Torne-se perito

Rossellini x 10

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Roma, Cidade Aberta, de 1945, inaugura o cinema do pós-guerra, tanto em termos “éticos” como ou em termos “estéticos”
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Ingrid Bergman, em Hollywood, vira Roma, Cidade Aberta e escreveu a Rossellini oferecendo-se para trabalhar com ele. Viagem a Itália foi uma das obras-primas que resultou da colaboração e da vida em comum
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Rossellini pegou em Ingrid Bergman para lhe retirar o glamour de Hollywood e procurar-lhe a “aura”, naquele velho, e mais preciso, sentido do termo: Stromboli
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Alemanha, Ano Zero, de 1948, filmado na Berlim arruinada e propondo, tragicamente, através da história de um miúdo influenciado por um tutor nazi, a possibilidade de um novo começo, de um “ano zero”, para a Alemanha e a para a Europa
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India, o espantoso filme indiano de Rossellini, “o filme da criação do mundo” como escreveu Godard, onde a ficção se faz documento e o documento se faz ficção

Até ao final de Abril no Nimas em Lisboa, mas depois também no Porto (Teatro do Campo Alegre) e noutras cidades, há um programa Roberto Rossellini em rotação.

Correspondem maioritariamente ao período – grosso modo, 1945-1960 – em que o cineasta italiano realizou os filmes mais célebres e, através deles, firmou um lugar crucial na história do cinema. Do período posterior a este, quando Rossellini passou a trabalhar sobretudo para a televisão, conta-se apenas um representante neste grupo, A Força e a Razão, que basicamente é uma entrevista com Salvador Allende filmada em 1971 (mas apenas vista em 1973, já depois da morte do presidente chileno).

Roma, Cidade Aberta, de 1945, não foi o primeiro filme de Rossellini, nem sequer o seu primeiro filme memorável (os muito estimáveis La Nave Bianca ou Un Pilota Ritorna, rodados durante a guerra), mas foi o filme que o lançou, e que lançou uma nova era: inaugura, pode-se dizê-lo, o cinema do pós-guerra, tanto em termos “éticos” como ou em termos “estéticos”. Celebérrima história de sacrifício durante a ocupação nazi, com uma Anna Magnani mais “telúrica” do que nunca a compor a mais poderosa personagem maternal que o cinema já registou, abre também a oficiosa “trilogia da guerra” que Rossellini fez seguir com Paisá (1946), um filme em episódios focando diversos aspectos dos últimos meses da II Guerra em território italiano, e esse colossal Alemanha, Ano Zero, de 1948, filmado na Berlim arruinada e propondo, tragicamente, através da história de um miúdo influenciado por um tutor nazi, a possibilidade de um novo começo, de um “ano zero”, para a Alemanha e a para a Europa.

Por esta altura já Ingrid Bergman, em Hollywood, vira Roma, Cidade Aberta e ficara assarapantada com a existência de um filme como aquele. Escreveu a Rossellini oferecendo-se para trabalhar com ele. A colaboração – e a vida em comum - começariam no final da década, mas antes disso Rossellini ainda se despediu de Anna Magnani, protagonista de O Amor, filme em dois episódios – o primeiro é uma adaptação da Voz Humana de Cocteau, o segundo uma sátira religiosa, mas absolutamente dramática, que tem ainda a particularidade de pôr Magnani a contracenar com um futuro cineasta então ainda conhecido apenas pelo seu trabalho de argumentista (por exemplo para Rossellini), de seu nome Federico Fellini. Depois Bergman chegou, para um conjunto de filmes determinante, que forma um núcleo definido na obra de Rossellini (e a única longa com Bergman não incluida nesta operação é a ultima, Joana d’Arc na Fogueira). Stromboli, com Bergman perdida numa ilha de pescadores e uma sequência final estarrecedora na encosta do vulcâo; Europa 51, sobre uma “santa” moderna, cuja devoção aos pobres e aos enfermos é visto pelo marido como uma forma de loucura; Viagem a Itália, milagroso filme sobre um casamento em crise que não deixa de rimar, autobiograficamente, a relação entre Rossellini e Bergman; e O Medo, baseado em Stefan Zweig e o mais germânico de todos os filmes de Rossellini - todos eles se ligam pela preponderância da espiritualidade e da abordagem a universos interiores, psicológicos sem serem necessariamente “psicologizantes”, como se o cineasta tivesse pegado em Bergman para lhe retirar o glamour de Hollywood e procurar-lhe a “aura”, naquele velho, e mais preciso, sentido do termo.

Dois filmes completam esta mostra. A Máquina de Matar Pessoas Más, um dos mais bizarros e mais esquecidos filmes de Rossellini, uma comédia semi-absurda e anti-maniqueísta sobre todas as “sombras de cinzento” entre o Bem e o Mal; e o outro dos seus monumentos, India, o espantoso filme indiano de Rossellini, “o filme da criação do mundo” como escreveu Godard, onde a ficção se faz documento e o documento se faz ficção, onde a realidade não exclui o imaginário porque o imaginário - cultural, religioso, etc - integra a realidade, e que é uma obra duma beleza avassaladora.