Roller Derby Porto: da reunião no “Piolho” aos palcos internacionais

Há quatro anos, começaram com treinos de patinagem porque “nem isso" sabiam fazer. Hoje, são a formação nacional com mais jogos somados contra adversárias estrangeiras. O elevado número de atletas (45) até já as fez criar uma equipa B.

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Fernando Veludo/Nfactos
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Numa sala escondida do Pavilhão Infante Sagres, no Porto, Marta Carvalho orienta o aquecimento, antes do arranque de mais um treino. Está habituada a servir de exemplo, ou não fosse, na “vida real”, professora de cine-vídeo. Mas aqui a história é outra. O roller derby permite-lhe isso mesmo, ser “aquilo que quiser”: no caso, uma “Bloodrunner”, o derby name que assumiu pouco depois de, em 2011, ter jurado ser capaz de formar a liga Roller Derby Porto (neste desporto, formam-se ligas e não clubes) e levá-la aos palcos internacionais. E foi mesmo. Quatro anos volvidos, é simultaneamente treinadora e jogadora na equipa portuguesa que mais cartas tem dado.

A prová-lo, o facto de ser a formação nacional com mais bouts (os jogos de roller derby) já realizados com equipas estrangeiras – 14, ao todo. É igualmente o conjunto português que se encontra mais bem posicionado no ranking europeu da Flat Track Stats (118.º), ainda que, explica Marta, isso seja pouco significativo, uma vez que não há nenhuma entidade que lhes marque os jogos ou que organize um campeonato internacional entre clubes em que possam participar.

Surgido nos Estados Unidos, na primeira metade do século XX, com uma forte vertente teatral (à imagem do wresting), o roller derby seria recuperado a partir de 2001, já sem um campo inclinado, mas com o mesmo pendor feminino e o mesmo objectivo: o de que uma das jogadoras de cada equipa, a jammer, percorra o máximo de voltas à pista sem ser derrubada pelas quatro blockers adversárias. Pelo meio, há muita estratégia, “jogo psicológico”, um sem fim de regras e um fartote de contacto e velocidade que se traduzem em quedas recorrentes. Há ainda fragmentos do imaginário rock and roll que se mantêm – caso dos derby names, uma espécie de alter ego que cada jogadora assume, e das “pinturas de guerra”–, mas, assegura Marta, tem havido um esforço no sentido de fazer com que o desporto seja “levado mais a sério”.

Mas voltemos à Roller Derby Porto, para perceber como tudo começou. Em 2011, depois de uma viagem aos Estados Unidos em que chegou à conclusão de que “tinha de fazer parte” deste desporto, a "Bloodrunner" lançou o apelo no Facebook e, já com o apoio de Ana Cruz, a outra fundadora, juntou as interessadas numa primeira reunião no “Piolho” (um histórico café do centro do Porto). “Os primeiros meses foram com treinos de patinagem apenas. Tivemos a ajuda de dois ex-patinadores artísticos de competição, que nos ensinaram o básico – porque nem isso a maior parte das pessoas sabia”, recorda.

Daí que só no final de 2012 tenha surgido o primeiro jogo contra uma equipa estrangeira – uma formação de Valência (Espanha), também ela estreante. Depois, o nível de exigência foi aumentando. “Foi sempre uma preocupação que eu tive, que isto fosse levado a sério. Para quem entra em modo de competição, há mesmo um regime de faltas e há todo um empenho que tem de advir então”, justifica. A dedicação permitiu-lhes já obter alguns resultados inesperados, como a vitória frente às London Rocking Rollers, uma equipa que ocupa o 24.º lugar no ranking europeu de roller derby.

E dentro de portas? Bom, para já, somam apenas dois bouts com as Lisbon Grrrls (que redundaram em vitórias para a formação portuense), algo que se explica com o facto de as restantes equipas portuguesas serem muito recentes. No entanto, a fundadora da Roller Derby Porto acredita que começa a haver condições para que se possa avançar com uma competição nacional. “É algo que queremos fazer, agora que há novas ligas em Coimbra, em Leiria e no Algarve. Estamos a formar uma associação portuguesa de roller derby, que depois comandará essas actividades”, assinala, lamentando que o crescimento do derby em Portugal seja em parte travado pela inexistência de patrocínios.

Para já, o projecto de Marta Carvalho e Ana Cruz deu já origem a uma selecção nacional deste desporto, que marcou presença num Europeu e num Mundial, ambos no ano passado. E se, no primeiro, as atletas portuguesas (metade delas do Porto) não foram além do último lugar, no segundo o caso já foi diferente. “Não houve nenhum announcer [quem comenta os jogos ao vivo] que não se tenha referido a nós como uma das equipas mais surpreendentes. Ficaram extremamente surpreendidos com o nosso nível de patinagem e até de estratégia”, recorda, explicando que ficaram em 25.º num leque de 30 equipas.

Enquanto isso, o crescente número de praticantes despertou a necessidade de criar, dentro da liga Roller Derby Porto, uma segunda equipa. “Vamos aceitando pessoas novas e começou a haver uma ponte demasiado grande entre quem passava do nível inicial – “fresh meat” –, para o mais avançado, que é o da equipa A”, sintetiza. Ao todo, há já 45 atletas, com idades que vão desde os 19 aos 37 anos.

Entre elas, encontramos várias professoras, uma cabeleireira, uma designer de moda, uma cientista e até uma embriologista. Todas se renderam ao facto de o derby lhes permitir desligar “da vida normal”, como descreve Joana Bailão, ou “Big Jo”, que salienta também a vertente feminina do desporto. “Nos jogos muitas vezes assumimos uma personagem, por isso é que existem os nomes. Então há maquilhagem e cada uma pode ser aquilo que quer ser. Continua a haver um grande cuidado com a imagem”, conta.

Mas, no meio de tantas quedas, a imagem não sofre? “Já fomos trabalhar de directa, aleijadas, pisadas. Mas já nos habituámos, já faz parte”, sintetiza Ana Morais, designer de moda na “vida real” e “Blockahontas” sempre que “despe o que vem com a profissão” e veste a pele de uma derby girl.