Opinião

Tolentino de Nóbrega: um jornalista de corpo inteiro

Na Madeira, o poder jardinista não vergou toda a gente.

Discretamente, como era seu timbre, Tolentino de Nóbrega, correspondente do PÚBLICO na Madeira, morreu esta semana.

Conheci-o como advogado do PÚBLICO para as questões de liberdade de imprensa e tornei-me seu amigo pelas suas qualidades pessoais e profissionais. Não tenho dúvidas que o jornalismo que praticou ao longo dos anos se pautou sempre pela busca do rigor, mas, também e sobretudo, pela coragem no exercício da liberdade de expressão e de informação. Falar das suas qualidades como jornalista é, inevitavelmente, falar das baixezas do poder político regional madeirense.

Ser correspondente de um jornal do continente, mas, sobretudo, do PÚBLICO na Madeira de Alberto João Jardim não era fácil. O Tolentino foi discriminado, perseguido e ameaçado. De formas sérias e graves, mas também de formas saloias e mesquinhas como, muitas vezes, era característico do cacique regional e seguidores.

Não valerá a pena lembrar todas as perfídias do "tiranete" das ilhas e da sua corte, mas vale a pena recordar que o Tolentino sempre as enfrentou com grande calma e bom senso. No continente, ninguém imaginaria a perversidade de um governante manter um jornal diário com dinheiros públicos para aí se entreter a escrever e publicar editoriais a atacar os seus adversários e, de forma nunca assumida mas aceite pela vox populi, escrever textos para uns cartoons desprovidos de qualquer sentido de humor com o único fito de, a coberto do anonimato, atacar todos os que se lhe opunham.

A falta de nível de alguns textos publicados no seu Jornal da Madeira chega a chocar pelo seu primarismo. Relativamente a Tolentino – referido sempre nos cartoons como tôlo entino – o líder regional madeirense fazia gala em o identificar como um agente do "colonialismo" continental, a soldo do "pasquim do capitalista Belmiro", como Jardim designava o jornal PÚBLICO, ou mesmo de o apontar publicamente como um "traidor" à Madeira e aos madeirenses. E não se pense que este primarismo não resultava: muitos madeirenses, apesar de discordarem do então líder do PSD e das suas práticas autocráticas, não deixavam de lamentar que Tolentino contasse num jornal do continente as "misérias" do poder político da Madeira. Era-lhe, no fundo, censurado o seu profissionalismo e rigor.

Para Jardim e seus seguidores, o único jornalismo aceitável era o que festejava acriticamente as inaugurações e não falava dos custos das obras e da forma como as mesmas eram pagas, ou melhor, não eram pagas. A escandalosa dívida oculta da Madeira – sobre a qual Tolentino não se cansou de escrever nas páginas deste jornal – era um tabu: comentada em voz baixa no arquipélago, mas banida do espaço público.

Neste momento da partida do Tolentino de Nóbrega, vale a pena publicar, a título de exemplo, um dos habituais cartoons publicados no Jornal da Madeira, cujos textos são atribuídos ao ex-líder regional:

Saliente-se que a expressão “O João faz anos no dia...” era a senha dos separatistas madeirenses durante os anos do PREC para anunciar a data de mais um atentado bombista e o Rectângulo é o continente. Ninguém na Madeira ignora o sentido destas expressões, sendo certo que o automóvel de Tolentino da Nóbrega foi vítima de um atentado bombista nessa época, pelo que este cartoon, publicado em 2012, mais não era do que uma reles ameaça visando intimidar e calar o jornalista do PÚBLICO.

O último processo criminal em que Tolentino de Nóbrega foi arguido por noticiar aspectos relevantes do regime jardinista na Madeira resultou de uma queixa que foi apresentada por Jaime Ramos, ao tempo líder parlamentar do PSD-Madeira e secretário-geral desse partido, e terminou no passado dia 28 de Janeiro. A notícia tratava do projeto de aterro da baía do Funchal e a juíza de instrução Criminal do Funchal decidiu-se pelo arquivamento do processo, prevalecendo, assim, a liberdade de expressão. Tolentino de Nóbrega soube ser, sem sombra para dúvidas, um intransigente e suave defensor da liberdade de expressão numa época e região do nosso país onde era muito difícil sê-lo.

Vive agora a Madeira um novo ciclo político com o afastamento do Alberto João Jardim do poder, ciclo a que Tolentino já não pode assistir fisicamente, mas espera-se que o seu exemplo e legado estejam sempre presentes.