Hoje é o primeiro dia do resto da vida dos gregos

A incerteza é enorme quer caso ganhe o “sim”, quer vença o “não” no referendo deste domingo. Os bancos dizem que o pouco dinheiro que têm deve acabar antes de segunda-feira.

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As urnas abriram às 7h na Grécia, 5h da madrugada em Lisboa REUTERS/Yannis Behrakis
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Alexis Tsipras no momento em que depositou o seu voto no referendo REUTERS/Christian Hartmann
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O ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, na votação deste domingo em Atenas AFP / Angelos Tzortzinis
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O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, numa parede em Atenas REUTERS/Yannis Behrakis
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Manifestação de esquerda na Turquia em solidariedade com o povo grego AFP/OZAN KOSE
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Uma bandeira grega rasgada na ilha de Kastellorizo REUTERS/Cathal McNaughton
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A lua brilha no horizonte junto a escola em Atenas onde os gregos votam hoje REUTERS/Yannis Behrakis
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Mulher lê um livro sobre a crise na Europa no dia do referendo em Meyisti, Grécia REUTERS/Cathal McNaughton
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Boletim de voto em Atenas REUTERS/Christian Hartmann
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Gregos nas urnas a votar em Atenas REUTERS/Yannis Behrakis
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Mulher procura o local em Atenas onde irá votar no referendo AFP/ Louisa Gouliamaki
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Rapaz espreita através da cabine de voto em Meyisti, na ilha de Kastellorizo REUTERS/Cathal McNaughton

Vai haver dinheiro? Vai haver governo? Vai haver negociações? Os gregos foram-se habituando a muita instabilidade. Mas depois de uma semana de bancos fechados, um incumprimento de pagamento ao FMI, e com o referendo que se realiza este domingo, ninguém faz a menor ideia de nada – do que acontece se ganhar o ‘sim’, o que resultará de uma vitória do ‘não’.

Enquanto os gregos fazem filas nos multibancos para os 60 euros diários, há notícias preocupantes nos últimos dois dias. Notícias de que os bancos poderão não abrir na terça-feira, ou a manchete do Financial Times que dizia que os depositantes podem acabar por contribuir para o resgate de bancos. O ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, desmentiu, numa declaração no Twitter, que quem tenha dinheiro no banco o possa perder. E acusou, numa entrevista ao diário espanhol El Mundo publicada no sábado: “O que estão a fazer com a Grécia tem um nome: terrorismo”, disse Varoufakis. “Por que é que nos forçaram a encerrar os bancos? Para quê encher as pessoas de medo? E quando se trata de propagar o terror, a esse fenómeno chama-se terrorismo.”

Os bancos dizem ter mil milhões de euros suficientes para o fim-de-semana – o que dá 90 euros por pessoa. Precisam, alertam, de ajuda imediata do Banco Central Europeu (BCE) já amanhã, segunda-feira. A decisão a tomar nesse dia deverá ter em conta o resultado do referendo, já disse o BCE.

Novas eleições?
Se o “sim” vencer (e a última sondagem dava um resultado com uma diferença de meio ponto percentual), o ministro das Finanças já disse directamente que se demitiria, e o primeiro-ministro, Alexis Tsipras, sugeriu que faria o mesmo. Nesse caso, os partidos pró-europeus (Nova Democracia, To Potami, e Pasok) não têm maioria. Um governo tecnocrata, a existir, teria de ser apoiado pelo Syriza.

Caso não haja Governo, haveria eleições antecipadas, e estas demoram um mínimo de 30 dias a marcar. Os partidos “pró-europeus” não têm maioria nas sondagens, e os últimos inquéritos de opinião feitos antes do controlo de capitais davam-lhes percentagens ainda mais baixas do que na última votação.

Se o “não” vencer, Tsipras garante que negociará um novo acordo numa posição de mais força. Os líderes europeus têm dito que isso não acontecerá. Se o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, disse que uma vitória do “não” significaria a saída da Grécia do euro, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, já disse o contrário.

Mas mesmo que recomecem negociações, quão rápidas poderão ser? E o que acontece entretanto aos bancos?

A economia já sofreu perdas de mais de mil milhões de euros na semana passada, disse Vasilis Korkidis, da Confederação de Comércio, citado pelo diário britânico The Guardian. “Mesmo no melhor cenário, vai ser preciso meses para recuperar do choque dos bancos fechados e do controlo de capitais. Agora que estão em vigor, podem durar até um ano”, declarou.

Sim no “sms”
A incerteza traz consequências imediatas para a vida de muitas pessoas, maiores ou menores.

No dia do anúncio do encerramento dos bancos e controlo de capitais, Maria, que é freelance, recebeu um telefonema. Uma empresa para quem faz programas de actividades culturais pedia-lhe para baixar o preço de cada actividade. Ela aceitou, mas mal desligou o telefone arrependeu-se. “É óbvio que se são a aproveitar da situação”. O escultor Tasos Nyfadopoulos conta que também uma galeria suspendeu uma compra. “Tudo bem, vamos esperar. Não é por isso que vou votar de modo diferente, porque a questão é: o que queres sacrificar para ter dinheiro no bolso? E se começamos por aí, podemos continuar. E quanto dinheiro? 20 euros? 60?”

O dilema sim-ou-não parece estar em todo o lado. Maria, fervorosa apoiante do ‘não’, conta indignada o que vê como outro aproveitamento: “a minha empresa de telefone mandou-me um sms a oferecer uma promoção que diz: ‘se quiser aproveitar esta promoção, escreva um sms com a palavra ‘sim’”. Ela indigna-se: nestes dias não vai dizer ‘sim’ a nada.

Nem ela nem a maioria dos seus amigos, que se preparavam para festejar um casamento fora de Atenas. Regressam todos hoje para votar. A noiva, de Salónica, comprou um bilhete de avião para ainda conseguir ir votar ao final da tarde, conta Maria. “Vai ser histórico e ela nunca se vai esquecer que no dia a seguir ao seu casamento foi votar.”

Há quem não vote
Se o “não” se apresenta como o lado do desafio aos poderosos europeus, os partidários do “sim” defendem-se das acusações de que votam por medo. “‘Sim’ significa assumir responsabilidade, e ‘não’ é demitir-se de tudo só porque se está com raiva”, diz uma grega que trabalha num organismo público e por isso não quer ser identificada. Ela sente necessidade de se explicar porque, argumenta, “o Governo quer que acreditemos que os ricos votam ‘sim’ e os pobres votam ‘não’. Que os traidores votam ‘sim’ e os patriotas ‘não’”, sublinha (Num discurso, Tsipras agradeceu o “patriotismo” de quem votar “não”).  

“Não sou masoquista, não quero mais impostos e cortes, mas acredito que um ‘não’ vai levar a questão ao limite e fazer com que o Governo arrisque uma saída da Grécia.” E “o que dizer de um Governo em que o ministro da Defesa [Panos Kammenos, do partido nacionalista Gregos Independentes] diz que o Exército vai manter a estabilidade interna?”

Fora de todo este frenesim está Yorgos, 37 anos, um raro grego despreocupado. “Não tenho nem um euro no banco”, diz. Não é porque seja pobre. “Previ isto em 2011, a sério!”, e benze-se para mostrar que não está a mentir. “Metade do meu dinheiro está em dólares em Boston, e outra metade em euros na minha aldeia”, conta, não antes de se certificar com uma olhadela à volta de que ninguém vai ouvir.

Estamos numa loja perto do mercado central de Atenas, com dois enormes balcões com todo o tipo de queijo. Yorgos, que é dono da loja junto com o irmão, diz que a restrição nos levantamentos não se fez notar no negócio. “A situação” apenas se reflecte na conversa na loja e nos decibéis. “Muita gente fala, muitas pessoas estão com medo, ou zangadas”. E o que dizem? “A maioria vai votar ‘não’. Aqui na loja, pelo menos, é o que dizem. Na televisão dizem ‘sim’.”

Já ele não vai votar – é o primeiro de muitos gregos que ouvimos esta semana que o diz. “Primeiro, porque a pergunta é confusa. Depois, tenho mais que fazer. Francamente, não gosto de política. E isto é política.”