Que país é esse?

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Depois de dois meses em Lisboa, desembarco no Rio. No rádio do táxi, a notícia: o juiz do processo contra Eike Batista, o ex-bilionário mais rico do Brasil investigado por manipulação de mercado e uso indevido de informação privilegiada, foi flagrado a guiar o carro do investigado. E tem mais: o piano de Eike foi parar na casa do vizinho do juiz. Na manhã seguinte, na primeira página do jornal, as caras dos quase 50 políticos investigados na operação Lava Jato, sobre o esquema de corrupção da Petrobras. Os políticos negam qualquer envolvimento. Estão chocados de seus nomes estarem associados ao escândalo. Ninguém sabe de nada, incluindo o senador Fernando Collor de Mello, o ex-Presidente afastado num processo de impeachment, e Roseana Sarney, filha do ex-Presidente José Sarney. Dizem que vão provar a inocência. No domingo, começo a ouvir o barulho de panelas nas varandas próximas. Penso que são os torcedores do Fluminense. Errado. É um protesto contra a Presidente Dilma Rousseff. Em Higienópolis, um dos bairros mais tradicionais e ricos de São Paulo, as pessoas chamam a Presidente de vaca. Sim, é isso mesmo, em alto e bom som para os vizinhos ouvirem. No dia seguinte, presa num engarrafamento de uma hora e meia, ouço no rádio um dos jornalistas mais famosos do país dizer que ninguém mais do que ele quer que a Dilma se exploda (acrescenta que agora que ela emagreceu vai ser mais difícil) mas afirma que não há base legal para impeachment. Ouvi direito? Um jornalista mandou a Presidente se explodir e falou da dieta dela? Em seguida, a notícia do dia: o ex-advogado do PT, actual juiz do Supremo Tribunal Federal, pede para julgar o processo Lava Jato e após acertar que vai presidir a maior parte do julgamento do escândalo de corrupção na Petrobras reúne-se com a Presidente no Palácio do Planalto. Um encontro que não estava previsto na agenda dela. Ele afirma que não falaram sobre o assunto. No dia seguinte os jornais dão destaque a uma manifestação de 39 pessoas (sim, 39) em direcção à Petrobras onde havia mais de 100 policiais à espera. Os manifestantes rezaram o Pai Nosso. É mesmo notícia? A esta altura, não importa para que lado olhe pareço estar a testemunhar uma novela, não brasileira, mas mexicana. Já estou há uma semana no país e ficamos a saber que afinal o dinheiro apreendido na casa de Eike Batista – sim, voltamos ao caso do ex-bilionário - sumiu. O juiz está doente. Finalmente, admite o desvio de mais de 800 mil reais (235 mil Euros) e é afastado. Agora, ele também está a ser investigado por fraude. As manifestações pró e contra o impeachment avançam – algo inédito para um(a) presidente que tem apenas três meses de mandato (novo mandato). Ainda vou ficar mais uns sete dias no país, ainda não sei qual será o próximo capítulo deste agora reality show (a presidente deve se reunir com todo o gabinete no fim deste domingo quando já terei enviado esta crónica para Lisboa) mas só me apetece cantarolar a música do Renato Russo, o já falecido líder do Legião Urbana, a banda de rock da minha juventude, resgatada pelos jovens das manifestações de 2013: Nas favelas, no senado, sujeira para todo lado, ninguém respeita a constituição, mas todos acreditam no futuro da nação; que país é esse? Que país é esse?