Luís não pode trabalhar por já não ter um saxofone emprestado

Jovem músico açoriano ficou sem o saxofone emprestado que usava e procura, agora, conseguir os 3.000 euros de que precisa para comprar um. Campanha de crowdfunding pelo “microfone do coração” de Luís Senra está online até 10 de Junho

Luís Senra tinha um concerto agendado para o dia em que soube que ia ficar sem saxofone: o instrumento que utilizava era emprestado pela Academia de Música de Rabo de Peixe, que precisou de o ter de volta. O jovem açoriano viu-se obrigado a pedir para ficar com ele mais uma noite, para cumprir o compromisso, e percebeu que não podia continuar com um saxofone emprestado. Estava na hora de ter um próprio.

“O saxofone é como uma extensão do meu corpo (…) é o intermediário, o microfone do meu coração”, escreve Luís, de 24 anos, no texto de apresentação da campanha de “crowdfunding” que lançou na plataforma portuguesa PPL. Com “Um saxofone para o Luís”, o músico da ilha de São Miguel pretende angariar 3.000 euros — o valor necessário para comprar um instrumento, do modelo “Tenor Cannonball (GT5-SB)”.

Luís já trabalhou num centro comercial e numa frutaria, teve de abandonar o Conservatório de Música de Ponta Delgada por falta de disponibilidade para frequentar aulas e estudar tudo o que lhe competia. “Sempre lutei para chegar onde estou e sempre vou continuar. Mas a compra do meu companheiro supera a minha luta e possibilidades”, sintetiza. Já se reinscreveu no Conservatório, para retomar o curso no 7.º grau, onde parou, e quer tocar mais, improvisar mais.

É precisamente a improvisação o que mais o fascina no jazz. “Criar música no momento, conforme aquilo que estamos a sentir, é a coisa mais fantástica que podemos fazer”, explica ao P3. “Tanto o saxofone como o jazz são muito versáteis, é um casamento perfeito.” É por esta razão, diz, que admira o músico Chris Potter, com uma “abordagem sua e mais moderna”. “Gosto muito de jazz mas o tradicionalismo aborrece-me um pouco.”

“Fazer música fora das ilhas e do país” é um dos objectivos de vida que Luís partilha com o P3. “Convém ter um instrumento meu, não posso andar por aí com algo que não me pertence”, sublinha. “Se tiver que me ausentar durante muito tempo não posso levar o saxofone dos outros. E se acontece algum azar durante as viagens?”

Um “companheiro de vida”

Apesar de ter entrado para a Academia de Música de Rabo de Peixe aos 11 anos — história que o PÚBLICO contou em 2012, quando a Orquestra Oi Jazz, dessa escola de música, se estreou no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada —, Luís só se iniciou no saxofone aos 17 anos. O clarinete e a flauta transversal foram os primeiros instrumentos que aprendeu. A transição para aquele que vê como o seu “companheiro de vida” aconteceu mais tarde, num processo em paralelo com a descoberta do jazz.

Do currículo de Luís fazem parte “workshops” com músicos nacionais e estrangeiros, participações em “jam sessions” e nos festivais Jazzores’11 e Tremor, já em 2015, onde deu nas vistas. Depois de tocar na Oi Jazz e na Orquestra Regional Lira Açoriana, entre outras colaborações, formou o projecto ON, com os músicos Jorge Valério e Daniel Tavares. O foco dos ON [vê vídeo à esquerda] é “a liberdade criativa como meio de exploração musical e conexão directa com o público”. Em jeito de residência artística — e como recompensa pela participação na campanha de “crowdfunding” —, Luís dinamiza os encontros “Quartas com jazz”, no espaço Travessa dos Artistas, em Ponta Delgada.

A ideia é acumular experiência de palco para apresentar um concerto inédito na 5.ª edição do Walk & Talk — Festival de Arte Pública, que acontece entre 17 de Julho e 1 de Agosto próximos. Tudo vai depender do resultado da campanha, online até 10 de Junho. A três semanas do fim, perto de 50% do valor pedido já foi alcançado: os apoios começam nos cinco euros e as recompensas passam por inclusão dos nomes dos contribuidores em todas as plataformas, DVD do concerto no Walk & Talk e até um “showcase” numa ocasião especial.

“Agora que comecei a tocar com os meus projectos e a entrar no mercado musical, percebi que as pessoas apreciam o meu trabalho”, confessa o jovem. “Quero continuar a fazer o meu trabalho, a mostrar este estilo às pessoas. E quero, sobretudo, que aconteçam coisas diferentes nesta ilha, que bem precisa.”