Entrevista

Eneida Marta: cantos de um sonho guineense

Notável sucessor de Lôpe Kai, Nha Sunhu traz-nos uma cantora revitalizada e confiante. Dias 28 na Casa da Música e 29 na Culturgest.

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Após uns anos de quase silêncio, a cantora guineense Eneida Marta volta à ribalta com novo disco, Nha Sunhu, e com dois espectáculos em salas grandes: a Casa da Música, no Porto, a 28 de Maio, e o Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa, um dia depois. Com Eneida Marta (voz e percussões) estarão Juvenal Cabral, do grupo guineense Tabanka Djaz (baixo e direcção musical), Ibrahim Galissa (kora), Ciro Bertini (piano, acordeão, guitarra) e Tony Bat (percussão e bateria não convencional).

Nascida na Guiné-Bissau há 42 anos, Eneida lançou o seu primeiro disco, Nô Stória, em 2001. Era um trabalho ainda incipiente e pouco ousado. Mas Lôpe Kai, gravado em Lisboa e Barcelona em 2004 e editado em 2006 pela Iris Music, lançou-a em definitivo. A Guiné-Bissau ganhara uma voz vibrante e enérgica, tributária das raízes: ela cantava em crioulo guineense, mandinga, fula, futa-fula, mas também em português, com ritmos como o gumbé, a tina, a singa ou o djambadon, modernizando-os sem os desfigurar.

Nessa altura, era seu produtor o talentoso músico guineense Juca Delgado. Mas uma separação profissional entre os dois deixou-a perante o desafio de seguir caminho. Como? Em Maio de 2012, um concerto no B.Leza, em Lisboa, acabou por resolver na sua cabeça esse problema. “Foi o primeiro concerto em que eu ia olhar para o lado direito e não ia ver o Juca, ia ver outra pessoa. Isso fez-me confusão, mas ao mesmo tempo deu-me experiência: dirigi a banda e tomei as rédeas das minhas coisas. E a partir desse dia comecei a acreditar mais em mim.” Não pensava produzir um disco, isso estava ainda longe dos seus projectos. Foram as circunstâncias que a levaram a tal. “Por falta de dinheiro para pagar a um produtor, vi-me a produzir o disco e nem me dei conta disso. Só no fim de tudo é que percebi.”

A ideia de Nha Sunhu nasceu num período em que Eneida teve a estranha sensação de ver a sua carreira estagnar, e perigosamente. Tinha gravado um disco que acabou por não sair, devido à ruptura com Juca Delgado, e achou que só podia fazer uma coisa: gravar outro. “Então fui para a Guiné, falei com os meus amigos, resgatei algumas músicas e, com novos arranjos, recuperei-as para o novo disco.” Também compõe (no novo disco assina, por exemplo, Nha principe, cantada apenas com a companhia da viola de Manecas Costa), mas, como acha que há quem escreva melhor do que ela, optou tirar poetas guineenses do anonimato. “Tive um árduo trabalho com o Zé Manel [um dos músicos guineenses que a ajudaram muito no disco] na escolha dos poemas. Às vezes ele é que ficava noites a ler, separava-os, e na manhã seguinte mostrava-mos. Eu lia, e era aquilo que me tocava como pessoa, não como cantora, que escolhia.”

A alma fica, o corpo vem
Aqui Eneida volta à sua preocupação de sempre. “Fiz um disco para tocar as pessoas, para que elas se identificassem com cada tema.” O trabalho de reunir as canções começou em 2013, ano em que foi nomeada embaixadora da UNICEF. A segunda estadia na Guiné-Bissau foi em 2014: quatro ou cinco meses para recolher temas, preparar bases, fazer captações. “Em termos musicais, há neste disco alguns estilos tradicionais, muito tradicionais, da Guiné. E a única maneira de as trazer de uma forma mais genuína foi captar a parte da percussão na Guiné-Bissau. Porque a linguagem é completamente diferente. Em Portugal os percussionistas já estão habituados a tocar com o cronómetro e eu não queria nada disso. Queria que tocassem como sentiam, para não se perder a essência.” No disco, diz Eneida (e uma audição atenta confirma), isso pode sentir-se mais nos temas I korson di kim, Mundo i assim ou Tchilaku na tabanka. “É o estilo djambadon, que se toca nas cerimónias de circuncisão ou nos casamentos.” O técnico avisou-a: ouvindo pista por pista, parecia errado. “Mas quando se juntam, aí encaixa."

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O disco abre com um instrumental. “É um tocador de flauta, um djidiu, que costuma tocar na rua, em Bissau. Levámo-lo a gravar ao estúdio e ele viu-se aflito”, conta Eneida entre gargalhadas. A flauta ouve-se misturada com a voz do tocador. “Já gravei também um outro flautista, que vive em França, e se ouvirmos bem sentimos que eles usam a voz, não é só o sopro. Na introdução do disco, ele está a chamar o meu nome.”

É mais uma prova, para lá das canções e dos ritmos, dos fortes laços com o seu país. “Guiné-Bissau é o amor da minha vida, um amor incondicional. É engraçado que, quando chego à Guiné-Bissau, reencontro-me. Quando saio, parece-me que a alma fica e o corpo vem.” Mesmo assim, Eneida vai e vem, mantendo uma casa em Portugal e outra lá. “É muito difícil fazer carreira na Guiné e talvez por isso eu ainda esteja em Portugal, se não já teria ido. Porque é onde eu me sinto eu. Os músicos que estão lá têm grandes dificuldades, não temos salas de espectáculos (há o centro cultural francês, com uma sala para 200 pessoas), se tocamos hoje não podemos tocar daqui a dois meses. Então as pessoas vão-se desenrascando em bares, a fazer música a metro. O que faz pena, porque temos salas abandonadas, completamente em ruínas, que se podiam recuperar. Já no tempo do governo de transição eu tentei recuperar uma delas, o mítico Salão do III Congresso, estive lá a cantar em criança. Não consegui. O que me aborrece é que os nossos governantes não vejam a cultura como uma prioridade.”

Com um disco chamado Nha Sunhu, ela tem também os seus sonhos, um deles já concretizado: “Tinha o sonho de produzir um tema num disco meu; acabei por produzir 14. E tenho o sonho de ouvir o nome da Guiné-Bissau na boca das pessoas da forma mais positiva possível. Acredito que o que a Guiné tem de mau é uma gota no oceano, em comparação com o que tem de bom.”