Hot Chip: Adoráveis robôs obsoletos

Continua a haver algo que não bate certo nos Hot Chip, cada vez mais confortáveis na sua pele de adultos. “A obsolescência significa que és livre de fazer o que quiseres."

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STEVE GULLICK

Forever in my life, canção do clássico Sign o' the Times de Prince, faz-se apenas com uma bateria mínima, um tremor de graves e vozes – a de Prince e as de outros. Perfeito. Mas o perfeito tem um erro de produção: as vozes de apoio surgem antes da de Prince. Não era suposto. Prince ouviu o erro e gostou. Talvez por causa desse engano Forever in my life seja mais perfeita.

A canção aparece numa lista de influências por trás do novo Why Make Sense?, feita para a revista francesa Les Inrockuptibles. Ao sexto álbum, os londrinos Hot Chip ainda procuram os momentos “em que se está a tentar fazer alguma coisa e se falha”, diz Owen Clarke, multi-instrumentista, ao telefone com o Ípsilon.

Confessámos a Owen o nosso cepticismo. Quinze anos nas pernas enquanto Hot Chip e vários projectos paralelos deram-lhes, certamente, a capacidade de transpor para som o que lhes vai na cabeça. Como é que ainda há espaço para o milagroso erro? “Isso ainda está na banda”, garante. “Não queremos perder essa excitação, essa ingenuidade que vem com a luta e com o falhanço em alcançar o que tinhas em mente.” Até porque haver “algo de errado” é o que “faz os discos mais interessantes”, diz. E, dizemos nós, é o que distingue os Hot Chip de tantas outras bandas no concorrido campeonato da música dita indie que faz dançar. Não é fácil encaixá-los, mesmo que façam música com signos antigos – o que muda tudo é a forma como o fazem. O “errado” – enxertar uma melodia demasiado parecida com La isla bonita de Madonna na maravilha pop I feel better, por exemplo – dá grandes canções.

Estiveram na DFA nos anos dourados da editora de James Murphy, mantêm relações com gente como os aventureiros Gang Gang Dance, foram nomeados para os Grammy e para o Mercury Prize. Desde 2000 que têm um lugar próprio na pop, conjugando a perfeição melódica de malta viciada em soul e R&B antigos e o domínio das mecânicas emocionais da electrónica, aprendidas com discos house de que só os geeks da pista se lembram. “Nunca fomos conscientemente leftfield, nunca dissemos que éramos contra a pop.”

Não querem ser “uma banda de um só género”. Por isso, “talvez ninguém saia totalmente satisfeito” de um concerto de Hot Chip, afirma Owen. Quem vai à procura de “uma experiência indie dance” pode desiludir-se com “as canções mais lentas”; quem quer pop pode, de repente, ser “martelado” por música de dança.

O elogio do frango frito
Why Make Sense? não muda esta característica go-between. Temos a banda amiga da pista de dança: Need you now, com sample de uma canção das Sinnamon, tem propulsão house (mas house com o coração melancólico de Alexis Taylor); Huarache lights recupera as First Choice noutra pilhagem certeira dos catálogos R&B/soul/funk e tem vocoder a adoçar o andamento maquinal. E temos os Hot Chip que apreciam desacelerar: uma banda que sabe homenagear Stevie Wonder (Started right e o seu clavinet esguio); fazer funk branca, lenta e sintética (Cry for you, Easy to get); e verter lustro e sentimento para cordas como numa velha canção disco (Love is the future).

É o retrato de uma banda confortável com o facto de não se reinventar a cada disco (“Não perseguimos a nossa própria cauda porque temos demasiadas caudas”) e de cantar sobre coisas de adultos como adultos que são – família, filhos, monogamia, vinho branco e frango frito (“You gave me white wine and fried chicken/ A new place to stay/ Where my heart has permission/ To sing all the day”, confessa Alexis em White wine and fried chicken, uma espécie de Let’s get it on com menos sexo e mais rotina boa de casal).

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Cantam também sobre a possibilidade de se ficar obsoleto num mundo rápido. O mantra robótico “Replace us with the things that do the job better”, de Huarache lights, fala nas entrelinhas dos mil artistas ao virar da esquina prontos a fazerem dos Hot Chip artefacto do passado. “É como ficção científica ou os New Avengers. A ideia de que vais ser substituído é inevitável”, admite Owen. Mas há vantagens: “Assim que percebes isso podes relaxar, porque dá-te liberdade para seres o que queres mesmo ser em vez de estares sempre preocupado com a novidade. A obsolescência significa que és livre de fazer o que quiseres.”

Instalados nos trintas, sabem que a “energia fantástica” que existe na juventude é fundamental para abrir possibilidades na música (os adolescentes e pós-adolescentes cometem “erros fantásticos”), mas dizem que com a idade também se perde o “medo de fazer a coisa errada ou de causar uma má primeira impressão”. “Percebes que podes sempre causar outra impressão – fazer outro disco”, resume.

Aprenderam a divertir-se a “não fazer sentido” (eis a explicação para o título do álbum). “Significa que podes mudar a qualquer altura. Quando és jovem e fazes uma banda, tens de encontrar pessoas que gostam do que tu gostas. Não temos de ser assim porque sempre tivemos gostos musicais diferentes.”

A canção de Prince não serviu apenas para lhes lembrar a importância do erro. Forever in my life impressiona também pela sua austeridade. No novo álbum, os Hot Chip procuram não encher demasiado as canções. Fizeram-no juntando toda a gente num estúdio-casa numa zona rural de Oxfordshire. Foi a primeira vez que estiveram juntos a dormir e a gravar num estúdio.

Alexis Taylor e Joe Goddard ainda formam o eixo central da banda, mas há mais jogadores. “É uma espécie de meta contraditória: tentas ter mais vozes, mais contributos, mas também tirar coisas. Funciona melhor assim. Aparecem mais ideias, mas como surgem todas ao mesmo tempo ficas mais consciente de uma coisa que ocupa o espaço errado”, teoriza. E parte para uma comparação muito inglesa: “É como uma equipa de futebol. Se todos perseguem a bola, está toda a gente à volta dela e não há espaço para movimento.”

Why Make Sense? tem esse espaço, essa atenção aos detalhes. Gravar em conjunto “alarga o som, permite saber quem está a fazer o quê": "Há um papel para cada um: podes não estar a fazer muito, mas o que estás a fazer ser muito importante. Por vezes, uma pandeireta pode ser o mais importante numa canção pop, pode ser a coisa que a torna tão especial.”