Ministro das Finanças grego demite-se

Yanis Varoufakis diz que sai sob pressão dos governos europeus e das instituições, numa decisão que Alexis Tsipras "julgou ser potencialmente benéfica para poder chegar a um acordo".

Varoufakis deu a entender que era essa a preferência de Tsipras
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Varoufakis deu a entender que era essa a preferência de Tsipras GERARD JULIEN/AFP

O ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, anunciou a sua saída do governo do país, horas depois da vitória do "não" no referendo sobre as propostas da troika.

Varoufakis fez o anúncio na rede social Twitter, e explicou os motivos da demissão no seu blogue: "Pouco depois do anúncio dos resultados do referendo, fizeram-me saber de uma certa preferência de alguns participantes do Eurogrupo, e vários 'parceiros', pela minha… 'ausência' das suas reuniões; uma ideia que o primeiro-ministro [Alexis Tsipras] julgou ser potencialmente benéfica para poder chegar a um acordo. Por esta razão, vou sair hoje do Ministério das Finanças." 
 

No texto publicado no seu blogue, Yanis Varoufakis descreve o resultado do referendo de 5 de Julho como "um momento único em que uma pequena nação europeia se ergueu contra a sujeição da dívida".

"Como todas as lutas pelos direitos democráticos, também esta histórica rejeição do ultimato do Eurogrupo de 25 de Junho tem um custo elevado", escreve o até agora ministro das Finanças da Grécia, referindo-se às propostas do Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional que estavam em cima da mesa quando as negociações com Atenas chegaram ao fim, na noite de 25 para 26 de Junho.

"É, portanto, essencial que o enorme capital outorgado ao nosso governo pelo esplêndido voto no 'NÃO' seja imediatamente investido num 'SIM' a uma resolução adequada – num acordo que envolva a reestruturação da dívida, menos austeridade, redistribuição a favor dos necessitados, e verdadeiros reformas."

Na hora da saída do Ministério das Finanças, Yanis Varoufakis pôs-se à disposição do primeiro-ministro durante o período de transição: "Considero ser meu dever ajudar Alexis Tsipras a tirar partido, como ele entender, do capital que o povo grego nos concedeu através do referendo de ontem." E introduz uma nota de grande satisfação e auto-elogio: "Vou usar a aversão dos credores com orgulho."

"Nós, da esquerda, sabemos como agir colectivamente sem nos preocuparmos com os privilégios da função. Darei todo o meu apoio ao primeiro-ministro Tsipras, ao novo ministro das Finanças, e ao nosso governo", afirma Varoufakis.

A terminar, o até agora ministro das Finanças congratula-se novamente com a vitória do "não" no referendo, e deixa um alerta: "O esforço sobre-humano para honrar o bravo povo da Grécia, e o famoso OXI [NÃO] que ele deu aos democratas de todo o mundo, está apenas a começar."

O "não" referendo sobre as propostas da troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) recolheu 61,31% dos votos, contra 38,69% do "sim".

Alguns media gregos estão a apontar Euclid Tsakalotos como substituto do Varoufakis. Tsakalotos é porta-voz do governo grego para as questões económicas, membro do comité central do Syriza e professor universitário, e foi ele quem ficou responsável pelas negociações quando Varoufakis e os seus colegas do Eurogrupo decidiram que tinha chegado a hora de pôr fim às negociações.

O ministro demissionário já tinha perdido grande parte da popularidade que alcançara por recusar as medidas da troika e confrontar directamente responsáveis como o líder do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, ou o seu homólogo alemão, Wolfgang Schäuble. Varoufakis começou também a preocupar alguns membros do Syriza – apesar de ter sido eleito deputado pelo partido, não é membro do Syriza.

Ao longo dos últimos seis meses no governo da Grécia, Yanis Varoufakis foi talvez o político europeu que mais fez perder a cabeça aos seus colegas ministros das Finanças dos países da zona euro e aos líderes das três instituições credoras.

Pouco depois de ter sido nomeado ministro, em Janeiro, descreveu-se como "marxista-libertário", admitindo que a "contradição" do termo. Antes disso, tinha-se apresentado como um "marxista errático" e um "economista acidental".

Quando assumiu a pasta das Finanças, respondeu com sentido de humor à pergunta que se impunha: como é ser ministro? "Estou absolutamente em choque. Isso só mostra o estado desastrado a que chegou o mundo."