UTAD homenageia dois pioneiros do “Douro Contemporâneo”

João Nicolau de Almeida e Luis Braga da Cruz recebem doutoramento honoris causa pelo seu contributo na modernização e desenvolvimento do Douro.

As margens do Douro e os casarios são cenários de filmes românticos com belas actrizes e homens de bigodes fartos
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As margens do Douro e os casarios são cenários de filmes românticos com belas actrizes e homens de bigodes fartos Paulo Pimenta

Raramente o Douro e o Porto se encontraram de forma tão intensa como por volta das dez da manhã desta sexta-feira na Aula Magna da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). De um lado, cinco presidentes da Comissão de Coordenação Regional do Norte e uma legião de quadros superiores que serviram a instituição ao longo dos últimos 30 anos; do outro, dezenas de administradores de empresas produtoras de vinho do Porto e do Douro, enólogos e viticultores. O que juntou toda esta gente foi uma homenagem “a dois pioneiros do Douro contemporâneo”, na definição de Fernando Bianchi de Aguiar, membro do Conselho Geral da UTAD. Fernando Nicolau de Almeida, enólogo da Ramos-Pinto, e Luís Braga da Cruz, ex-presidente da CCDRN que hoje lidera a Fundação de Serralves, receberam o doutoramento honoris causa da UTAD pelo impulso que deram às políticas do território que mudaram a região ou à revolução que colocou o Douro no mapa mundial da enologia e da viticultura.

Como é hábito, os doutoramentos honoris causa são atribuídos a personalidades razoavelmente incontroversas, mas desta vez a decisão da academia transmontana foi talvez ainda mais fácil do que o habitual. No seu discurso de abertura da cerimónia, Fontainhas Fernandes, reitor da UTAD, citou António Barreto, lembrando que “o Douro mudou mais nos últimos 20 anos dos que nos 200 anos anteriores”, e explicou que nesse processo de modernização João Nicolau de Almeida e Luis Braga da Cruz tiveram um papel fundamental.

A abertura do Douro à ciência da vinha e do vinho, que quando João Nicolau de Almeida regressou da sua licenciatura em Bordéus, no final dos anos de 1970 ainda se pautava por “práticas semi-medievais” teve no enólogo da Ramos Pinto um pioneiro – os seus estudos na selecção das melhores castas, nas novas formas de desenho da paisagem ou nas experiências de vinificação são hoje reconhecidos como um ponto de partida que levou à melhoria da qualidade do vinho do Porto e ao nascimento do vinho do Douro. E a gestão de Braga da Cruz de planos como o do PDRITM, um projecto financiado pelo Banco Mundial em 1986, na navegabilidade do Douro ou na candidatura do vale a Património Mundial da Unesco foram considerados pela UTAD como uma “matriz” para a abertura da região ao país e ao mundo, na opinião de Fontainhas Fernandes.

Na sua apologia a João Nicolau de Almeida, Bianchi de Aguiar considerou que a qualidade de vinhos como os Duas Quintas ou os prémios internacionais que recebeu (considerado o homem do ano já em 1998 pela revista Wine and Spirits) têm o valor dos artigos científicos; e Valente de Oliveira, o padrinho de Braga da Cruz, destacou a “paixão” que o engenheiro tem tem pelo Douro e por Trás-os-Montes, o que o levou nos seus 14 anos de presidência da CCDRN a apostar na criação de uma estratégia de desenvolvimento que hoje começa a dar frutos. O momento de maior divergência na cerimónia aconteceu quando, no seu discurso, Braga da Cruz revelou ter sido o autor do projecto da barragem de Foz Coâ, que ameaçava inundar a Quinta de Ervamoira, o lugar onde João Nicolau de Almeida aplicou o resultado das suas investigações pioneiras.

Depois da homenagem, a UTAD organizou um encontro com mais de 100 enólogos formados na sua escola e que hoje se encontram a trabalhar um pouco por todo o país. Depois de anos de distanciamento em relação aos actores da região, o novo reitor e o presidente do Conselho-Geral, Silva Peneda, apostam agora em recuperar a dinâmica inicial da UTAD e em abrir os seus cursos à região e ao país. Uma carta de vinhos dos enólogos da casa será, de acordo com Bianchi de Aguiar, mais um avanço no projecto que pretende demonstrar que o primeiro curso de enologia do país foi fundamental para a revolução dos seus vinhos nos últimos 30 anos.