Portugal leva a questão política da identidade à Quadrienal de Praga

Associação Portuguesa de Cenografia assegura a representação portuguesa na capital checa, de 18 a 28 de Junho.

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A partir de Barbi(e), instalaçãode Filipa Malva, Ricardo Correia e Jonathan Azevedo DR

Depois de representações individuais nas duas edições anteriores, com João Mendes Ribeiro e João Brites, a representação portuguesa foi desta vez assegurada pela Associação Portuguesa de Cenografia (APCen), criada há apenas três anos, e que para isso foi mandatada pela Direcção-Geral das Artes.

E porque a associação fez questão de alargar ao máximo a representação dos seus associados no trabalho a apresentar em Praga, escolheu o tema da Identidade e da Política entre aqueles (os “espaços partilhados”) que foram propostos pela organização checa – os outros sendo a Música e o Clima.

“Escolhemos o tema Política, porque este exercício de representação de uma colectividade tão grande, do Norte, Centro e Sul do país, tem uma dimensão política inevitável”, diz ao PÚBLICO Marta Carreiras, que com José Manuel Castanheira e Rui Francisco assegura a curadoria da presença portuguesa.

Id(entity) box é o nome do projecto que a APCen leva a Praga, na secção principal do evento, dedicada a cada um dos países participantes – mas a presença lusa estende-se, este ano e pela primeira vez, também às secções Estudantes e Espaço.

Diferentemente dos anos anteriores, a quadrienal checa decidiu espalhar as representações nacionais por diferentes lugares da capital. A decisão deu origem a uma série de restrições e contingências de espaço que fizeram com que a Portugal fosse atribuída uma sala, na Casa Kafka, com uma área de apenas 18m2.

“Mas nós somos muito bons a lidar com a contingência, virando essa situação ao contrário; é esse o nosso trabalho de cenógrafos: inventar espaço”, nota Marta Carreiras, a justificar a solução encontrada pela APCen. E esta passou pela reconstituição, em Abril passado, em Montemor-o-Novo, de uma sala com as mesmas dimensões da da Casa Kafka, onde ao longo de dez dias 31 artistas encenaram 18 intervenções cenográficas que foram registadas numa instalação vídeo, que agora será apresentada em Praga.

“Assim conseguimos manobrar e manipular o espaço sem qualquer limitação e assegurando a liberdade de expressão: se era preciso pregar um prego, nós fizemo-lo; se era preciso abrir uma janela, também...”, diz a comissária. E sustenta essa opção fazendo notar que “a identidade é uma coisa mutante, uma construção em constante movimento, que não está circunscrita nem geográfica nem territorialmente".

Na secção Estudantes, cujos trabalhos serão apresentados numa capela, a questão do espaço foi também resolvida de uma forma imaginativa: a partir do recurso a caixas de correio e um texto, 25 estudantes de quatro escolas – Academia Contemporânea do Espectáculo/Teatro do Bolhão e ESMAE, no Porto; Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa; e Universidade de Évora – criaram 13 propostas abordando “o tema da viagem, do transporte, do movimento”, diz Marta Carreiras.

A representação portuguesa completa-se com uma conferência e uma visita guiada de Sara Franqueira, sob o mote By the book or by the space, uma metáfora que permitirá discutir a divisão tradicional no teatro entre imagem/texto, dramaturgia/materialidade, peça/palco.

Nas duas presenças anteriores na história da Quadrienal de Praga, Portugal esteve representado, em 2007, pelo arquitecto João Mendes Ribeiro com a exposição Arquitecturas em palco (que seria distinguida com uma medalha de ouro na categoria Best stage design) e, em 2001, o encenador e cenógrafo João Brites levou Do outro lado, testemunho de 30 anos de trabalho da companhia O Bando.