Valério Romão: Ler, uma parte da solução

O autor de Autismo e do mais recente Da Família fala sobre as leituras que o formaram, de como o escritor que é influenciou o leitor que foi, e do que une leitores e escritores: as grandes perguntas.

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É no quarto que Valério Romão tem os livros, poucos, porque todos os outros estão num apartamento anterior. Daniel Rocha
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Valério Romão vive numa rua estreita de Lisboa, num apartamento com uma pequena varanda com vista para as janelas dos vizinhos. É, de certa forma, um lugar que condiz com a sua obra, onde os grandes exteriores são mais imaginados do que reais ou são até fisicamente inacessíveis.

Dois gatos siameses andam entre a sala e o quarto, um movendo-se nervoso, o outro docemente.

Quando está em casa, Valério costuma ler entre estas duas divisões, e é no quarto que tem os livros, poucos, porque todos os outros estão num apartamento anterior. Os livros estão dispostos em prateleiras altas contornando a cama. Tem um bocadinho de cada coisa que ama: ficção, filosofia, poesia.

A conversa começou pelas leituras que ainda não fez e que planeia fazer: alguns clássicos, como o Ulisses, de James Joyce; certas obras da Virginia Woolf; filosofia, que em tempos leu muito e que quer retomar (Valério Romão estudou Filosofia e por cima da porta do quarto tem uma placa que diz: “departamento de filosofia”).

Nos últimos três anos publicou dois romances – Autismo e O da Joana –, uma peça de teatro e dois livros de contos. O último, Da Família, publicado, como os romances, pela editora Abysmo, saiu no final do ano passado.

Durante este período em que escreveu e publicou muito, leu pouco, e quando isso acontece diz que fica com a sensação de que esteve numa sala sem saber o que acontecia na sala ao lado. “Acontecer” é o verbo certo porque acha que um livro é uma entidade viva. E é por isso que um livro escrito séculos antes ainda nos fala. Pensa na leitura desse modo, como uma conversa. (“Quando gosto de um autor, não o leio muito de seguida, nem o quero ler logo todo, prefiro ir voltando a ele”, diz. “Se estiver muito tempo a falar com o mesmo autor acho que se torna chato – para mim e para ele.”)

Tem os livros bem arrumados e fazem o quarto bonito, mas não há nada de organizado ou decorativo na maneira como lê. Como leitor é, diz, “um franco-atirador”. Dispara em muitas direcções, mas sempre atrás de certas coisas: por exemplo, de autenticidade, de força, de intensidade ou, simplesmente, de vida. Ou, então, do risco que, para ele, não é o mesmo do que o exercício da procura da novidade, que acha que pode ser fútil. “Interessam-me cada vez mais os escritores que tomam grandes riscos, as obras que podiam ter falhado, que não tinham nada para dar certo.” O leitor que ele é, tal como o escritor, procura em cada livro um desafio.

Sobretudo procura sempre, ao ler, possivelmente aquilo que também procura ao escrever: a transmissão de uma experiência humana – que acontece através dos tempos ou apesar da passagem do tempo sobre um texto –, conhecimento, fazer pensar, fazer perguntas. Parece simples mas é cada vez mais difícil de encontrar, nestes tempos em que “temos todas as condições para ser felizes” e, no entanto, pressente, não somos tão felizes quanto parecia prometido. “Talvez tenha a ver com alguma ausência de espiritualidade ou de uma preocupação maior do que a preocupação com o quotidiano: não pensar que a vida é trabalhar 40 e tal anos e depois ter uma reforma e morrer”, diz. A angústia de viver talvez não atrapalhe a felicidade, antes seja parte da solução.

“Perguntas como: “o que estou aqui a fazer?” são perguntas que nos sobrevivem mas acho que hoje em dia não estão a ser respondidas. Parece-me que a arte está mais virada para a distracção dessas perguntas: não penses nisso, eu tenho aqui uma história...”, continua. “Nós não nascemos com a solução da existência resolvida. Cada homem ao nascer tem que redescobrir essas questões e quanto mais vasta a nossa cultura, mais há para redescobrir.”
 
Histórias de infância e listas de juventude
Um grande leitor pode não ser um escritor, mas normalmente um escritor é – ou foi – um grande leitor. Então, a primeira história de infância pode ser vista como uma de predestinação:

Tinha três anos e vivia em França com os pais. Estavam emigrados e Valério Romão nasceu, em 1974, no país que os pais tinham escolhido. O primeiro livro que leu podia ter sido em francês, mas foi em português. O pai dizia que da porta para dentro era Portugal e em casa só se falava português. Os livros não eram muitos, mas eram em português. Chegavam de vez em quando, depois de curtas viagens a Portugal.

Um dia, a irmã mais velha trouxe uma banda-desenhada do Tio Patinhas, e, depois, apanhou-o a ler. Viu-o a folhear o livro de quadradinhos e a contar alto a história. A irmã primeiro achou graça, pensando que ele estava a inventar o enredo. Depois, ficou espantada por perceber que ele de facto estava a ler. Ele lembra-se de perceber que dentro daqueles balões, as palavras correspondiam aos desenhos e contavam uma história. As letras encaixaram como se estivesse a fazer um puzzle e como se tivesse encontrado a solução. Seria uma solução duradoura, para um miúdo introvertido, que fazia poucos amigos e que não se sentia inteiramente desejado no país onde vivia. A mãe preferia vê-lo a ler do que a andar de bicicleta por Clermont-Ferrand, sozinho, a reconhecer a cidade ou a procurar a vista do vulcão onde, no topo, sempre havia neve.

Outro episódio, de uma criança com a cabeça, literalmente, na lua:

Seis anos talvez. O primeiro livro que pediu ao pai para comprar numa livraria era de astronomia para amadores, em francês.

Mas este livro não é para crianças, Monsieur – disse a livreira.
Mas é o que o meu filho escolheu – respondeu o pai.

Na infância, leu muita ficção científica. Pensava ser astrónomo ou mesmo astronauta, queria fazer qualquer coisa que tivesse a ver com o céu, o universo, o grande infinito. Era já, de outra maneira, o problema da existência a desenhar-se como principal preocupação.

Com a família regressada a casa, no Algarve, Valério Romão continuou a ler compulsivamente. Havia, em Tavira, uma biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian e era aí que ia buscar livros. Nunca trazia um único, mas vários, numa mistura eclética entre banda-desenhada, divulgação científica, literatura. Cresceu, através dos livros, em sítios onde nunca iria e com experiências que não poderia ter. “Eu não seria o mesmo sem essas leituras”, diz.

Dos livros que diz mesmo que o mudaram e que vê como momentos importantes, como outos episódios marcantes, na sua vida, podia fazer uma pequena lista: As Ondas, de Virginia Woolf; A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi; Da Certeza, de Wittgenstein. À lista podia juntar personagens que passaram a fazer parte da sua memória pessoal, como a Alice (de Lewis Carroll), que quase acredita que possa ter existido, ou Raskólnikov (de Crime e Castigo, de Dostoiévski), que conhece atormentado nas ruas de São Petersburgo.

Influências
Como escritor – como todos os escritores – foi influenciado pelas leituras que fez. Com António Lobo Antunes e José Saramago tentou aprender a elegância. Sobretudo com Saramago, leu-o admirando os detalhes do trabalho, coisas pequenas mas fundamentais, que alteravam a cadência da leitura. Tentou aceitar as influências, em vez de tentar fugir delas, para encontrar a sua voz.

Mas o que é talvez mais interessante é a forma como a escrita contaminou o que lê e como lê. “Escrever tornou-me um leitor diferente”, diz. Como um engenheiro que atravessa uma ponte ou um cineasta espectador numa sala de cinema, quando lê não consegue deixar de pensar nos bastidores, em tudo o que está para além do visível resultado final. “Enquanto leio, uma parte de mim está a dizer: olha como o autor fez isto. É como a parte sóbria de nós quando estamos bêbados.”

Tornou-se também, sem dúvida, um leitor mais exigente, mas também um leitor que tenta combater a perda da ingenuidade ou do prazer. “Acho que até tenho mais prazer, porque além de ver o conteúdo, vejo a arquitectura.”

A conversa terminou nos autores que relê, poucos: Chesterton, C. S. Lewis, Wittgenstein. Os gatos voltaram do quarto para a sala, com os seus olhos azuis iguais e as personalidades completamente diferentes, como gémeos imperfeitos. O filho acordou a pedir o iPad. A namorada voltou para casa com um gelado. Continuámos a falar de ler, entre falar de crianças, de televisão, da cidade onde vivemos, de turismo, da vizinhança. A literatura, na biblioteca de Valério Romão, não está nem mais alta nem mais baixa do que os outros objectos e as grandes certezas e dúvidas de ser humano aparecem na rotina, com uma gentileza inusual. É de forma despretensiosa, e até parece comum, no melhor sentido desta palavra que nos une, que pergunta: “Tu sabes qual é o sentido da tua vida?”
 
A série O que lêem os escritores sai no primeiro domingo de cada mês