“Continua a haver uma hierarquia masculina”, diz Isabel do Carmo

No último meio século, a mudança do estatuto da mulher na sociedade portuguesa foi radical. Isabel do Carmo recorda histórias de outro tempo.

Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

O estatuto social das mulheres na sociedade portuguesa mudou radicalmente nos últimos 40 anos e é sobre essa mudança, nas suas várias fases e nos vários ritmos em que ela se processou, que Isabel do Carmo reflecte em conversa com o PÚBLICO a propósito do lançamento do seu último livro. Histórias que as mulheres contam – testemunhos reais, editado pela D. Quixote/Leya.

O livro reúne histórias de vida reais e não ficcionadas, que Isabel do Carmo aborda sem, contudo, identificar as mulheres por detrás de cada caso. Mas sentiu necessidade de expor situações-tipo que simbolizam a vida de gerações de mulheres ao longo dos últimos sessenta anos. Histórias de que teve conhecimento ao longo dos anos, muitas vezes através de doentes que atendeu no Hospital de Santa Maria, em Lisboa ou noutros espaços de consulta.

Médica endocrinologista, hoje com 70 anos, Isabel do Carmo tem pontuado a sua vida com a actividade política. Actualmente está ligada ao movimento Tempo de Avançar que se constitui em torno do partido Livre, depois de ter participado no Congresso das Alternativas. Mas a sua visibilidade pública e política surgiu ainda nos anos setenta do século XX, quando foi uma das principais dirigentes do Partido Revolucionário do Proletariado (PRP) e das suas Brigadas Revolucionárias (BR).

Nessa condição levou o activismo político às máximas consequências, envolvendo-se em actos de guerrilha clandestina e de terrorismo como a colocação de bombas e o assalto a bancos. Activismo que foi facilitado pelo estatuto que então as mulheres tinham na sociedade portuguesa: “Ninguém imaginava que as operações das Brigadas Revolucionárias eram feitas por mulheres”.

Isabel do Carmo salienta que hoje é um outro mundo que se vive na política portuguesa e que a presença das mulheres no espaço público é uma realidade. E frisa como o 25 de Abril foi um momento decisivo para o irromper das mulheres na política. “Eu vivi um momento extraordinário que foi o PREC, um ano e meio de processo revolucionário em que as mulheres entraram em multidão para a política, e muitas das análises são da super-estrutura política e não reflectem a presença das mulheres”, lamenta.

“Lembro-me das primeiras assembleias no hospital de Santa Maria em que aquelas senhoras que eram as chamadas criadas – agora chamam-se assistentes operacionais – vieram para as assembleias e tiveram direito à palavra. Passaram a ser pessoas, porque não eram tratadas bem como pessoas, eram olhadas de cima”, recorda, acrescentando: “Também assisti às lutas dos bairros. As ocupações das casas foram feitas pelas mulheres, para elas era extraordinário ter uma casa pela primeira vez com os filhos, sair das barracas e ir para as casas. E nas ocupações de terra a Norte do Tejo, vi mulheres a questionarem o poder e quem o exercia. Porque, havendo chefes, a tendência era serem os homens.”

Reconhece que “ainda hoje o padrão da política reproduz o modelo de o chefe ser o homem, continua a haver uma hierarquia masculina”. E mostra-se esperançada em que no Tempo de Avançar esse modelo não seja reproduzido. Defende mesmo que “Ana Drago deve ter uma liderança”, pois considera que “ela é uma líder natural”. E frisa que “nas associações de base as mulheres estão muito presentes, há na base uma capacidade de organização colectiva das mulheres, isso tem que ser tido em linha de conta no futuro” em termos de liderança social e política.

Trabalho emancipaOutra dimensão da vida das mulheres que sofreu uma grande revolução em Portugal foi a da relação com o trabalho. As mulheres ainda ganham menos, mas há um reconhecimento do estatuto de trabalhadora da mulher. “O trabalho foi e é a possibilidade de as mulheres irem para o espaço público, ainda hoje há os defensores de que as mulheres deviam ficar em casa e esse trabalho ser remunerado”, diz Isabel do Carmo, contrapondo que “isso acorrentava as mulheres ao espaço privado e de isolamento.” E conclui que foi “o trabalho, mesmo com toda a violência do duplo trabalho – no emprego e em casa -, que trouxe as mulheres para o espaço público”.

Admite que “houve uma evolução muito grande” e que hoje a distribuição das tarefas domésticas entre homens e mulheres evoluiu, mas sustenta que muitas vezes as mulheres “ao horário de trabalho acrescentam o trabalho em casa”. E admite que, “com a actual tensão social, as mulheres sejam o terreno mais susceptível" de verem "os chefes carregarem”. Recorrendo ao livro, observa: “Quando digo que aquele rapaz que era chefe dizia ‘Luísa você é burra, vê-se logo que é alentejana’, não sei se ele diria isso se fosse com um homem.”

Mas não foi por razões políticas imediatas que Isabel do Carmo decidiu avançar para este livro agora. Fê-lo porque sentiu a “necessidade de dar expressão pública a histórias, muitas delas dramáticas, que ficam ocultas”, uma vez que, “mesmo quando as pessoas relatam as suas vidas, as relatam de forma romanceada com omissões, há muita coisa que fica na sombra”.

“As mulheres que viveram e vivem estas vidas estão vivas. Temos a geração que tem 60, 70, 80 anos e até 90, que viveu vidas que não têm a ver com a narrativa oficial”. Foram vidas em que “houve sempre muito sofrimento, porque foram sempre figuras secundárias e andaram sempre a reboque de um marido ou das famílias”. Isabel do Carmo considera mesmo que, “muitas vezes, as mulheres fizeram casamentos que não eram obrigatórios como os islâmicos, mas eram de conveniência”.

E lembrando o que hoje se comenta em relação à barbárie das imposições do fundamentalismo islâmico, afirma: “Quando se fala no Estado Islâmico, penso tanto no Portugal de há 50 e de há 60 anos! Eu vi tantas doentes que não conseguiam tirar o lenço da cabeça para a consulta! Senhoras que vinham ao hospital e não conseguiam tirar o lenço. Uma mulher não podia apresentar-se em cabelo nos anos 1960 e 1970 em Portugal.”

E alertando para uma outra realidade forçada pelas regras sociais, a médica sublinha que “algumas mulheres não queriam ter filhos, não tinham o chamado instinto maternal, mas, como a sociedade achava que elas deviam ter filhos, tiveram-nos e algumas foram muito mazinhas para eles, muito repressivas”.

Sexualidade reprimidaHá gerações de mulheres cuja sexualidade foi reprimida, recorda Isabel do Carmo. Por um lado, lembra que a sua geração ainda viveu uma sexualidade em que “a virgindade era um bem precioso”, que “era preciso preservar”, mas sublinha que esta realidade se estende a gerações posteriores. “E se isto valia para as cidades, então para o campo era uma coisa brutal”.

Aponta como exemplo a história de uma colega, hoje na casa dos 50 anos, que, “depois de um namoro, foi levada pela mãe ao ginecologista para ser observada na frente dela, para ver a integridade do hímen”. E conclui: “Não estamos a falar do Estado Islâmico, estamos a falar de Portugal nos anos 1980. Estas ideias estavam muito arreigadas, só agora, a pouco e pouco, vão desaparecendo. Nos meios rurais estas coisas pesavam de uma forma terrível.” E conclui que “a sexualidade reprimida ao longo de muitas gerações" era uma realidade “dolorosa para as mulheres, mas era também consentida” por elas.

Isto, porque essas mulheres não concebiam alternativa. “Não era possível fugir às normas, as aparências tinham de ser mantidas. E isto foi muito mais pesado para as mulheres do que para os homens”. Embora, para Isabel do Carmo, a situação nem para alguns homens era fácil: “Nos casamentos de honra os homens eram obrigados a casar. Era também uma forma de acorrentar os homens ao destino que eles não queriam.”

Há um outro lado da vivência da sexualidade que teve consequências violentas. “A questão do abuso sexual escondido, a que hoje se chama pedofilia, que ocorria no seio das famílias, sobretudo com raparigas, e que estava muito bem escondido, porque as próprias pessoas da família não tinham interesse nenhum em trazer à luz do dia uma coisa que era uma vergonha”, afirma Isabel do Carmo, acrescentando: “Tenho ouvido histórias muito dolorosas e em todas as classes sociais.”

“Entre marido e mulher”Outra realidade que tem a ver com o espaço privado e que Isabel do Carmo aborda também nas histórias que relata é a da violência doméstica. “Era uma prática transversal a todas as classes sociais, era comum”. E a autora traça outro paralelo com a pedofilia. "É engraçado que pode dar impressão para o público de que agora há mais a violência doméstica, porque se fala mais do assunto”. E conclui: “A violência doméstica era o pão nosso de cada dia, sobretudo nas classes mais pobres, mas também nas outras.”

Portugal era o país onde havia ditados populares e adágios como “entre marido e mulher não metas a colher” ou “quanto mais me bates mais gosto de ti”. Daí que Isabel do Carmo afirme: “ Eu ouvi histórias actuais terríveis e de sujeição. Uma mulher cuja mãe apanhou toda a vida continua ela própria a apanhar. Tem hipótese de se separar, se quiser. Odeia o marido, diz que ele já lhe apontou com uma arma ao coração e, no fim disto tudo, diz 'Eu não quero separar-me, porque a minha mãe tinha um grande desgosto', isto é uma cadeia de sujeição.”

Isabel do Carmo sustenta que há uma dimensão no que é a violência doméstica em Portugal que tem a ver com quem fez a guerra colonial, que durou 15 anos, com as gerações de traumatizados de guerra que nunca foram acompanhados ou tratados. E que descarregaram na mulher e nos filhos. "Ouvem-se muitas histórias de stress pós-traumático, em que realmente há ambiente de violência dentro de casa.” E lembra uma outra história que abre para esta realidade: “Conheci uma senhora que, durante anos, dormiu com o marido que tinha uma granada na mesa-de-cabeceira.”

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