Crítica

A experiência tridimensional dos Kraftwerk hipnotizou Lisboa

Houve quem dançasse. E bateram-se palmas a compasso. Mas acima de tudo houve hipnose. Mais de 40 anos depois, os Kraftwerk continuam a magnetizar, com electrónica, imagens retrofuturistas e, agora, a novidade da tecnologia 3-D, num espectáculo total de arte pop.

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Miguel Manso
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Não se percebia quem eram os robôs. Se os músicos, quase imóveis, em palco. Se a multidão que encheu o Coliseu, de óculos tridimensionais postos nos olhos e telemóvel na mão para registar todos os momentos, virados na direcção dos quatro músicos e das imagens que nos pareciam atravessar.

Houve quem dançasse. E bateram-se palmas a compasso. Mas acima de tudo houve hipnose. Mais de 40 anos depois, os Kraftwerk continuam a magnetizar, com electrónica, imagens retrofuturistas, som envolvente, luz translúcida, cores primárias, minimalismo e geometria rigorosa, palavras precisas e, agora, a novidade da tecnologia 3-D, que permite outro tipo de experiência, num espectáculo total de arte pop.

É um espectáculo de uma eficiência a toda a prova. Quem os foi vendo ao longo dos anos já percebeu que não mudam muito, até nos alinhamentos, mas continuam sem idade, austeros e misteriosos. Recriam-se tecnologicamente e alguns temas sofrem ligeiras reformulações sonoras, mas na essência não mudaram muito desde que, nos anos 1970, fixaram um som e uma atitude que seduziu sucessivas gerações – e isso mais uma vez viu-se num Coliseu com pais, filhos e netos – e que influenciou quase toda a música actual.

Há uns anos, em entrevista a Holger Czukay, o histórico músico alemão da mesma geração, este dizia-nos que ao contrário do que havia sucedido com o seu grupo, os Can, que foram mudando de registo, os Kraftwerk nunca o haviam feito, porque tinham uma identidade precisa em termos de som e imagem. “O que é bom e mau”, dizia-nos ele: “A sua marca é inquestionável, mas ao mesmo tempo ficaram reféns dela.”

É verdade. Aquilo que o grupo de Ralf Hutter projectou nos anos 1970, ao nível da música, do imaginário e da forma de operar, foi tão significativo que o espaço para alterações se foi estreitando. Hoje o campo para a mudança não está do lado da música, mas da definição cénica, o que no caso do quarteto alemão vai quase dar ao mesmo, porque são indissociáveis.

E a verdade é que ao longo de quase duas horas e meia ninguém tirou os olhos do palco, a não ser para auto-retratos colectivos com os óculos, apesar de ser um concerto em contracorrente às noções de fisicalidade, com músicos quase imóveis à frente dos seus computadores, vestidos de igual com uma indumentária futurista, sem cumplicidade entre eles e com a assistência: apenas um “adeus” no final.

Mas não é aí que se decide uma performance destas. É na intencionalidade precisa, onde participam som, imagens e palavras ditas com a voz robótica de Ralf Hütter. É na simplicidade, mas de grande complexidade tecnológica, como som e a luz são expostos. É no jogo de ilusões onde todos são convidados a participar, agora com tecnologia 3-D, e que tem o seu apogeu quando, no primeiro encore, se abrem as cortinas, e em vez dos músicos somos confrontados com quatro robôs-réplicas-dos-músicos enquanto se ouve The robots.

Antes, como era esperado, já tinham sido privilegiados quase todos os clássicos, como Computer world, The model (a mais festejada), Man machine, Neon lights (a mais poética), Autobahn, Electric café, Radioactivity, Oham sweet ohm, Trans-Europe express ou Tour de france (a mais dançante), numa sincronização perfeita entre música e imagens, muitas delas remetendo para os vídeos originais, despoletando um imaginário dual onde a relação homem e máquina, a tecnologia e a natureza, a excepcionalidade da arte e a vida quotidiana, está sempre em movimento.

Há também ironia. Quando surgem imagens encriptadas, sugerindo problemas no sistema. Ou quando se vê uma nave espacial a aterrar no Rossio de Lisboa. Ou quando se ouve “estamos a recarregar as baterias” prenunciando The robots. Ou quando fecham as cortinas, para o final de um espectáculo com produção Kling Klang (nome do mítico estúdio do grupo), como se estivéssemos numa sessão de cinema.

A maior fragilidade acabam por ser alguns pormenores nas versões reactualizadas, como o dinamismo ritmico da segunda metade de Radioactivity, ou o prolongamento de soluções sonoras supérfluas, como em alguns instantes de Autobahn. Mas esses são efeitos secundários menores de um projecto que continua a possuir uma noção de espectáculo total como poucos. Por isso fez-se festa. Celebrou-se um legado. Viu-se uma multidão de óculos, maravilhada, na direcção do palco.

E exigiu-se que regressassem duas vezes. No final, enquanto se ouvia uma mistura de Boing boom tschak, Techno pop e Musique non stop, foram saindo, um a um, debaixo de aplausos. O fundador Ralf Hütter ficou para o fim, agradecendo a recepção. Nós é que agradecemos. Voltem sempre.