Entrevista

As histórias de Melody Gardot enquanto espera pela utopia

Coleccionando uma série de histórias avulsas de gente com quem se foi cruzando nos últimos anos, Melody Gardot faz de Currency of Man uma reflexão sobre o valor da vida quase em forma de jornalismo musical. Nunca antes a cantora soou tão crua.

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Para o jornalista do The Guardian Dorian Lynskey, o nascimento da canção de protesto dá-se numa noite perdida de Março de 1939, no Café Society, em Manhattan, no preciso momento em que as luzes se baixam e apenas fica um foco cru a incidir sobre a cantora. Aos primeiros versos, a voz cala a assistência com uma canção causadora de um mal-estar instantâneo. Em vez de standards mais ou menos sofridos a carpirem amores do avesso, são os estômagos entre o público que se torcem nauseados, enquanto aquela interpretação soberba dá conta de corpos negros dependurados de árvores sulistas.

Antes de Bilie Holiday cantar Strange fruit, argumenta Lynskey no livro 33 Revolutions per Minute, já havia naturalmente canções politizadas. A diferença, defende, é que até então funcionavam como propaganda. Com Strange fruit, o tabuleiro é outro: o da arte, que simplesmente não abdica de enfiar os braços na imundície humana. Mesmo com um impecável vestido em palco, não há como não imaginar a voz e a figura de Billie Holiday tingidas de vermelho-sangue.

É também impossível não ouvir ecos de Holiday e de Strange fruit em Preacherman, o tema mais físico de Currency of Man, quarto álbum de Melody Gardot. Não se trata obviamente de um tema tão perturbador quanto continua a ser aquela obra-prima, mas a ligação faz-se de forma inescapável pelo facto de Gardot reavivar na sua canção o caso de Emmett Till, barbaramente assassinado em 1955, aos 14 anos, por, sendo um rapaz negro, ter tentado seduzir uma empregada branca de uma mercearia no Mississípi. Tendo ouvido a história da boca do seu baterista Chuck Staab, os dois escreveram o tema traçando paralelos com as mortes movidas por questões raciais de Trayvon Martin (2012, Sanford, estado da Florida) e Michael Brown (2014, Ferguson, estado do Missouri). A linha pode facilmente traçar-se até Freddie Gray (2015, Baltimore, estado do Maryland), detido sem aparente justa causa e morto no interior de um veículo policial.

It’s all just a little bit of history repeating”, entoa Melody Gardot num hotel londrino, diante do Ípsilon, perante o avolumar dos factos, unindo com a melodia de Shirley Bassey as pontas das datas entre as quais nos encontramos – 1939 e 2015. “Só podemos viver num momento, o agora”, comenta, “porque se tentarmos viver no passado seremos um desastre; e se tentarmos viver no futuro não aproveitaremos o presente. Mas ao vivermos no presente temos de o fazer com algum conhecimento, com reverência pela História. Isto não pode continuar a acontecer”. Gardot, que se diz “à espera da utopia”, não está na disposição de abdicar de usar a música para passar a palavra durante esse tempo de espera. O tempo em que canta é o de tentar acordar alguma humanidade e o de expor ao absurdo crimes motivados “por nada”. “Olha-se para o caso de Emmett e a sua história é importante porque foi morto por dizer uma palavra – que nem sequer foi uma palavra violenta, mas um elogio a uma mulher. Foi morto pela raça e porque sentiram que tinham o direito de o fazer.”

Melody tem, no entanto, o cuidado de não carregar na condenação nas autoridades em situações mais recentes de abuso de poder. Isso seria extirpar tais factos do seu contexto, olhá-los como fenómenos isolados e ceder a uma demonização de indivíduos, mais prática e fácil do que desvendar uma culpabilização colectiva que acredita poder estar na origem dos comportamentos. Para a cantora, todos nascemos com um potencial de bondade e compaixão que precisa de ser preservado “de toda a merda que se mete pelo caminho e que é resultante da experiência e de uma educação deficiente”. “E aquilo que vejo é que treinamos os polícias como treinamos cães para atacarem e terem comportamentos agressivos. São caçadores que têm de olhar à volta, identificar problemas, reagir no momento, sacar da arma instintivamente e atirar sem falhar. Claro que aquilo que aconteceu [refere-se aos casos recentes acima citados] é desumano, concordo, mas treinámo-los para serem máquinas de matar. Acredito que o problema é parte individual e parte sistémico, porque os criámos assim para nossa protecção.”

A memória dessa predisposição explícita para a violência chega-lhe através de dois exemplos. Um aeroporto em Paris patrulhado por polícias de metralhadora em exibição e a noite em que dava um passeio de bicicleta nocturno, no Rio de Janeiro, com uma amiga. Abordadas pela polícia por se encontrarem paradas junto à estrada, a tentar perceber o que fazer aos pneus quase sem ar, tiveram de responder pela sua presença na rua às 11 e meia da noite perante dois agentes de pistolas em punho. “É preciso tudo isso?”, terá questionado a cantora. “Sou como uma criança”, conta, dando a entender que não mede devidamente as palavras. E então os polícias apresentaram-lhes cada uma das cinco armas de fogo que levavam consigo. “Este álbum é sobre estar no mundo agora e assistir a estas coisas”, revela. “Dou por mim a pensar: OK, vou ficando à espera da utopia.”

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Melody Gardot cruza neste álbum as histórias reais de cidadãos afectados pela crise do Sul da Europa com as histórias reais de vítimas da violência racial norte-americana

Chiado abaixo
Em The Absence, álbum anterior lançado em 2012, Melody Gardot partira em viagem pelo mundo, atraída por músicas que queria descobrir e aprender com músicos locais. Demorou-se meses em Lisboa, em Buenos Aires e pelo Brasil, sobretudo pelo Brasil, de onde saiu um álbum que evocava sem esforço as colaborações de Frank Sinatra e Tom Jobim – um jazz canção, uma prática de standards, mais uma doçura e uma ginga lenta que só podiam vir da bossa nova. Mas essas investigações foram deixando um outro rasto. À medida que a cantora prosseguia com a sua pesquisa musical, ia-se cruzando com histórias avulsas que começaram a formar um bolo do qual sairia a matéria-prima de Currency of Man. Contrariando a insistência da editora para que avançasse sem demoras para uma nova gravação, começou a tentar perceber o que podia unir estas histórias com que se cruzava e que eram, sobretudo, produto da crise financeira no Sul da Europa. Aos poucos, foi tecendo um conjunto de narrativas inspiradas por gente caída do seu próprio pedestal, de repente largada à deriva, sem saber o que fazer para além da mais básica sobrevivência.

A par disto, Melody Gardot começou a pensar cada vez mais no estabelecimento de fronteiras. A contínua situação problemática da imigração mexicana para os Estados Unidos e a recente crise de refugiados chegados ao país a partir de El Salvador, que a cantora acompanhou de perto – “Tinha amigos lá a perderem filhos e outros familiares devido à violência”, confessa –, levaram-na a questionar-se sobre esta tendência humana para levantar barreiras a partir de linhas imaginárias e criar territórios exclusivos, protegidos dos restantes. “Sinto que as fronteiras e as paredes que colocamos entre nós fazem que não sejamos conscientes e tornemos impossível entrar nas vidas uns dos outros”, queixa-se, recordando que na véspera do encontro com o Ípsilon em Londres viajara duas horas e meia frente a frente a um desconhecido no comboio Eurostar e não trocou com ele uma única palavra. Até num comboio, e sem fuga possível, havia uma fronteira a separá-los.

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Por isso, Currency of Man – uma indagação pessoal sobre o valor da vida humana, como se, à semelhança de qualquer outro produto, pudesse ser alvo de cotação em bolsa e dela se pudesse dispor com a mesma frieza – começa com os versos (“See that man/ sitting in front of the jewelry store”) que Melody Gardot cantarolou pela primeira vez descendo do Chiado lisboeta em direcção ao Tejo. Habitante intermitente da cidade desde que The Absence a trouxe até Portugal, deparou-se com um músico de rua durante semanas a fio sem que se apercebesse de que criara uma banda sonora para o seu percurso diário. “Quando se é músico começam a reconhecer-se as ruas pelos sons e não tanto pelos nomes”, explica, continuando com a justificação para o arranque do disco ao dizer que, certo dia, notou que o músico tinha ficado sem a harmónica que tocava diariamente no mesmo sítio. Alguém lha roubara e a sua música resumia-se agora a uma garrafa cheia de trocos percutida no chão. Perguntou-lhe porque não comprava outra harmónica. Ele respondeu que “não faria o mesmo som”. “Achei aquela resposta brilhante."

Uma descoberta acidental
Desse encontro fortuito, Melody Gardot retirou a certeza de querer alimentar todo um disco dos relatos verídicos que lhe atravessavam o caminho. Mas esse “atravessamento” implicava também estar disponível para encontrar e ouvir as pessoas. “Cada um de nós está sempre a passar por alguma coisa importante na sua vida”, argumenta. “Neste álbum, por ter algum tempo, parei e falei com as pessoas – gente que dorme ou toca na rua, que trabalha até às duas da manhã porque tem um bebé para alimentar, que emigra à procura de uma vida melhor, que vive numa casa luxuosa mas deixou de ter dinheiro para comprar comida. Quando se tem uma grande imaginação, pode inventar-se; mas não faltam histórias reais e intensas que quero partilhar. É quase como jornalismo musical.”

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A inspiração no quotidiano acarretou também uma diferente exploração do estúdio, com menos maquilhagem e uma linguagem musical mais crua. Essa opção prendeu-se ainda com a descoberta acidental do som que Melody pretendia ao gravar para o álbum de homenagem a Nina Simone Autour de Nina, produzido pelos franceses Clément Ducol e Maxim le Guil. Ao registar a sua versão de Four women, espantou-se com a forma como a sua voz soava “mais profunda e quente”, mais próxima do que nunca daquele que lhe parecia o seu registo mais autêntico. Questionou então os produtores sobre o microfone usado ou as características do estúdio. Explicaram-lhe que nada de anormal havia nessas hipóteses. A única diferença é que a tinham gravado directamente para fita, algo que para quem entrou no mundo dos discos na época digital se transformou numa gigantesca revelação.

Essa será uma das razões que fazem de Currency of Man o álbum mais entusiasmante da discografia de Melody Gardot. Mas há que contabilizar igualmente: a primeira vez em que o seu berço de Filadélfia se faz sentir (com um pulsar soul agarrado pelos sopros e pelo piano eléctrico), os insinuantes arranjos de cordas assumidamente inspirados em Histoire de Melody Nelson, de Serge Gainsbourg (em It gonna come ou Don’t talk) ou as redondezas blues-rock em Preacherman (Cat Power quase poderia assomar-se aqui). Nunca Melody Gardot arriscou tanto fora de um jazz vocal amaciado pela pop. Em If ever I recall your face, aliás, não anda longe do que poderia ser uma canção de Nina Simone. Ou até mesmo de Billie Holiday.

O Ípsilon viajou a convite da Universal Music Portugal