lhe sopravam ao ouvido – como a de Grito, mais um poema de dor lancinante lavrado por Amália, ser interpretado por outra voz que não a da fadista. “Sinto algum peso e algum medo – quer dizer, senti”, relata Ricardo Ribeiro, desafiado pelo realizador a assumir o tema. Se Amália não compreendia o fado como um lugar de interdições, tão-pouco Ruben o devia fazê-lo ao dedicar-lhe esta homenagem, pouco digna que seria se lhe faltasse a coragem de que se fez a carreira da cantora. Continua Ricardo: “Hoje não sinto esse medo por uma razão simples – quando a dona Celeste ouviu disse que estava muito bem e que se a irmã ouvisse ia gostar. E fiquei mais tranquilo. É evidente que é difícil para um indivíduo com 33 anos cantar uma cantiga destas, porque é uma coisa muito profunda e de grande desconforto, mas também se pode retratar isso na própria vida, mesmo sendo novo.”

Admitindo que a sua “maneira de ser é muito” aquilo que se ouve nestes versos de Amália, Ricardo Ribeiro reconhece que há temas do reportório em que não se atreve a tocar. Felizmente, não é o caso de Grito, porque a interpretação majestática do cantor é da ordem do assombro, enfileirando naquele seu rasto ibérico, cuspindo as palavras fadistas com a verve do flamenco. Esta “solidão / que nem mesmo essa é inteira / há sempre uma companheira / uma profunda amargura” está na voz de Ricardo Ribeiro em carne viva. A solução para o fadista passa por, primeiro, esquecer-se da interpretação de Amália – “Tenho de pensar que o poema é meu, que foi escrito naquele dia e me apareceu nas mãos naquela hora” –, e depois fechar os olhos e cantar – “Apodero-me das coisas para que elas se apoderem de mim”, acrescenta. A partir daí, só conta a viagem.

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Abandono Amália Rodrigues

No caso de Gisela João, a sugestão de Ruben para que cantasse Medo, poema de Reinaldo Ferreira musicado por Alain Oulman e inacreditavelmente esquecido nos arquivos da Valentim de Carvalho desde que foi gravado, nos anos 1960, até que o técnico de som Hugo Ribeiro possibilitou a sua edição no álbum de inéditos Segredo (1997), acertaria igualmente em cheio na justaposição entre a vida da fadista de hoje e a proposta que lhe foi dada a cantar. Gisela, que gravou no seu disco homónimo Sei Finalmente, nunca se tinha atrevido a cantar Medo, possivelmente por ter ouvido o tema vezes suficientes para saber bem que fantasmas iria despertar. “ Nesta área trabalhamos com poesia e temos de a sentir”, descreve. “E para a sentir temos de ir buscar memórias nossas, coisas que já vivemos e que às vezes estão guardadas no subconsciente e não lhes queremos mexer. Se tiver cinco concertos seguidos a cantar o ‘Medo’ são cinco dias a confrontar-me com essas memórias e isso mexe comigo.”

“Eu vivo assim”, diz de um poema em que Amália cantava “O medo mora comigo / mas só o medo, mas só o medo” e nos falava de “um silêncio que fala / com voz de móvel que estala”. “Sou uma pessoa que tenta estar sempre a fazer os outros rir mas sinto cá dentro, muitas vezes, uma angústia muito grande e não sei muito bem de onde é que vem.” De onde vem, não sabemos, mas não ignoramos este colosso emocional que é o seu Medo.

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Grito Amália Rodrigues

Banda sonora das nossas vidas
A sua relação com o reportório de Amália, afirma Gisela João, não é mediada por medo de cantar esses temas. “Eu sou de outra geração, por isso é que perco o medo de cantar temas que ela cantou”, justifica, embora ressalve que não imagina Povo que Lavas no Rio e Lágrima noutra voz. “Não vou cantar como ela – nem quero, nem vou conseguir. Não estava dentro da cabeça dela; mas estou dentro da minha, sei o que vivo, aquilo por que passo e sei o que aqueles poemas me dizem.” As vidas inevitavelmente distintas, mas também os diferentes tempos históricos. “Nasci em 83”, lembra Gisela, “vivo noutro tempo, em que já houve emancipação da mulher e tenho acesso a viver a vida e a dizer e sentir as palavras de outra maneira. Hoje em dia uma miúda com 13 anos já põe batom nos lábios, sai à rua à noite sozinha e chega a casa às três da manhã. Isso quer dizer muito e passa para a forma como interpretamos a poesia.”

Desde que se parta do respeito e do amor, defende Ricardo Ribeiro, não há que recear quaisquer reacções adversas, de puristas, conservadores ou resistentes à mudança. “Isso não me aflige e penso que não ofendo a Amália, porque o meu amor é tão intenso por ela que qualquer observação no sentido de denegrir o que fiz com todo o amor não me afecta.” A reinterpretação de uma obra, argumenta o fadista, “será um dos maiores orgulhos de qualquer intérprete ou autor”. “Todos tocam Brahms, todos tocam Bach, muita gente toca Paco [de Lucía], muita gente canta Oum Kalthoum.” Para Frederico Santiago, responsável pelas reedições do catálogo de Amália, a grandeza da fadista é de tal ordem que não só “ninguém concebe hoje o fado sem aquela maneira de cantar ondulada que ela inventou”, como se tornou “impossível fazer uma carreira neste meio sem passar pelas coisas que ela cantou – e isso é muito bonito”. Cantar Amália é quase um teste ao intérprete, não só pela comparação sempre injusta, mas também pela capacidade de mostrar uma via pessoal que não saia esmagada pelo fantasma da fadista.

“Uma cantiga quando tem força é natural que venha a ser cantada pelas pessoas”, declara  ao Ípsilon Vítor Pavão dos Santos, recentemente galardoado com o Prémio Amália pelo livro Amália e os Poetas. “Acho que é um elogio para a Amália por ela ter sabido escolher o que era bom.” Falando no mesmo sentido, a cantora cabo-verdiana Mayra Andrade, protagonista com António Zambujo de um dos duetos da homenagem, afirma que “nenhuma música é sagrada ao ponto de não se poder tocar ou cantar de outra forma – não desnaturando a composição”. Mayra, que sempre ouviu fado mas só com o falecimento do seu avô português, há sete anos, confessa ter “despertado uma veia que desconhecia”, compara Amália Rodrigues a Cesária Évora enquanto “personagens que não precisamos de buscar por elas, estão omnipresentes no quotidiano das pessoas que vivem em Cabo Verde ou em Portugal, fazem parte da banda sonora das nossas vidas”.

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Medo Amália Rodrigues

Ao lado de Zambujo, Mayra traz uma aproximação de samba (pense-se em ecos desse genial sambista chamado Cartola) em Lisboa Não Sejas Francesa, o samba que Ruben pensou que iria conseguir escutar na colaboração entre Carminho e Caetano Veloso –“afinal é mesmo um encontro de fado, fado do Caetano”, comenta o realizador. O lado mais popular e folclórico a que Amália entregou igualmente o seu génio interpretativo surge assim em duas excelentes colaborações. “O Ruben propôs-me várias músicas, mas recusei porque achava que havia no projecto quem poderia cantá-las melhor do que eu”, diz-nos a cabo-verdiana, ao telefone da sua casa em Paris. “Desta gostei, por poder trazer uma cor mais alegre. Gravei esta canção como uma espécie de ironia, tendo em conta que vivo em França há 14 anos e essa coisa de falar com Lisboa como se fosse uma moça vaidosa se prestava muito bem a um dueto com o António.”

Depois há um outro momento desempoeirado, aquilo a que Ruben chama “um malhão 2015”. Para o dueto desprendido protagonizado por Ana Moura e Bonga foi chamado a produzir Branko, dos Buraka Som Sistema. “Falaram-me do convite no início de um jantar e achei que não fazia muito sentido”, conta. “Passei o jantar a pensar no assunto e no final já me parecia essencial.” O sentido seria ajudado por uma vontade antiga de Branko em trabalhar uma abordagem musical ligada ao fado – “da mesma maneira que cresci com outras coisas, é impossível negar o fado em quem cresceu em Lisboa como eu”, refere. E o desafio de explorar as semelhanças rítmicas entre ritmos tradicionais como o malhão e o semba angolano fez o resto.

A mão do músico dos Buraka não cai, no entanto, pesadamente sobre Valentim, mesmo que diga entender que haja “puristas e outras pessoas que tentam levar a música para outras direcções e inovar”. “E a inovação sempre foi uma das características da Amália. É muito fácil encaixar as coisas nos sítios e passar a vida a ver tudo como uma rotina e uma repetição. Por isso, quanto mais informação ia assimilando sobre ela, mais me parecia um bom ponto de partida.” De resto, a intersecção de linguagens que aqui se sente reproduz de forma mais realista as sonoridades que coexistem hoje em bairros como Alfama, Mouraria ou Madragoa. E faz com que o mar, território de melancolia e solidão no imaginário fadista, de repente se torne caminho para criar pontes e trocas.

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Pelo meio da tristeza, Faz-me Pena serve também de pedido e manifestação de esperança última de Amália: “Cheguei ao fim / Mas se alguém gosta de mim / Algo de mim sobrevive.” Amália – As Vozes do Fado faz-se também dessa imagem – que Amália sobreviva, cantada por quem sabe que não é nas imitações que a sua memória se ilumina.