Serviços Estratégicos de Informação e Defesa reabrem “antenas” no estrangeiro

O envolvimento de Portugal na coligação internacional que luta contra o jihadismo na Síria e na Turquia, não é estranho ao envio de agentes para zonas sensíveis, depois de um período de contenção de gastos iniciado a partir de 2010.

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SIED passa a dispor de agentes na Argélia e Turquia, dois países fundamentais na luta contra o jihadismo Reuters

O SIED (Serviços Estratégicos de Informação e Defesa) vai reabrir “antenas” no estrangeiro. O PÚBLICO sabe que, até ao final deste ano, o “ramo externo” do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) vai colocar agentes em Ancara, na Turquia, e na Argélia.

Na gíria dos serviços de informação, estes agentes deslocados para alguns países são conhecidos como “antenas” por a sua função ser captar, monitorizar e enviar informação dos destinos onde estão colocados. As duas colocações previstas até Dezembro de 2015, interrompem um ciclo de contenção iniciado em 2012 por motivos de controlo financeiro no âmbito da política de austeridade seguida pelo Governo. Neste âmbito, os cortes que afectaram os diversos serviços do SIRP – para a além do SIED também o Serviços de Informações de Segurança (SIS) – permitiram, então, uma diminuição de 38,5% nos cargos dirigentes dos serviços.

Admite-se que, de forma gradual, novas “antenas” venham a ser recuperadas durante o próximo ano. Até 2010, o SIED tinha funcionários em 12 destinos diferentes: Marrocos (Rabat); Madrid; Cairo, Moscovo, duas em Bruxelas; Guiné-Bissau; Brasil; Pequim; Angola; Moçambique e Índia. As directrizes de austeridade levaram a que deste lote, apenas permanecessem efectivas cinco: China; Angola; Moçambique; Índia; Brasil.

As duas aberturas imediatas têm um elo estratégico comum. Pela primeira vez, o SIED passa a dispor de agentes na Argélia e Turquia, dois países fundamentais no palco da luta contra o jihadismo radical protagonizado pelo autoproclamado Estado Islâmico (EI). Na Argélia, país com o qual Portugal pretende desenvolver trocas comerciais e onde há um número crescente de empresas portuguesas a investir, a questão económica é importante, embora aquele país esteja no radar do expansionismo do EI. Já na Turquia, o interesse é fundamentalmente estratégico e tem a ver com a luta contra o terrorismo jihadista.

Os turcos estão na primeira linha geográfica no combate aos efectivos do EI, pois têm fronteiras com a Síria, Iraque e Bulgária, sendo este último país uma das rotas utilizadas pelos denominados combatentes estrangeiros para integrarem as milícias do EI. Outra rota de penetração é a própria Turquia. Aliás, os serviços de informação portugueses detectaram em 2012 e 2013 a passagem por Lisboa de jovens radicalizados europeus, nomeadamente oriundos da Grã-Bretanha, que se pretendiam juntar aos efectivos do EI na Síria e no Iraque, e que em território nacional, na linha de Sintra, dispunham de um recuo propiciado por amigos de jihadistas de origem portuguesa.

Foi um triângulo de colaboração de diversas secretas, envolvendo os serviços britânicos, portugueses e turcos, que inviabilizou esta rota. Os jovens foram interceptados, vindos da Portela, em Lisboa, à sua chegada a aeroportos da Turquia e a sua entrada foi impedida pelas autoridades turcas, muitas vezes invocando meras formalidades burocráticas. O envolvimento de Portugal na coligação internacional contra o autoproclamado Estado Islâmico, liderada pelos Estados Unidos, não será assim estranho à colocação de um agente do SIED em território turco.

Mas não é só pela proximidade aos cenários da guerra com o EI que a Turquia é um país chave. Os turcos têm fronteiras com a Grécia, Irão, Arménia, Geórgia e Azerbeijão, numa posição estratégica nos mares Negro e Mediterrâneo.

O PÚBLICO sabe que nos planos do SIRP, dirigido por Júlio Pereira, está dotar o SIED de novas “antenas”. Em 2016, há interesse em retomar as de Madrid e Rabat, por a Espanha e Marrocos, país vizinhos de Portugal, estarem na primeira linha da frente na luta contra o recrutamento do EI e, simultaneamente, serem o primeiro dique no controlo dos chamados regressados. Ou seja, jovens oriundos de vários países europeus, treinados pelo autoproclamado Estado Islâmico, e que podem regressar à Europa com missões específicas de cometer atentados ou desenvolver acções de proselitismo.