E Juliano Salgado descobre Sebastião Salgado

Em O Sal da Terra, Sebastião Salgado convoca as suas memórias de mais de 40 anos de carreira. Pela mão de Wim Wenders e de Juliano Ribeiro Salgado vemos como um homem se relaciona com as imagens fotográficas e como elas ficam agarradas à sua pele. E assim um filho descobre um novo olhar sobre o pai.

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O Sal da Terra ajuda a perceber melhor o quanto as circunstâncias da vida e o papel da família influenciaram a construção da obra daquele que é um dos mais universais fotógrafos vivos

O pingue-pongue durou um ano sem que a bola sossegasse de um lado ou de outro. Os jogadores foram Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, realizadores do filme O Sal da Terra, sobre a vida e obra do fotógrafo Sebastião Salgado. No início, a ideia era concentrar a narrativa nas experiências de vida deste andarilho e naquilo que ele tinha para dizer sobre o mundo, mas não havia meio de encontrar um rumo, o tom adequado. Wim editava dois meses e passava a bola a Juliano. Juliano, filho de Sebastião, acrescentava o seu material e devolvia a bola Wim.

Andaram nisto algum tempo. Até perceberem que o relato de viagens era insuficiente para concretizar o filme que tinham planeado. A dada altura, os dois realizadores chegaram à conclusão que era preciso dar mais corpo à personagem, trazer intimidade e juntar aquilo que dificilmente pode ser separado em Sebastião Salgado: o trabalho e a vida familiar. Conhecemos o primeiro. Desconhecíamos boa parte da segunda. E essa mistura é uma das forças de O Sal da Terra (que se estreou em sala esta semana em Portugal), porque ajuda a perceber melhor o quanto as circunstâncias da vida e o papel da família influenciaram a construção da obra daquele que é um dos mais universais fotógrafos vivos.

Aliada a esta abordagem biográfica, que vai sendo dada a espaços, o filme procura dar a conhecer o contexto e as razões que levaram o fotógrafo a escolher os grandes temas do seu trabalho, bem como a forma serena e demorada como se move no terreno, uma certa maneira de estar na fotografia que encontra já poucos cultores. Desengane-se por isso quem vem à procura de grandes (ou pequenas) revelações sobre modos de fazer. O máximo que pode encontrar são relatos sobre modos de estar entre o que se vai fotografando, a procura de uma ética do ofício que se estendendo ora pela voz do pai, ora pela voz do filho, ora pela voz de quem, como Wim Wenders, tentou um olhar mais distanciado, um olhar exterior à história da família.

É a Wenders que cabe o arranque do filme e é através do seu encontro com a fotografia de Sebastião Salgado, há 20 anos, que o novelo começa a ser desenrolado. O realizador alemão lembra o momento em que viu pela primeira vez uma fotografia de Salgado e como ficou deslumbrado perante essa imagem. Era uma das fotografias da célebre série sobre a extracção de ouro na mina da Serra Pelada, no Brasil, onde um homem descansa de braços cruzados, de pé, encostado a um troco, enquanto à sua volta fervilha uma multidão de garimpeiros por entre socalcos de lama. “Quem tirou esta fotografia tem de ser ao mesmo tempo um fotógrafo formidável e um aventureiro”, pensou na altura Wenders. Desconhecia o autor. Quando virou a impressão que tinha nas mãos viu escrito Sebastião Salgado, um nome que, conta, jamais esqueceria.

Logo aí, nesse longo início de O Sal da Terra, que se estreia à boleia da exposição Génesis, que pode ser vista a partir de hoje no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, em Lisboa, revela-se um mecanismo cinemático que foi buscar inspiração à pré-história da fotografia, a câmara escura. Mais do que um confessionário bem iluminado, este grande plano da cara de Salgado por entre cortinas pretas a falar na direcção de quem o vê (e grava) impõe-se como um dos maiores trunfos do filme. Salgado fala enquanto vê as suas imagens mas não vê a câmara que o filma. O resultado é uma mistura do rosto do criador com as suas criações.

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PAPUA Nova Guiné, 2008. Fotografia Lélia Deluiz Wanick
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O filme procura dar a conhecer o contexto e as razões que levaram o fotógrafo a escolher os grandes temas do seu trabalho, bem como a forma serena e demorada como se move no terreno Geórgia do Sul, 2009. Fotografia Igor Bely

Em conversa por telefone com o ípsilon, Juliano Ribeiro Salgado elogia a ideia de Wenders e diz que a maneira que o cineasta alemão encontrou de filmar o seu pai é muito “poderosa”. E fez com que o fotógrafo “se projectasse completamente nesses momentos e que se misturasse nas suas imagens”. “Não é um modo de entrevista, é um modo de confronto com a memória, um jeito de convocar esses momentos de uma forma muito poderosa, muito vívida.”

Muito para além do virtuosismo da estética e da técnica do simulacro da câmara escura, Juliano (que este ano viu o seu filme nomeado para os óscares na categoria de Melhor Documentário) sublinha estes interlúdios pelo que de novo neles se revela, conquista que, na sua opinião, se deve sobretudo à presença de Wim Wenders atrás das câmaras. Para alguém que, como filho, pensava que conhecia estas histórias de trás para a frente, a sensação de descobrir coisas novas foi “muito estranha”. “Vi o Sebastião Salgado pelo olhar de outra pessoa e, de repente, pude constatar que, afinal, não sabia tudo, vi o quanto ele aprendeu, vi a enorme quantidade de experiências absolutamente terríveis por que passou e o quanto foi duro o seu caminho. Ao assistir a tudo isso fiquei tocado. Foi a primeira vez que vi o meu pai desse jeito. E creio que ele também se encontrou de novo”.

Este reencontro intimista de Sebastião com as memórias do seu trabalho, nunca chega a ser um ajuste de contas nem um exercício de catarse individual, colectiva ou sequer familiar. A emoção com que verbaliza pormenores das suas fotografias sente-se a cada passo. Às vezes, há silêncios que revelam mais do que as palavras, e amiúde a tenacidade e a certeza do seu olhar lembra-nos que não estamos a ver um actor a fazer de si próprio, mas antes alguém profundamente apaixonado pelo que fez e pelo que faz, um homem apaixonado pelos que lhe deram as condições necessárias para alcançar os objectivos que traçou.

E como foi filmar um homem com plena consciência do poder das câmaras? Juliano responde sem hesitações: “Foi muito complicado”. No início, enquanto fotografava, ficava sempre “muito constrangido” e “pouco natural”, sobretudo quando havia muita gente à sua volta. Uma das maneiras que encontrou para se defender foi a usar as mesmas armas, apontando a sua câmara na direcção de quem o filmava. Muitos desses momentos não puderam ser aproveitados na montagem final, tal era a frequência com que usou o disparo da fotografia para tentar equilibrar o jogo a seu favor. Mas à medida que as viagens de Génesis se foram sucedendo com câmaras de filmar incluídas, o fotógrafo foi ficando menos defensivo.

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Juliano e Wenders quiseram mostrar os terrenos por onde Sebastião andou para tentar reflectir ao máximo aquilo que ele procura com as suas lentes. Mas para além deste havia outros objectivos, que passavam por criar diálogos entre cinema e fotografia, entre pai e filho, entre Wenders e Sebastião, entre fotógrafo e cineasta”. Tudo para tentar criar “um diálogo entre imagens”. E houve casos em que não foi só o filho a ficar surpreendido com a entrega do pai ao ofício. Juliano conta que depois da primeira viagem que fizeram juntos para a rodagem deste filme, pai e filho acabariam por não conversar muito. Quando voltaram, Juliano decidiu mostrar-lhe o que tinha registado e Sebastião ficou “muito emocionado”, porque, talvez pela primeira vez, descobrira “como o seu filho olhava para ele”, a maneira como o captara “muito concentrado, a tentar integrar-se nas comunidades e a estreitar relações com as pessoas que queria fotografar”. Esse trabalho de bastidores, que implica tempo (muito tempo no caso de Sebastião Salgado), parece invisível nas imagens do fotógrafo brasileiro, mas é esse método que, para Juliano, as diferencia e as torna mais fortes. “O grande talento que ele tem é de saber colocar a câmara no lugar certo para fotografar a emoção que consegue estabelecer com as pessoas. Quando vemos as fotografias do Sebastião, vemos uma relação íntima.”

Quando começou a fotografar, em meados dos anos 70, as pessoas eram uma constante na sua fotografia, mas a partir do final dos anos 90, depois de várias experiências traumáticas, na Etiópia, no Ruanda e na ex-Jugoslávia, os rostos foram desaparecendo do seu trabalho. Até que com Génesis, o seu último grande ensaio à volta dos lugares que permanecem intocados ou quase intocados em todo o mundo, as pessoas voltaram a aparecer. Porque elas são, como diz Wenders no filme, “o sal da Terra”.

Juliano, que além de realizador acabou por se tornar protagonista no seu filme, relembra a frontalidade do pai, alguém com uma visão muito “realista” de um mundo “terrível”. Quando chegava de qualquer viagem tinha sempre histórias para contar e, claro, imagens para mostrar. Ainda muito novo, Juliano viu fotografias de todo o tipo, como aquelas do funeral de uma criança que deveria ser enterrada de olhos abertos, um costume do nordeste brasileiro. Eram imagens fortes, mas o pai “encontrou as palavras certas para contar aquela história”.

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É a Wenders que cabe o arranque do filme e é através do seu encontro com a fotografia de Sebastião Salgado, há 20 anos, que o novelo começa a ser desenrolado DR

Mas nem tudo foram vantagens ao ter um pai sobre quem fazer um filme, sobretudo se esse pai for alguém muito informado sobre o que se mostra ao fazer um filme. “Ele não facilita em frente à câmara, nisso não ajudou nada”. Ou seja, O Sal da Terra não é apenas sobre a vida e obra de Sebastião Salgado, sobre a maneira como se relaciona com as suas imagens - é também sobre maneira como se defende delas.