Depois de Gezi “nada será como antes”

A maior ameaça que o Governo do AKP enfrentou deixou mortos e feridos, mas também uniu pessoas que nem se conheciam. Um pintor decidiu juntar isso tudo num mural.

Haydar Ozay a trabalhar no seu mural
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Haydar Ozay a trabalhar no seu mural Banu Tutu

Haydar Ozay não mede as palavras para descrever o que viveu há dois anos. “A resistência no Parque de Gezi salvou as nossas memórias de infância e criou novas memórias maravilhosas. Forçou-nos a abandonar a letargia do quotidiano. Fez as pessoas acreditarem que podiam determinar o seu futuro. Muitos fora dos grupos políticos participaram pela primeira vez num acontecimento histórico e isso foi uma enorme fonte de entusiasmo.”

O pintor turco de 46 anos apresentou há dias o seu último trabalho, um mural de cinco por dez metros onde entram todos: os manifestantes que se tornaram emblemáticos, como a mulher de vermelho, aqueles de que nunca ninguém saberá o nome e que resistiram aos canhões de água, os artistas que encheram Gezi, um parque atrás da Praça Taksim, epicentro da vida em Istambul, e as vítimas, como Bervin Elvan, o rapaz de 15 anos que morreu depois de ter sido atingido por uma lata de gás lacrimogéneo na cabeça.

Os protestos do Parque Gezi começaram por ser isso mesmo: algumas pessoas a tentarem impedir o derrube de árvores. As árvores da infância de Haydar Ozay. “Entre 1979 e 2001, por mais de 20 anos, o meu pai foi o chefe dos jardineiros de Gezi. Quando era criança ia ao parque e falava com os jardineiros”, conta Ozay, numa troca de emails com o seu colaborador, Banu Tutu, a ajudar como tradutor.

Os protestos começaram no fim de Maio de 2013, prolongaram-se até Junho e deram origem a manifestações onde participaram três milhões de pessoas em 79 das 81 províncias do país, alimentadas por cargas policiais sucessivas. O resultado foi duro: oito mortos, oito mil feridos, 11 pessoas cegas e a abertura de uma caça às bruxas que visou manifestantes, médicos que tentaram ajudar os feridos, jornalistas que cobriram o que estava a acontecer (centenas foram despedidos), comerciantes que abriram as suas lojas para abrigar feridos e advogados que defendem os acusados.

Novo palco da História
Gezi tornou-se um movimento único, cujo espírito perdura em novas ONG e movimentos, como o grupo que reuniu 70 mil voluntários para monitorizar estas legislativas. O que leva Ozay a acreditar que “nunca nada será como antes” é que entre os manifestantes estiveram “todas as camadas da sociedade, como se ocupassem o seu lugar num novo palco da história”. O pintor sente que ao seu lado, em Gezi, estiveram “os mais livres”, num “grande esforço que foi uma odisseia”. O resultado, diz, “é uma grande autenticidade, uma espécie de porta aberta para um renascimento”.

Na altura, Andrew Gardner, perito da Amnistia Internacional e principal autor de um relatório sobre os protestos e “a negação brutal do direito a manifestações pacíficas na Turquia”, disse ao PÚBLICO que Gezi foi “o primeiro desafio real ao Governo do AKP”. Mais importante: as manifestações atraíram a classe média e a repressão não visou apenas “os suspeitos do costume”. Em Gezi, descreveu Gardner, “estiveram pessoas que nunca se cruzam e que estão habituadas a odiar-se e a ter medo umas das outras”: homofóbicos e homossexuais, laicos ferozes e mulheres de lenço. É esse o legado de Gezi e é isso que espelha o mural de Ozay.

Taksim está cheia de polícias e Gezi é território proibido para protestos ou murais. Mas sobreviveu.

O mural de Ozay foi inaugurado na Ordem dos Engenheiros e Arquitectos da Turquia, a 30 de Maio. Na cerimónia estiveram familiares das crianças que morreram ou foram feridas. “As nossas crianças nunca vão crescer, são imortais”, ouviu o pintor a um pai que perdeu o filho. Como Bervin Elvan, que Ozay pintou com uma mão cheia de berlindes.

“As palavras deste pai são a definição de arte viva”, diz Ozay. “Demorei muito tempo a terminar o quadro. Só consegui resistir ao desespero e chegar ao fim por estar determinado em ultrapassar estas mortes brutais com uma obra de arte”, explica. Todas as pessoas que já viram o mural fazem a mesma pergunta ao pintor: quando é que poderá ser exposto em Gezi? “Pode ser difícil, talvez impossível, um dia… Mas acredito que o quadro vai ser lembrado como pertencendo às flores e às árvores de Gezi, ao inesquecível Junho de 2013.”