Histórias dos garotos prodigiosos

Texto publicado no suplemento Fim de Semana do PÚBLICO, a 15 de Dezembro de 1992.

<i>Aniki-Bobó</i> é provavelmente o filme mais popular de Manoel de Oliveira
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Aniki-Bobó é provavelmente o filme mais popular de Manoel de Oliveira DR

“Aniki-Bebé/ Aniki-Bobó/ Passarinho totó/
Berimbau, cavaquinho/ Salomão/ Sacristão/

Tu és polícia/, tu és ladrão.”

Quando hoje vemos Fernanda Matos, logo reconhecemos a figura da Teresinha. Tem o mesmo olhar e o mesmo sorriso que manipulou, com ingénua perversidade, as paixões do Carlitos e do Eduardo em “Aniki-Bóbó”. E foi com o “charme” alegre de quem guarda boas recordações da vida que, há uma semana, a Teresinha voltou a centralizar em si as atenções, discretamente emocionadas, de alguns dos seus companheiros de filmagens, que conseguimos reunir na Ribeira portuense.

O convite para uma viagem aos locais de rodagem do filme de Oliveira deparou, primeiro, com algumas reservas. “Foi há tanto tempo”, retorquiu Fernanda Matos. “Aquilo agora está tudo tão mudado”, disse Manuel Sousa, o “Filósofo”. Fernando Teixeira e Carlos Soares lembraram que apenas se limitaram a fazer uma pequena figuração no “bando” dos miúdos que brincavam aos polícias e ladrões. Horácio Silva – o Carlitos –, que descobrimos, mais tarde, a viver em Lisboa, foi o que mais depressa se disponibilizou para viajar até ao Porto e rever os lugares e os companheiros de filmagens que já não via há décadas: “A última vez que estive com a Fernanda foi na homenagem que o Cineclube do Porto – de quem lembrou ter sido um dos fundadores – fez a Manoel de Oliveira, no Trindade, no início da década de 60.” Mas era notório, em todos, um desejo, ao mesmo tempo receoso e feliz, de regredir meio século no tempo.

O encontro, na Ribeira e noutros lugares onde o filme foi rodado (Gaia, Fontainhas...), acabaria por proporcionar um desfiar de imagens e de histórias, ao correr da memória de cada um. E era visível que “Aniki-Bóbó” foi uma aventura feliz nas suas infâncias.

Fernanda Matos ­– agora enfermeira-chefe do Centro de Saúde de Rio Tinto – lembra-se do convite que Manoel de Oliveira fez aos seus pais para ela entrar no filme depois de a ver cantar e recitar. E recorda as filmagens “quase como uma aventura d'Os Cinco”.

Horácio Silva – a trabalhar numa empresa da indústria alimentar, em Lisboa, onde se estabeleceu em 1966 – afiançou recordar-se ainda dos diálogos e de praticamente tudo o que aconteceu durante as filmagens, como, por exemplo, de terem experimentado fazê-lo chorar com um limão quando, no filme, sofreu a acusação colectiva do empurrão ao Eduardo: “Mas não resultou; concentrei-me então um pouco e chorei mesmo.” Essa cena e a sensação de ter sido “injustiçado” haveria, aliás, de o “comover sempre que revê o filme”, na cassete vídeo, que, como os outros, guarda ciosamente em casa.

Manuel Sousa – que trabalha como empregado comercial – lamentou o desaparecimento do guindaste que existia na margem de Gaia e de onde o Eduardo mergulhava no Douro, fazendo valer, aos olhos da Teresinha, os seus dotes de atleta temerário frente à paixão silenciosa de Carlitos. Mas Horácio Silva haveria de revelar, agora, à sua companheira de filme que o alvo da sua verdadeira paixão, na altura, era a tia que a acompanhava nas filmagens...

O Eduardo (personagem desempenhado por António Santos, entretanto já falecido) foi por várias vezes lembrado, juntamente com o criador do “Pistarim” (António Morais Soares, a viver no Brasil). António Santos habitava mesmo na Ribeira e parece ter sido o miúdo que desempenhou o papel mais próximo da sua personagem real: era um aventureiro, percorreu os mares como embarcadiço, mas regressou sempre à Ribeira, onde era uma figura muito popular. Morreu em 1986, numa cama de hospital. Curiosamente, era o único dos garotos do filme que frequentava regularmente o bar Aniki-Bóbó. “Era um visitante muito especial e sentia-se afectivamente ligado ao bar”, disse o seu proprietário, o “Becas”, que lembrou ter fechado o bar no dia da sua morte, em sinal de luto.

Num gesto de simpática cumplicidade com a memória do filme de Oliveira, o “Becas” abriu propositadamente o seu Aniki-Bóbó para receber os intérpretes do filme. Aí, os “miúdos” continuaram a desfiar a memória. Recordaram a sua viagem e estada em Lisboa – “Fomos num comboio a que chamámos ‘Flecha de Prata’”, lembra o “Filósofo” – para a filmagem dos interiores, na Tobis. O calor dos holofotes e a repetição exaustiva dos “takes” chegou a criar algum cansaço e, até, o desejo de desistir, confidenciam Fernanda Matos e Manuel Sousa. Mas o fascínio da aventura cinematográfica era superior a isso. “E, depois, divertíamo-nos à pancada com os miúdos – os figurantes da sala de aula – de Lisboa”, recorda o último. Das cenas de pancada também falou Horácio Silva, que, ao ver uma foto do filme em que o Carlitos leva uma tareia do Eduardo, em frente à Teresinha, se lembra de terem continuado a luta para além do fim do “take”: “Até lhe ferrei uma orelha...”

Recordações fortes são, igualmente, as que se referem aos membros da equipa de filmagens, desde o realizador aos técnicos, em particular Lopes Ribeiro – “feio, mas muito simpático e brincalhão; deu-me uma caixa de costura e um livro de contos de fadas”, diz Fernanda Matos –, o fotógrafo António Mendes e o actor Nascimento Fernandes – “que no filme usa capachinho”, revela Horácio Silva. Mas é a figura do realizador – o “sr. Manoel de Oliveira”, como alguns ainda se lhe referem – que desperta a maior simpatia. “Era uma pessoa que trabalhava sempre de uma maneira afável e paciente”, lembra Fernanda Matos, a quem Oliveira ofereceu a boneca do filme. Horácio Silva diz que lhe deve o tratamento e a cura do tifo, que o atacou durante as filmagens.

O mesmo reconhecimento lhe é dedicado por Manuel Sousa, a quem o cineasta pagou os estudos na Escola do Infante. Foi enquanto frequentava a escola que conseguiu um lugar de paquete no S. João Cine (onde assistiu, como os seus colegas, à estreia portuense de “Aniki-Bóbó” – sessão que foi precedida de uma antestreia no Sá da Bandeira, no intervalo duma revista com a Laura Alves, lembra Fernanda Matos). Aí conheceu grandes actores da época: “O Villaret era uma jóia de pessoa, com um fundo humano fantástico; o António Silva era forreta, hospedava-se com a mulher, a Josefina Silva, numa pensão da Rua do Cativo, para não gastar muito dinheiro...”

Horácio Silva admite que ter feito “Aniki-Bóbó” transformou a sua vida, “até na maneira de a interpretar”. E foi o único que esteve quase a prosseguir uma carreira cinematográfica, com um convite para ir para Espanha. “Só que o meu tio, que era o meu tutor, não me deixou ir.” Mas é Fernando Teixeira, um dos figurantes do jogo dos polícias e ladrões – agora pintor de paisagens a óleo, estabelecido num centro comercial portuense –, que manifestamente mais lamenta não ter prosseguido uma vida artística: “Gosto muito de cantar, adoro os dramas e choro com uma facilidade tremenda...”

Fernando Teixeira, que recita ainda de cor a cantilena do jogo, lembra-se bem de quando Oliveira o foi buscar para o filme: “Foi na Ribeira; éramos para aí 20 a 30 garotos... e eu escapava-me do Colégio dos Órfãos – por baixo do qual o realizador filmou a cena do comboio – para ir para aí brincar.” O mesmo aconteceu com Carlos Soares – que trabalha numa loja de molduras –, o único que não compareceu ao encontro. Mas, antes, tinha já evocado a bela experiência vivida durante as filmagens. “O Manoel de Oliveira era muito brincalhão”, recorda, enquanto atesta acompanhar fielmente a obra do realizador, mesmo que “não adira muito àquele género de cinema”. com Leonor Moreira

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