Opinião

Entristeceu a Praça da Canção

Alegre sabia que a sua e a nossa geração “estava condenada ao risco”. Hoje sabemos que o risco subsiste e que pode ser ainda mais perigoso e sufocante.

Há livros e actos que, num determinado contexto histórico, excedem o seu conteúdo imediato e adquirem outro simbolismo e dimensão históricos.

Este ano, na mesma altura em que se assinalava a passagem do cinquentenário do assassinato pela PIDE do general Humberto Delgado e da sua secretária brasileira, Arajaryr Campos, chegava aos escaparates das livrarias a edição comemorativa das cinco décadas da publicação de Praça da Canção, de Manuel Alegre, um livro que veio marcar a história cultural e política da resistência à ditadura em Portugal e influenciar o que viria a ser o processo de criação de uma canção política capaz de incorporar no seu temário grandes assuntos como a condenação da Guerra Colonial, a repressão, a emigração, o exílio e a tortura.

Alegre, então oficial miliciano em Angola, não pode dissociar esta experiência de criação dos meses passados na cadeia de Luanda onde fora encarcerado, em 1964, devido à sua actividade conspirativa. Foi aí que conheceu Luandino Vieira, detido devido à sua actividade política como militante do MPLA. Foi em 1965 que Luandino publicou Luuanda, que, vencendo o Prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores, viria a estar na origem do seu encerramento pela PIDE e da detenção dos seus dirigentes, nomes de primeiro plano da literatura portuguesa da época. Estávamos em 1965 e esse ano seria um tempo de referência e de mobilização dos sectores da população que mais activamente se opunham à repressão salazarista. O assassinato de Humberto Delgado, em Villanueva del Fresno, junto à fronteira com Portugal veio endurecer essa firme posição de resistência que levaria às prisões do regime (Caxias e Peniche) muitos intelectuais, operários e destacados quadros da resistência, com destaque para os integrados na militância comunista.

Em Luanda, Alegre fez chegar os poemas de Praça da Canção a Luandino Vieira, também com a intenção de que chegassem às mãos da sua família, que os poderia preservar e sobretudo encaminhar para a desejada e inadiável divulgação.

No regresso a Portugal, Manuel Alegre recuperou os poemas combativos de Luanda, aos quais acrescentou ainda outros que lhe viriam a dar ainda mais pujança e poder de mobilização. Tenha-se presente que Trova do vento que passa, com poema de Alegre e música inspiradíssima de António Portugal, guitarrista e compositor, era já um verdadeiro hino da resistência, com a voz de Adriano Correia de Oliveira, cantor de Coimbra e amigo do poeta, que entretanto preparava a partida para um exílio que o manteria afastado de Portugal, designadamente em Argel, até ao triunfo do MFA e do povo nas ruas em Abril de 1974.

Como aconteceu com outras canções dessa época, Trova do vento que passa ia sendo cantada de convívio em convívio, contribuindo para que outras vozes se juntassem às de José Afonso ou de Adriano e também às de Luís Cília e José Mário Branco, entretanto exilados em França. A Praça da Canção tornou-se um livro de combate para muitos dos que consideravam o silêncio, mesmo como acto defensivo de prudência, como uma forma inaceitável de transigência com um regime assassino e castrador do desejo de libertação de cada vez mais largas camadas de população. Numa conversa recente, Manuel Alegre contou-me as circunstâncias em que nasceram esses poemas e a forma como natural e intensamente se inscreveram na dinâmica de combate que estava em marcha e que viria a criar as condições para a queda do regime menos de um ano mais tarde.

Contou-me também o que foi o seu quotidiano de preso político em Luanda e o significado que teve para ele o contacto com Luandino Vieira, detido no mesmo presídio. Era tempos únicos e irrepetíveis que hoje recordamos com respeito e nostalgia, sabendo que, por mais forte que seja o descontentamento e a angústia perante o futuro de Portugal e de uma Europa dividida e em crise profunda, as canções que criámos e cantámos não voltarão a desempenhar o mesmo papel, ainda que esse reconhecimento possa ser doloroso e desmobilizador. Tudo tem o seu tempo, a sua lógica e a sua estética.

Por ter pertencido activamente a essa geração de cantores que contribuíram para formar e consolidar o desejo de mudança, o que lamento é que a tristeza que se sente em Portugal e não é fácil de identificar e contrariar esvazie o nosso quotidiano da energia fundamental para que as datas e os factos marcantes sejam recordados com a vitalidade de quem não deixa morrer o que de vital neles existiu e existe. Reler hoje os poemas de A Praça da Canção, com a sua força inovadora e o seu estilo libertador, é encontrar um Portugal que mesmo silenciado e humilhado não se rendeu, não deixou cair os braços e não fez do exílio e da alegria combativa aspectos fugazes de um inadiável desejo de mudança. Recordo-me bem da forma como Os vampiros, de Zeca Afonso, mas também Trova do vento que passa, cantada por Adriano e por outros, eram um estandarte erguido em nome da vontade colectiva de mudar conquistando a liberdade e construindo a democracia. O que sinto é que anda a faltar fôlego nas nossas ruas e gentes para que estas canções e memórias produzam o fruto desejado: o da construção de uma alternativa que tenha asas suficientemente fortes para voar e para nos garantir a transformação desejada. Estas canções foram escritas numa época em que ainda ninguém anunciava, semana a semana, que queria ser governante e que já tinha a receita mágica para o futuro de Portugal. Mas havia vontade, força e sobretudo muita alegria, requisito que hoje, de tão esquivo que anda, nos faz sentir que andamos entre os velórios da nossa amarga memória magoada. A ditadura não nos calou e admitir que este contexto cabisbaixo nos pode calar de vez é já meia derrota em relação ao futuro que está à porta, a escassos meses de se concretizar, seja ele qual for. Alegre sabia que a sua e a nossa geração “estava condenada ao risco”. Hoje sabemos que o risco subsiste e que pode ser ainda mais perigoso e sufocante, mas parece que resvalámos para uma velha e bafienta trincheira onde o esquecimento é que faz a lei. E sem alegria e sem alento é sempre ao pior de nós que acabamos por regressar.

Escritor, jornalista e presidente da Sociedade Portuguesa de Autores