História do colapso da sardinha repete-se na Califórnia

Stocks da Costa Oeste dos Estados Unidos levaram 40 anos para recuperar. Agora estão de novo em crise.

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Durante décadas, as sardinhas do Pacífico (Sardinops sagax) – uma espécie diferente da portuguesa – alimentaram uma sólida indústria pesqueira na Califórnia, Estados Unidos. Nos anos 1920, eram tão abundantes que os cardumes eram detectados por aeronaves da marinha norte-americana. A informação era transmitida para a guarda costeira e repassada às embarcações de pesca. E todos atiravam-se às sardinhas, segundo descreve Edward Ueber e Alec MacCall, no relato "The Rise and Fall of the Sardine Empire".

E era apenas o começo. A actividade multiplicou-se e a pesca aumentou astronomicamente. Na estação de 1936-37, foram capturadas 791 mil toneladas de sardinhas ao largo da Califórnia, Oregon e Washington  – três vezes o que os cientistas então consideravam ser o limite sustentável (250 mil toneladas). As fábricas de conserva floresceram e na década de 1940 havia cerca de 200 barcos a pescar sardinhas na costa Oeste dos Estados Unidos.

De repente, todo este império desmoronou. As sardinhas desapareceram abruptamente na década de 1950 e a actividade foi reduzida a uma sombra do que era antes. Foram precisos nada menos do que 40 anos para que os peixes reaparecessem em quantidade.

Durante o período de bonança, não faltaram avisos de que a exploração estava a ser exagerada. E quando os stocks colapsaram, cientistas do Departamento de Pescas e Caça da Califórnia apontaram o dedo à indústria, dizendo que a pesca excessiva era a principal culpada. Os industriais defenderam-se, argumentando que a flutuação da abundância das sardinhas estava relacionada com causas naturais.

Hoje, sabe-se que ambos tinham razão. Num estudo publicado em 1992, investigadores do México e da Califórnia reconstruíram a história das populações de sardinha na costa Oeste. Para tal, analisaram depósitos de escamas nos sedimentos do fundo do mar, datados de 270 a 1970. Nesses 1700 anos houve nove sequências de ascensão e queda dos stocks. E a média de tempo para recuperação a seguir a um colapso foi de 30 anos.

“Acreditamos que a actual recuperação não é diferente das que ocorreram no passado com a mesma magnitude”, escreveram os investigadores. Estava-se em 1992.

A explicação corrente para o que se passou na costa Oeste dos EUA é a de que as sardinhas desparecem ciclicamente, sempre que se instala um longo período em que a temperatura do mar está anormalmente fria no Pacífico. A mesma tese climática está a ser invocada agora como uma das razões para a crise dos stocks de sardinha em Portugal, mas ao contrário: aqui as águas estão mais quentes do que o normal, e isto estará a afectar a reprodução da espécie

Tal como em Portugal, a pesca num momento de declínio na reprodução terá sido um factor adicional sobre os stocks do Pacífico.

Entretanto, as sardinhas voltaram à Califórnia e aos estados a norte, mas agora enfrentam uma nova crise. Desde 2007, a quantidade de sardinhas tem vindo a cair abruptamente. A organização conservacionista Oceana fala numa quebra de até 91%.

A história repete-se. Há acusações de pesca excessiva, há quem diga que é tudo uma questão natural. E há alertas sobre as consequências da falta de sardinhas sobre o ecossistema marinho. Os pequenos peixes pelágicos – como a sardinha, a cavala e anchova – servem de alimento para animais marinhos maiores. Segundo a Oceana, a ausência de sardinhas está a causar uma grande mortalidade entre as crias de leões marinhos na costa Oeste dos EUA.

Este ano, a situação tornou-se insustentável e em Abril passado as autoridades interditaram a pesca da sardinha por 14 meses na região, até meados de 2016. As cerca de 100 embarcações que se dedicam àquela espécie vão ter de encontrar outras alternativas.

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