Empresa de segurança "lamenta" agressão no Cais do Sodré e afasta agressor

A Cosmos confirma que um dos autores da agressão filmada pelo PÚBLICO estava "no exercício das suas funções", mas garante desconhecer a identidade do segundo. Há seis meses, a empresa esteve envolvida noutro caso de violência, na mesma zona de animação nocturna de Lisboa.

O trabalhador da empresa de segurança privada Cosmos que é visto num vídeo do PÚBLICO a agredir com pontapés na cabeça e murros um homem, na chamada rua cor-de-rosa, no Cais do Sodré, “já não pertence ao efectivo da empresa”. A informação é avançada pelo director de segurança daquela sociedade, que garante desconhecer a identidade do segundo agressor e acrescenta que “os outros intervenientes” nesta ocorrência, que segundo diz são dois, “encontram-se suspensos enquanto decorre um processo interno”.

No vídeo, filmado na madrugada de 20 de Fevereiro no âmbito de um trabalho multimedia do PÚBLICO através do qual se procurava fazer “um mosaico de Portugal em 1440 minutos”, vê-se um homem a ser agredido enquanto está deitado no chão. A vítima acaba por se levantar, após o que troca algumas palavras imperceptíveis com o agressor e começa a caminhar, afastando-se dele.

Mas o agressor, que a Cosmos confirma que estava “no exercício das suas funções” no momento da agressão, vai atrás dele, atira-o para o chão e volta a infligir-lhe pontapés e murros, com a ajuda de um terceiro homem, que também o ataca. Questionado sobre a identidade deste último, o director de segurança da sociedade assegura que não se trata de um funcionário seu. “Não faço a mínima ideia de quem seja”, afirma Bruno Sousa.

A cena, que ocorreu naquele que se transformou num dos principais pólos de diversão nocturna de Lisboa, foi testemunhada por pelo menos duas dezenas de pessoas, uma das quais chega a gritar “assim é que é”. O vídeo da agressão, que foi visto por centenas de milhares de pessoas e gerou uma onda de indignação, não passou despercebido ao Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, que emitiu um esclarecimento no qual informa que “encetou de imediato diligências para a descoberta da verdade e identificação dos autores do crime que eventualmente terá ocorrido”.   

Ao PÚBLICO, o subcomissário Hugo Abreu esclarece que pode estar em causa um crime de ofensas à integridade física que, por ser um crime semi-público, depende de uma queixa da pessoa que foi agredida ou de um seu representante legal. Sem essa queixa, admite, não há muito que possa ser feito. Apesar disso, este adjunto do Núcleo de Imprensa e Relações Públicas assegura que estão a ser desenvolvidos esforços para identificar todos os intervenientes nesta situação.

O PÚBLICO perguntou à Procuradoria-Geral da República se o Ministério Público vai desencadear alguma diligência relativamente a este caso, e se já abriu algum inquérito, mas não obteve resposta.

Já a empresa de segurança privada faz saber que só teve conhecimento da “alegada agressão a um indivíduo não identificado” por “um vigilante da Cosmos no exercício das suas funções” após a divulgação do vídeo. “Queremos deixar bem claro que esta postura não faz parte da nossa conduta, que um ato isolado e particular não deve denegrir a imagem da segurança privada nem dos seus clientes”, transmitiu o director de segurança, acrescentando que a sociedade “lamenta o sucedido”.

Questionado sobre o que terá estado na origem da agressão, Bruno Sousa recusou prestar informações adicionais, invocando estar abrangido pelo “segredo profissional”. “Está a decorrer um processo interno. Estamos a averiguar a situação”, limitou-se a dizer.

No Verão de 2014, a mesma empresa de segurança privada esteve envolvida num outro episódio de violência, também na zona do Cais do Sodré. Segundo o Diário de Notícias, entre cinco a sete seguranças vestidos com camisolas com as letras Cosmos “espancaram” quatro turistas de origem marroquina, numa noite de sexta-feira do mês de Agosto. “A empresa não pactua com estas situações”, declarou na altura o então director de operações da Cosmos, acrescentando que “na melhor das hipóteses” os trabalhadores envolvidos na agressão iriam ser suspensos.

O PÚBLICO confrontou Bruno Sousa com o facto de serem já dois os casos de agressão (ambos testemunhados por jornalistas que se encontravam no local na altura dos factos) que envolvem a sua empresa e tentou perceber que desfecho teve internamente o caso de há cerca de seis meses. “Não me posso pronunciar porque não trabalhava na empresa. Sinceramente nem me debrucei sobre esse assunto”, respondeu.

Já Miguel Gonçalves, que pertence a um movimento que representa 13 bares situados no Cais do Sodré, diz que aquilo que aconteceu na madrugada de 20 de Fevereiro “é uma situação que, infelizmente, é normal em todas as cidades da Europa e do mundo, em qualquer zona de diversão nocturna”. “As pessoas bebem um bocado mais do que devem e há excessos”, diz, salvaguardando que tudo o que sabe deste caso foi aquilo que viu no vídeo.

Apesar de dizer que não defende as agressões ocorridas, Miguel Gonçalves também diz que a “suposta vítima” não deve estar isenta de culpa. “Duvido muito que os seguranças tenham tido aquela atitude sem nenhuma razão”, afirma o representante do Movimento Lisboa Com Vida, deixando no ar a possibilidade de o homem que foi pontapeado ter tentado roubar alguma coisa ou possuir uma arma.

“Aquela situação não sucederia se não tivesse havido uma razão muito forte”, continua o empresário, que repete várias vezes a ideia de que foi “uma grande coincidência” o PÚBLICO estar no local com uma câmara de filmar no momento da agressão. Miguel Gonçalves lamenta ainda que se fale no Cais do Sodré “como uma zona perigosa”, e diz que a criminalidade nesta área de Lisboa “tem vindo a descer a pique”.

Essa não é no entanto a percepção dos moradores, nem da PSP. Em Setembro de 2014, o Sol divulgou dados transmitidos por essa força policial, segundo os quais a criminalidade global no Cais do Sodré teria crescido 49% num ano.

Também quem reside nas imediações da rua cor-de-rosa diz que se sente cada vez mais inseguro. “Eu não tinha medo de sair e agora tenho”, diz Isabel Sá da Bandeira, do movimento Aqui Mora Gente, garantindo que há muitas pessoas que com ela partilham esse sentimento. Quanto ao vídeo do PÚBLICO, esta moradora considera-o “chocante” mas diz que é bom que ele tenha sido publicado “para as pessoas saberem o que se passa ali”. 

Nota: a hora em que foi publicado o vídeo em causa no trabalho “Um dia normal” foi alterada para a hora exacta da sua captação. Onde se lia 3h19 lê-se agora 02h49.