Uma casa com arquitectura, memórias e angústia

Manoel de Oliveira filmou Visita ou Memórias e Confissões na casa que para si foi projectada pelo arquitecto José Porto, e que viria a perder no início dos anos 1980.

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A casa da Rua da Vilarinha é uma referência da arquitectura moderna no Porto DR

Visita ou Memórias e Confissões foi um filme feito com muita angústia”. A afirmação é de Manuel Casimiro, pintor e o filho mais velho de Manoel de Oliveira (1908-2015), que guarda na memória o desgosto e a tristeza do pai nesse início da década de 1980, quando se viu na contingência de separar-se da casa que tinha sonhado e construído, e onde tinha vivido quatro décadas com a sua família.

A história é conhecida, já que o próprio Manoel de Oliveira a ela se referiu várias vezes em entrevistas e recordações biográficas. O realizador geria a fábrica de passamanarias herdada do pai e, a certa altura, para salvaguardar a empresa, viu-se na necessidade de hipotecar a casa para um empréstimo bancário. “Veio a revolução de 25 de Abril [de 1974] e, um ano depois, uma parte do pessoal induziu o todo do operariado, cerca de 50 pessoas, a ocupar a fábrica, de onde se não retirava ainda o mais pequeno lucro, pois não se tinha sequer terminado a remodelação”, escreveu Manoel de Oliveira na autobiografia, ainda inédita, que escreveu respondendo a um desafio do jornalista José Carlos Vasconcelos, director do JL (que transcreve excertos desse texto no último número de Abril).

“Eles fizeram barbaridades”, continua Oliveira, referindo-se à venda da matéria-prima e das máquinas, acabando a fábrica por ter mesmo de fechar. E, no início da década de 1980, o realizador de Vou para Casa viu-se na contingência de vender a sua moradia para pagar ao banco.

“O meu pai não quis recorrer aos tribunais, e fez questão de pagar tudo. Mas ficou muito triste, porque se sentiu traído”, diz Manuel Casimiro.

Vendida a casa da Rua da Vilarinha, que tinha sido projectada em 1939 pelo arquitecto modernista José Porto (1883-1965), Oliveira mudou-se, com a família, para um apartamento na Foz. Mas quis deixar registadas em filme a sua relação com essa moradia e algumas notas pessoais e biográficas. “Visita nasce de uma circunstância do acaso. Percebi que devia conservar essa recordação e passá-la ao cinema… Há também outras razões muito mais profundas. Mas do subconsciente não se pode falar!”, disse o realizador (citado na monografia que lhe foi dedicada pela Mostra de Cinema de São Paulo, em 2005). Para o filme, pediu um texto à sua amiga Agustina Bessa-Luís – com quem, pouco tempo antes, tinha iniciado uma profícua e duradoura colaboração artística com Francisca (1981).

Com um subsídio atribuído pelo então ministro da Cultura Francisco Lucas Pires, e trabalhando com equipa reduzida, Oliveira preparou e rodou Visita ou Memórias e Confissões no Inverno de 1981-82, mas com o declarado propósito de que o filme só seria estreado após a sua morte. “Creio que o meu decidiu não exibir o filme antes mais por pudor”, acredita Manuel Casimiro.

Dessa equipa fizeram parte a anotadora Júlia Buisel e o actor Diogo Dória (que, com Teresa Madruga, gravou a voz off), que tinham também começado a trabalhar com o realizador em Francisca, e que viriam depois a acompanhá-lo até ao fim.

Diogo Dória tem uma memória muito vaga dessa experiência, que viveu apenas no estúdio de gravação. “Já passou muito tempo”, diz, acrescentando que o filme, “um desfilar de memórias muito pessoais” do realizador, “não trará nenhuma surpresa a quem conhece a sua obra”.

Já Júlia Buisel integrou o grupo restrito que participou na rodagem. “Foi uma coisa muito escondida, muito confidencial, feito com uma equipa reduzidíssima”, diz a script girl, que guarda na sua memória, também afectiva, a experiência de ter entrevistado a mulher de Oliveira para o filme. “Lembro-me do carinho que a Dona Maria Isabel tinha pelo jardim, da grande alegria dela por poder voltar a podar e regar as suas dálias – era, na verdade, um jardim lindíssimo”, diz Júlia Buisel, que guarda ainda o texto dactilografado do filme – que teve como título inicial Memórias e Confissões (ou Reflexões).

A casa da Rua da Vilarinha, para além do nome de José Porto, tem a assinatura de dois outros vultos do modernismo português: Viana de Lima, que tratou da decoração interior, e Cassiano Branco, que desenhou os espaços exteriores. O novo proprietário acrescentou-lhe intervenções de outros arquitectos, como Gonçalo Ribeiro Telles, nos jardins, Eduardo Souto de Moura, que projectou um court de ténis e piscina, e posteriormente Alexandre Burmester e Maria de Fátima Burmester, que no final da década de 1980 trataram da recuperação da moradia, o que lhes valeu uma menção honrosa do Prémio Municipal João de Almada (1990).

Em Dezembro de 2013, a casa foi classificada como Imóvel de Interesse Público.