Vingança do Estado Islâmico em Kobani mata centenas de civis em apenas dois dias

Fala-se de um dos “piores massacres” do Estado Islâmico na Síria. Há relatos que apontam para a morte de 300 civis à mão de jihadistas disfarçados de curdos.

Há cerca de 150 feridos nos hospitais turcos, alguns deles em estado grave
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Há cerca de 150 feridos nos hospitais turcos, alguns deles em estado grave Bullent Kilic / AFP

Terminaram neste sábado os dois dias de confrontos entre curdos e o Estado Islâmico em Kobani e, com eles, um dos “piores massacres” do grupo extremista na Síria desde que a guerra civil começou, em 2011. As milícias curdas anunciaram durante a manhã que controlavam por inteiro a cidade, incluindo os edifícios que os jihadistas invadiram na sexta-feira.

Mas o objectivo do Estado Islâmico (EI) em Kobani foi cumprido. Os extremistas queriam matar o maior número possível de pessoas para vingarem a derrota que sofreram na cidade, há cinco meses, à mão das milícias curdas e coligação aérea liderada pelos Estados Unidos, uma das maiores desde que foi proclamado o "califado".

De acordo com a última contagem do Observatório Sírio para os Direitos Humanos, o grupo que monitoriza o conflito sírio a partir de uma rede de activistas no terreno, confirmam-se as mortes de 206 civis em Kobani. Este número deve aumentar nos próximos dias e há relatos que apontam para mais de 300 vítimas mortais. Para além destas, há mais de 150 pessoas hospitalizadas na Turquia, algumas delas em estado grave.

O primeiro ataque foi lançado durante a madrugada de quinta-feira. Os extremistas coordenaram a explosão de carros bombas com o ataque pelo terreno, a partir de três frentes. Para entrarem na cidade, controlada pelas Unidades de Protecção Popular curdas (YPG), os combatentes do Estado Islâmico disfarçaram-se de milicianos curdos. Nesse primeiro dia, os jihadistas mataram pelo menos 25 civis e mais de mil pessoas fugiram de Kobani para a Turquia.

Mas o ataque não terminou na quinta-feira. No dia seguinte, dezenas de extremistas do Estado Islâmico assumiram novas posições na cidade. Tomaram o hospital de Mishta Nur, uma escola secundária e dois edifícios próximos de uma mesquita. Este novo ataque foi o mais mortífero de todos. Em apenas 24 horas, dizem activistas no terreno e milícias curdas, o autoproclamado Estado Islâmico terá matado mais de 200 civis (mas os relatos diferem). Ao longo do ataque, escreve a Al-Jazira, os extremistas fizeram também 50 reféns e usaram-nos como escudos humanos.

Os combatentes islamistas usaram a mesma táctica que lhes permitiu entrar na cidade quinta-feira: disfarçaram-se de milícias curdas – usaram até mulheres, uma vez que há várias unidades femininas de combatentes curdos.

Um activista não identificado, citado pela Al-Jazira, testemunhou o ataque a partir do telhado da sua casa. Os combatentes do EI “bateram às portas e disseram que estavam lá para ajudar – falavam curdo – e depois invadiam as casas e matavam toda a gente que viam à frente”, disse.

Segundo o director do observatório sírio, há famílias inteiras fuziladas nas ruas, incluindo crianças com poucos meses. “Não se pode falar desta operação como uma derrota verdadeira para o EI, porque ele fez o que quis em Kobani”, disse Abdel Rahman  à AFP.

“Contei 33 corpos à medida que eu e a minha mulher fugíamos da cidade”, prossegue a testemunha contactada pela Al-Jazira. “Eles mataram a minha sogra à nossa frente; depois, quando o meu tio correu para a rua para a apanhar da estrada, eles mataram-no também.”

Os curdos têm somado vitórias importantes contra o EI nas últimas semanas, mas este ataque pode ter sido mais do que um acto de vingança. Como escreve a correspondente da Al-Jazira na Turquia, Zeina Khodr: “Trata-se claramente de promover o medo, e este ataque inesperado e espectacular permite [ao EI] reivindicar um sucesso que está em linha com a sua mensagem estratégica, que é a de que ‘o 'califado' continua’”.