Entrevista

De cabeças no chão a cabeças-de-cartaz

Desapareceram quase tão depressa como surgiram, criando uma das mais belas páginas da história da pop do final do século XX, a que se convencionou chamar shoegaze. Vinte e cinco anos depois da estreia, 19 depois do fim, os Ride regressam ao ruído.

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Os Ride dissolveram-se em 1996 e foram cada um para o seu lado. Estão de novo juntos desde Novembro para uma digressão-efeméride Emilie Bailey

Foi curta, acidentada e fascinante, a primeira viagem dos Ride, banda seminal da década de 1990 que, como mandam as regras do rock'n'roll, fez questão de se auto-destruir com muita zanga entre os seus membros. Ninguém faz ideia de como acabará a segunda, que começou em Novembro do ano passado, quando a banda anunciou que iria voltar aos palcos, mas uma coisa é certa: mesmo que, passado tanto tempo, continuem a tocar com a cabeça virada para baixo, este sábado os Ride são cabeças de cartaz do NOS Primavera Sound – depois deles só actuam os Underworld. Ninguém imaginaria isto há 25 anos.

Lembram-se de 1990? Os Nirvana e os Sonic Youth ainda não tinham explodido no mainstream, não se falava em Internet, o que sabíamos de rock'n'roll vinha de rádios piratas e do Blitz, gravávamos cassetes, falava-se com veneração e mistério de bandas que nunca ouvíramos. Era a época em que ser do rock era viver numa ciclotimia entre hedonismo e sofrimento – era a época em que os My Bloody Valentine eram a melhor banda do mundo. Alheios ao conceito de espectáculo, tocavam a olhar para os pedais, de modo que a imprensa inventou um movimento (que abarcava todas as bandas similares), o shoegaze, traduzível literalmente por “olhar para os sapatos”. Olhar para os sapatos era a postura oposta à de um Mick Jagger em palco: ser do rock, então, era ser contra o rock.

“O shoegaze era uma merda”, diz hoje Mark Gardener, voz e guitarra dos Ride – lido assim até parece que estamos perante um tipo amargo e zangado com o mundo, mas não, Mark, é um bacano, acreditem, e não há um pingo de acrimónia no seu tom de voz. Ora topem: “Não era um movimento tão aborrecido como o da britpop, esse era mesmo muito aborrecido. Quer dizer, a britpop era uma data de bandas aborrecidas a fazer música antiga. Gostei de algumas coisas dos Oasis e dos Blur. Mas os Suede? Nunca percebi. Nem nunca perceberei. Queriam conquistar a América, mas não iam conseguir porque não eram suficientemente bons."

Deixa-se o grande Mark falar e ele nunca pára. Ri-se, contradiz-se e desdiz-se – e afinal porque é que o shoegaze era um produto excrementício? “É como todos os movimentos, em particular os inventados pela imprensa: havia duas ou três boas bandas e depois surge uma data de imitadores sem ideias. A beleza dos Ride é que nós criámos algo nosso. Ninguém cria do nada. Olha para os Sigur Rös: imitaram-nos para criarem o seu som. Em cada movimento tens bandas que não conseguem ter uma voz sua."

Em 1990 a voz dos Ride era um niquinho a voz dos My Bloody Valentine: guitarras estrepitosas propensas a causar surdez, um baixo em fundo a provocar balanço, a melodia de voz meia abafada pelo ruído. Tendo em conta que a voz dos My Bloody Valentine era uma espécie de experiência-limite com as experiências-limite dos Byrds, podemos qualificar os Ride como enteados destes. “Éramos novos e gostávamos de fazer barulho”, explica Gardener. “Ainda gostamos." Surgiram com Nowhere, o disco de estreia, após três EP bem recebidos, e Nowhere estava praticamente em todo o lado: subiu ao 11.º lugar da tabela de vendas do Reino Unido e de repente aquela música, “feita para ver no que dava, contra as convenções do que devia ser o rock e contra o que era pop da altura”, se não se tornou pop esteve quase a tornar-se. "Olhando agora à distância, fizemos todos os discos de uma forma muito ingénua e experimental. Mudaria algumas coisas, mas tem de se aceitar o que se fez de errado”, reflecte Mark. 

É preciso contextualizar, para que se perceba o sentido de “ingénuo”. “Não queríamos vender discos. Nem sequer fazíamos ideia de que podíamos vender discos. Simplesmente pegámos nas guitarras [ele e Andy Bell, com quem formou a banda e andou às turras durante anos] e fizemos canções". Mark vai ao ponto de dizer que a rapaziada nunca sentiu “que houvesse uma carreira em jogo": "Naquela altura, o rock não era uma carreira; se fazias rock, o mais provável era morreres. Sempre estivemos à beira do precipício e, honestamente, sempre achei que íamos cair. E caímos. Ainda bem que caímos."

Duas partes 
Foi uma queda de oiro. Menos de dois anos depois de Nowhere, chegou o magnífico Going Blank Again, que atingiu o quinto lugar na tabela de vendas do Reino Unido e tornou-se disco de ouro. Ao terceiro, Carnival of Light, a mesma posição, o mesmo galardão. Mas aí já havia um problemão: “Começámos a zangar-nos." 

Caso se tenham esquecido, a isto chama-se eufemismo: as diferenças entre Mark e Andy Bell chegaram ao ponto de o disco estar dividido em duas partes. Na primeira estavam as canções de Gardener, na segunda as de Bell. Não havia mais shoegaze, mas uma aproximação ao rock clássico. “Costumávamos fazer os discos como banda, mas nessa altura cada um de nós apresentou as suas canções como um facto consumado e nem sequer queríamos que surgissem no disco intercaladas umas com as outras."

À época houve uma tirada que ficou histórica: alegadamente, um membro dos Ride teria descrito Carnival of Light como um “Carnival of Shite [excremento]”. Quem? Como? Porquê? “Para ser sincero nem sei quem disse isso”, começa Mark, talvez no único momento em que a sua voz não adopta um tom brincalhão. Depois continua: “Chamar 'carnival of shite' ao disco é uma imbecilidade”, diz, o que nos leva a pensar que a citação será de Andy Bell. “Mas a memória que tenho é de que alguém o disse como piada e as pessoas levaram a tirada a sério. Ainda tocamos canções desse disco e se achássemos que era tudo mau não as tocávamos."

Não é bem assim, não é bem assim: nesta digressão que eles tocam “acima de tudo canções dos dois primeiros discos". O que não significa que uma canção como 1000 miles (a segunda de Carnival of Light) não seja óptima (embora uma completa imitação dos Byrds). De Tarantula, o último disco, só tocam uma. Os dois primeiros discos são aqueles que se tornaram clássicos, que continuam a surgir nas listas de melhores álbuns da década – talvez, simplesmente, seja isso que as pessoas esperam dos Ride.

Mark tem outra explicação: “São os discos mais psicadélicos, mais inquietos, com um som maior, menos melancólicos, os que melhor se adaptam aos palcos." Pequena pausa, e: “São os que têm funcionado melhor ao vivo."

Sem telemóveis
Apesar de Mark dizer que ele e Andy Bell acabaram “por fazer as pazes pouco depois de os Ride acabarem”, a verdade é que durante anos eles disseram que um regresso seria impossível. Até há cerca de meia década, quando se começaram a ouvir os primeiros rumores de uma possível digressão. Os My Bloody Valentine voltaram, os Slowdive também (aliás, passaram ambos pelo NOS Primavera Sound, respectivamente em 2013 e 2014) – e com o tempo o shoegaze foi revisto e recuperado enquanto momento importante da pop.

“Há três anos que sabíamos que acabaríamos por voltar, era só uma questão de encaixar a digressão com os nossos trabalhos. Agora, pensa nisto: a digressão devia ter acabado há uns dias e agora tivemos uma proposta para dar concertos nos EUA. Temos concertos marcados até Novembro. Quando te apercebes de que não vais viver para sempre ficas a pensar que ficarás amargo se nunca fizeres isto. As pessoas querem e tu queres, porque não? Porque estás a vender-te? Haja paciência para esse discurso. Ao longo dos anos cada vez mais pessoas pediram o nosso regresso, porque não havíamos de voltar?”

Voltaram e para “imensa surpresa” deles as plateias estão “cheias de miúdos de 20 anos que não eram nascidos quando os Ride começaram”. Isso, para Mark, só pode querer dizer uma coisa: “Ao início só queríamos que a nossa música durasse – o nosso sonho era fazer como os Velvet Underground e os Beach Boys, que muitos anos depois estavam a ser descobertos por novas gerações e ainda são importantes. E o que está a acontecer de certa maneira prova que o conseguimos." 

Pelo que Mark não crê que este regresso seja um exercício de mera nostalgia. “Não queremos fazer o mesmo que já fizemos. Nem estamos a tocar para as mesmas pessoas. Somos cabeças-de-cartaz do Primavera, temos de fazer mais, com um som maior." O que ainda não implica pulinhos ou palminhas: “No shoegaze éramos muito tímidos. Eu não sou um showman, nem nunca fui. Quando os Ride surgiram havia os U2, os Queen, esse sim davam espectáculo, mas nós queríamos fazer o oposto. Acho que o que nós fazemos é porreiro: estás no palco a tocar normalmente, vestido normalmente, e quem está lá em baixo pensa: 'Eu podia fazer isto, eu podia ser este gajo'. Também é importante, isso." 

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No NOS Primavera Sound, serão uns improváveis cabeças-de-cartaz da noite de sábado DR

Não a vale cruzarem os dedos e fazerem figas para surgir um novo disco no fim da digressão. Ou para que esta continue indefinidamente. “Não vamos fazer como os Pixies, que andaram três ou quatro anos a fazer a digressão de regresso sem canções novas. E só vamos fazer canções novas se quando acabarmos os concertos nos apetecer estar juntos." Mark torna-se filósofo: “No geral é idiota fazer planos para a vida, porque nunca funcionam”.

Qual life coach, Mark até oferece o seu exemplo: “Depois dos Ride fiz imensos planos e acabei em França, no meio do nada, por dois ou três anos. Estava à procura de encontrar o meu lugar no mundo, e precisava de árvores e de campo para pôr a cabeça no lugar. Não queria estar rodeado de festas. E depois pensei que estava a perder a cabeça – e precisava de pessoas. A graça da vida é essa: não se aprende nem se cresce quando as coisas vão bem, cresce-se quando é tudo uma merda. E aí tens de tentar mudar, nem que seja à força – e essas decisões é que são grandes decisões e são importantes."

Acabado o momento de iluminação metafísica, Mark tem um pedido a fazer às pessoas: “Deixem os telemóveis em casa. É porreiro para espalhar a palavra, mas o bonito no rock'n'roll é o mistério e os telemóveis tiram esse mistério." E por fim: “Fumem um charro e divirtam-se. Algumas das minhas melhores experiências musicais foram assim."

Talvez Mark Gardener não seja o melhor tipo a quem pedir conselhos. Mas que os Ride fizeram das melhores canções da década de 1990, isso fizeram.