Análise

No coração da tragédia alemã

O paradoxo é que Günter Grass encarnou o combate pela memória dos crimes nazis, mas mentiu durante 60 anos.

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Ficha de prisioneiro de guerra de Günter Grass OLIVER LANG/AFP

Foi um alemão do seu tempo. O passado não cessa de atormentar e a memória nunca chega a ser apaziguada. Não se trata de confundir o homem e a obra mas de sublinhar que ambos são atravessados pela teia de tensões da tragédia do nazismo. Adolescente fascinado pela propaganda hitleriana passa, depois da guerra, a ser perseguido pelo sentimento da vergonha. Günter Grass bate-se para que a Alemanha reconheça o seu passado e rompa com a hipocrisia, a mentira e a má consciência. O seu primeiro romance, O Tambor de Lata, chocou os alemães ao mostrar o entusiasmo popular perante o nazismo. Como intelectual, tornou-se na “consciência crítica” da Alemanha e figura tutelar da esquerda. Em 1970, acompanhou Willy Brandt na dramática cerimónia em que este se ajoelhou perante o memorial da revolta do gueto de Varsóvia.

Depois da reunificação de 1990, que denunciou como uma “anexação” da antiga RDA, Grass passa a designar os alemães não apenas como culpados mas também como vítimas. Em 2006 (na véspera da publicação da sua autobiografia, Descascando a Cebola), provoca um choque ao revelar que combateu numa divisão das Waffen SS — a força de elite nazi. Observou um dos seus biógrafos, o historiador Thomas Serrier: “O paradoxo é que ele encarnou o combate para libertar a palavra sobre o III Reich, encerrando-se ele próprio na mentira durante 60 anos. E esta contradição entre os discurso e os actos obriga a repensar a complexidade da memória do nazismo na Alemanha.” A direita alemã não escondeu a sua alegria ao afirmar que o Nobel da Literatura perdia toda a autoridade moral. O semanário Der Spiegel titulou: “A queda de um moralista.”

Ainda aqui Grass foi um homem do seu tempo. “Toda a história da República Federal Alemã foi feita por homens que apagaram uma parte do seu passado, que trabalharam com um curriculum vitae incompleto ou que assumiram até uma nova identidade. A continuidade das elites não é uma palavra vã. Chegou a haver 100 mil alemães do Oeste a viver sob um falso nome” — escreveu o historiador Jean-Marc Dreyfus.

A justificação
Numa entrevista de 2011 ao historiador israelita Tom Segev, disse Grass a propósito do episódio das SS: “Este debate é muito penoso para mim porque se foca em duas páginas e meia em que contei o meu serviço nas Waffen SS. O que me magoa é que haja pessoas a dizer que me alistei como voluntário. A verdade é que fui mobilizado como milhares de jovens da minha idade. (...) A revelação sobre o meu serviço nas Waffen SS é apenas um detalhe no livro e não é o mais importante.” Um detalhe? Grass faz uma confissão num ponto simbolicamente importante. Mas imediatamente o relativiza.

Justifica-se: “Globalmente, a história central neste livro não é a minha mas diz respeito a toda a Alemanha. Como é que um país ilustrado como a Alemanha pôde ser atraído para o nazismo? É a questão que me obceca desde O Tambor de Lata, o meu primeiro livro.”

Porque não falou antes? “Porque tinha vergonha. Fui um estúpido jovem nazi. Só tive consciência disso depois da guerra e sinto vergonha por isso. Hoje continuo a ter vergonha. (...) Que seja claro. Eu não decidi revelar um segredo. Atingi aquele ponto em que decidi confrontar-me com o facto de ainda muito jovem ter acreditado no nazismo. O meu livro é sobre isso.”

Seis décadas depois do fim da II Guerra Mundial, muitos alemães ficaram furiosos com Grass. Uns por ele ter encoberto o passado. Outros por ele o ter revelado.

Alemanha vítima
Após a reunificação a Alemanha quer ser um “país normal”. Não se trata de apagar o passado. Poucos povos foram forçados a fazer um trabalho de memória como os alemães. Mas, para parafrasear um historiador francês, “é um passado que não passa”. Não passa, mas pode ser “corrigido”. A preocupação do segundo Grass responde a uma expectativa das novas gerações.

Não se trata de negar a culpa mas de fazer entra na História o sofrimento dos alemães e, assim, os redimir. Declara na mesma entrevista: “O mal e o crime não se exprimiram apenas no Holocausto e não cessaram com o fim da guerra. Dos oito milhões de soldados alemães capturados pelos russos, talvez dois milhões tenham sobrevivido e os outros foram liquidados. Houve cerca de 14 milhões de refugiados na Alemanha; metade do país passou da tirania nazi para a tirania comunista. Não digo isto para diminuir o crime contra os judeus, mas o Holocausto não foi o único crime. Carregamos a responsabilidade pelos crimes nazis. Mas esses crimes resultaram em terríveis desastres para os alemães que, por sua vez, também se tornaram vítimas.”

Foi duramente criticado por historiadores como o alemão Peter Jahn: “Relativizar o extermínio de seis milhões de judeus comparando-o com a fantasiosa liquidação de seis milhões de prisioneiros de guerra alemães é algo que, do ponto de vista moral, exige uma explicação.”

Grass é uma testemunha das tragédias alemãs que, ao longo da vida e em diferentes registos, sempre tentou exorcizar.

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