Um museu suíço fez 1700 km para chegar a Espanha e se dividir em dois

São três as exposições mas apenas dois os museus madrilenos que mostram até meados de Setembro o que de melhor há nas colecções do Kunstmuseum de Basileia. Um mergulho na modernidade que é também como mergulhar num grande compêndio de História de Arte.

É com a pintura <i>Les Deux Frères</i> que abre a exposição dos dez Picassos de Basileia no Museu do Prado
É com a pintura Les Deux Frères que abre a exposição dos dez Picassos de Basileia no Museu do Prado Gerard Julien/AFP
A colecção do Museu de Arte de Basileia está dividida em dois no Museu Rainha Sofia
A colecção do Museu de Arte de Basileia está dividida em dois no Museu Rainha Sofia Cortesia: Museu Centro de Arte Rainha Sofia
<i>Pains et Compotier aux Fruits sur une Table</i> (1908-09), de Picasso
Pains et Compotier aux Fruits sur une Table (1908-09), de Picasso Cortesia: Kunstmuseum e Museu Nacional do Prado
<i>Arlequin Assis</i> foi comprado pela cidade de Basileia na sequência de uma das primeiras operações de <i>crowdfunding</i> do mundo da arte
Arlequin Assis foi comprado pela cidade de Basileia na sequência de uma das primeiras operações de crowdfunding do mundo da arte Cortesia: Kunstmuseum e Museu Nacional do Prado
Visitantes no Prado frente a <i>Homme, Femme et Enfant</i> (1906)
Visitantes no Prado frente a Homme, Femme et Enfant (1906) Cortesia: Museu Nacional do Prado
<i>Femme au Chapeau Assise dans un Fauteuil</i> (1941-42) é um dos dez Picassos que o Prado recebe
Femme au Chapeau Assise dans un Fauteuil (1941-42) é um dos dez Picassos que o Prado recebe Gerard Julien/AFP
A colecção do museu de Basileia está dividida em dois no Museu Rainha Sofia
A colecção do museu de Basileia está dividida em dois no Museu Rainha Sofia Cortesia: Museu Centro de Arte Rainha
A colecção do museu de Basileia está dividida em dois no Museu Rainha Sofia
A colecção do museu de Basileia está dividida em dois no Museu Rainha Sofia Cortesia: Museu Centro de Arte Rainha
<i>Buveuse d'Absinthe</i> (1901), de Picasso, é uma das obras mais importantes da colecção do empresário Karl Im Obersteg
Buveuse d'Absinthe (1901), de Picasso, é uma das obras mais importantes da colecção do empresário Karl Im Obersteg Cortesia: Kunstmuseum
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Os jornais apresentam-na como uma das melhores colecções do século XX e a sua chegada a Madrid, em cinco camiões climatizados que viajaram durante dez dias da Suíça para Espanha sob escolta policial, foi feita por fases e rodeada de um grande aparato de segurança. Também não é para menos, nos camiões viajavam pinturas, desenhos, esculturas, colagens, fotografias e vídeos de Picasso, Cézanne, Manet, Gauguin, Van Gogh, Giacometti, Monet, Richter, Judd, Rothko, Warhol e Hodler. Uma galáxia de estrelas da arte que fez 1700 quilómetros por estrada e deixou temporariamente a sua casa, o Kunstmuseum de Basileia, em obras de renovação, para se instalar no Museu Centro de Arte Rainha Sofia e no Museu Nacional do Prado (até 14 de Setembro).

O Rainha Sofia recebe 170 obras, divididas em dois núcleos distintos: o primeiro reúne a maior fatia (106), chama-se Fuego Blanco e mostra uma selecção da colecção de arte moderna do museu suíço que testemunha a sua evolução nos últimos 150 anos; o segundo – Coleccionismo y modernidad – parte de duas colecções particulares ligadas ao museu, a de Karl Im Obersteg e a de Rudolf Staechelin, para traçar um percurso pela pintura figurativa desde finais do século XIX até 1940, e assim falar, também, da burguesia suíça e de como a sua relação com a arte e os artistas influenciou os contextos de produção nas primeiras décadas do século XX. No Prado, as atenções concentram-se num número bem mais reduzido de pinturas – dez Picassos, obras singulares que atravessam diversas fases da produção do mestre de Málaga, desde 1906, o chamado período ibérico que antecede o cubismo, explica a pinacoteca madrilena, à fase mais tardia, já no final dos anos 1960.

Tanto no Prado como no Rainha Sofia, as galerias que expõem o acervo do museu de arte (kunstmuseum) suíço estão cheias de gente. E o público não difere muito – escolas e turistas, sobretudo, muitos em visitas organizadas com guia à medida.

Olha-se para a lista dos artistas representados nas três exposições e é fácil perceber que há uma série de nomes que se repetem, que contaminam os diversos espaços, mas há apenas uma constante – Picasso, o artista que foi nomeado director do Prado precisamente no mesmo ano em que o museu de Basileia foi inaugurado, 1936.

Tempos felizes

Há registos de que Picasso se interessou pelo Prado e pelos mestres da pinacoteca madrilena logo na adolescência, aos 16 anos, conta o historiador e crítico de arte Francisco Calvo Serraller no catálogo da exposição, num texto em que explica por que razão a obra do artista espanhol se compreende melhor quando relacionada com obras e objectos que dela distam centenas de anos: “Na realidade, a relação paradigmática de Picasso com a arte do passado revalida-se cada vez que se confronta com qualquer imagem ou objecto fabricado pelo homem desde a noite dos tempos porque a sua grandeza criadora, a sua capacidade de invenção ou inovação, nele e em qualquer mortal, está subjugada à amplitude da paisagem histórica que aborda: tanto maior será esta quanto maior for o artista e, claro, vice-versa.”

Talvez porque Picasso sempre prestou a devida reverência a Velázquez, a El Greco ou a Goya, e porque sempre falou da importância do passado mesmo quando se dedicada aos mais arrojados gestos artísticos, não é de todo estranho vê-lo exposto na galeria central do Edifício Villanueva, no Prado, mesmo que para lá chegar seja preciso passar por uma sala que testemunha a relação do pintor italiano Ticiano com a monarquia espanhola e pelo retrato de Isabel de Portugal, mulher de Carlos V, feito depois da sua morte e de acordo com a imagem que o imperador dela guardava.

Les Deux Frères

(1906) é a primeira das dez pinturas expostas e testemunha, com

Arlequin Assis

(1923), a relação muito especial que a cidade de Basileia sempre manteve com a obra do artista espanhol, para muitos o mais influente do século XX. “São muito poucos os artistas que conseguem manter um diálogo com os seus mestres”, disse na apresentação das exposições o director do Prado, Miguel Zugaza, lembrando que na grande galeria onde agora estão, ocupando todo o eixo central, tem por vizinhos Tintorettos, Rubens e Veroneses, tendo a poucos metros os Velázquezs e os Goyas que sempre assombraram a sua imaginação.

A pintura representando um rapaz que leva às cavalitas o irmãos mais novo, executada durante as dez semanas de 1906 que Picasso passou em Gósol, um povoado nos Pirinéus, pertence ao chamado Período Rosa do artista e é uma obra luminosa, de grande serenidade. Talvez, dizem os historiadores, porque foram “tempos especialmente felizes” para o autor de Guernica. Da mesma altura é Homme, Femme et Enfant, a tela seguinte. Uma e outra ligadas a um episódio fundador, tal como o Arlequin Assis.

Crowdfunding nos anos 60

Para perceber como se relacionam alguns dos Picassos que o Prado tem agora expostos com Basileia é preciso ir até ao Rainha Sofia e às duas exposições que ali mostram parte do acervo do museu suíço, que deverá reabrir em Abril do próximo ano. É lá que ficamos a conhecer dois coleccionadores cujos descendentes mantêm ainda obras em depósito no Kunstmuseum: Karl Im Obersteg e Rudolf Staechelin.

Im Obersteg e Staechelin eram empresários e amigos, mas tinham maneiras muito diferentes de coleccionar. O primeiro concentrou as suas compras em peças contemporâneas a partir de 1916, o segundo, com um espírito mais pragmático que o levava a olhar para as suas aquisições também como um investimento a médio/longo prazo, começou por se interessar por arte francesa do final do século XIX, diversificando mais tarde, mas apostando sempre em nomes já consagrados ou com algum reconhecimento público. As colecções que reuniram servem hoje, no entanto, um mesmo objectivo: mostrar como evoluiu a pintura figurativa moderna até 1940. E, tendo ambas fundos importantes de artistas suíços, reúnem também nomes como Pablo Picasso, Vincent van Gogh e Marc Chagall. Chegam, aliás, a incluir a mesma obra, lembra o Rainha Sofia na pequena brochura que acompanha a exposição – Arlequin Assis, do mestre malaguenho, agora em exposição no Prado, começou por pertencer a Im Obersteg, que depois a vendeu a Staechelin. A pintura está hoje nas mãos da cidade de Basileia e do seu museu, que a adquiriu à família do coleccionador em 1967, numa das primeiras acções de crowdfunding na Suíça.

Sabendo que os Staechelin se preparavam para vender Arlequin Assis e Les Deux Frères, os cidadãos de Basileia organizaram uma angariação de fundos sem precedentes para garantir que as obras não deixavam o seu museu. E conseguiram mais do que comprá-las por 8,5 milhões de francos suíços (7,9 milhões de euros). O próprio pintor, sabendo da mobilização popular, decidiu recompensar a cidade oferecendo-lhe quatro novos trabalhos: um estudo para a pintura-paradigma Les Demoiselles d'Avignon, definida como a obra fundadora do cubismo, e três pinturas agora expostas no Prado - Homme, Femme et Enfant, Vénus et L'Amour (1967) e Le Couple (1967).

Modelo de coleccionismo

O Kunstmuseum tem sido apontado como um modelo de coleccionismo, desde que o seu acervo começou a ser reunido, em 1662, até que se transformou num museu público. E precisamente pela relação harmoniosa que mantém entre o que pertence aos privados e o que é de todos.

Lembra Javier Díaz-Guardiola nas páginas do diário ABC, que este museu foi também dos primeiros a apostar nos artistas das vanguardas e na “arte degenerada” (expressão cunhada pelos nazis para classificar tudo o que fugia ao cânone estabelecido pelo III Reich), e a valorizar em território europeu as propostas que nasciam nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra.

É por isso, explica o Rainha Sofia na brochura, que a colecção do museu suíço que Fuego Blanco mostra de forma cronológica, e partindo de artistas locais como Ferdinand Hodler, Le Corbusier e Paul Klee, se concentra precisamente em dois períodos específicos do século XX e em dois centros de gravidade separados pelo Atlântico: num primeiro núcleo estão reunidas obras dos movimentos de vanguarda europeus das primeiras décadas; no outro a proposta passa pela arte que se fez nos Estados Unidos na segunda metade do século, pondo a tónica no desenvolvimento da abstracção.

Como Coleccionismo y modernidad, Fuego Blanco, que vai buscar o seu nome a uma obra lendária de Barnett Newman, contribui para o reconhecimento da importância do fenómeno do coleccionismo para o nascimento da arte moderna e o papel central que nele tem a burguesia ao longo de todo o século XX, ocupando um lugar que, historicamente, pertencia aos aristocratas, salientam os comissários Bernhard Mendes Bürgi, Nina Zimmer e Manuel Borja-Villel.

Pablo Picasso, Paul Cézanne, Édouard Manet, Pierre-Auguste Renoir, Fernand Léger, Vincent van Gogh, Claude Monet, Donald Judd, Mark Rothko ou Ferdinand Hodler invadem o Rainha Sofia numa embaixada que João Fernandes, o curador português que é subdirector do museu, define como “um autêntico sonho”. “É a colecção que gostaríamos de ter de forma permanente num museu de arte contemporânea como o nosso”, disse, citado pelo diário espanhol El País, que garante que a estadia destas quase 200 obras de Basileia nos dois museus de Madrid não traz custos de “aluguer” nem exige empréstimos espanhóis como contrapartida.

A partir de Julho, o Rainha Sofia mostrará também uma outra obra que até há bem pouco tempo integrava o acervo do Museu de Arte de Basileia: Nafea Faa Ipoipo (1892), qualquer coisa como “Quando irás casar?” (101X77cm), uma pintura de Paul Gauguin que fazia parte da colecção Staechelin e que foi recentemente vendida ao Qatar por 270 milhões de euros, soma que faz dela a mais cara de sempre. Mostra duas mulheres da Polinésia francesa, uma em trajes tradicionais, com uma flor no cabelo, e outra com um vestido convencional e um olhar que desafia, numa espécie de espelho do limbo em que vivia o pintor francês, sempre entre dois mundos.