Quando a História ainda é possível

Primeiro e inestimável contributo para uma leitura da fotografia colonial portuguesa

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O fotógrafo Elmano Cunha e Costa com o padre Estermann em Angola: as imagens que o presente volume reúne e analisa foram produzidas em contextos de subordinação política, social e cultural ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO

Raramente um projecto ambicioso e cientificamente estruturado, na área das ciências sociais e humanas, alcança o estrito mundo editorial nacional, e revela-se um momento paradigmático num processo de conhecimento. Mas, de quando em quando, a excepção afirma-se, neste caso com a edição de O Império da Visão: Fotografia no Contexto Colonial Português (1860-1990). A edição desta obra é também relevante porque constitui um exemplo de resistência face às políticas educativas de desinvestimento que têm relegado a história, a sociologia, a antropologia e disciplinas afins para um papel fantasmagórico na cultura portuguesa.

Ainda mais pertinente esta edição se torna quando sabemos que todo o projecto de investigação subjacente à mesma só foi possível com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). O que pode muito bem ser simbolicamente assumido como uma resposta de excelência face à desistência da FCT, e de outros organismos congéneres, no apoio a projectos na área das ciências sociais e humanas, que têm sido escandalosamente preteridos nos concursos públicos, e encarados como menores numa hierarquia de conhecimentos.

O Império da Visão é o resultado final do projecto de investigação Conhecimento e Visão: Fotografia no Arquivo e no Museu Colonial Português (1850-1950), coordenado por Filipa Lowndes Vicente, e que teve a participação de muitos outros investigadores e consultores de várias áreas, como Isabel Castro Henriques, Joaquim Pais de Brito, Nuno Porto, Ana Cristina Martins, Catarina Mateus, Cosimo Chiarelli, Inês Vieira Gomes e James J. Ryan.

O projecto teve a ambição de mapear colecções fotográficas em arquivos e bibliotecas públicas cuja temática versasse sobre o império colonial português, procurando, desse modo, não só divulgar esses mesmos arquivos como congregar esforços institucionais e académicos na reflexão crítica dos mesmos. O projecto tem, pois, o mérito de constituir um primeiro levantamento sério das colecções públicas de fotografia colonial, estando prevista a construção de um site que disponibilize on-line todo o trabalho de recolha e conhecimento realizados.

No que diz respeito à publicação, o seu âmbito extravasa em muito as balizas cronológicas do projecto de investigação original, organizando-se como um reader sobre a fotografia colonial portuguesa, o que permite o cruzamento de múltiplas abordagens críticas e o conhecimento de muitas colecções fotográficas, a maior parte inéditas. Com o contributo de 29 autores de várias áreas do conhecimento das ciências sociais e humanas, O Império da Visão estrutura-se em quatro grandes capítulos:Classificação/MissãoConhecimento/CirculaçãoExposição/Reprodução e Resistência/Memória, procurando fixar-se nas linhas programáticas essenciais de produção da própria fotografia colonial, o que em certa medida pode seccionar demasiado a metodologia crítica, quando aos estudos pós-coloniais portugueses ainda falta pensamento relacional.

O enunciado geral permite obter um panorama, ainda assim parcelar, sobre os complexos mecanismos de construção da imagem em contexto colonial, e comprovar a volatilidade do próprio conceito em épocas e contextos diversos. É possível comprovar aquilo que já sabíamos empiricamente, que não existe uma fotografia colonial (conceito, aliás, que a coordenadora do livro, Filipa Lowndes Vicente, também questiona face aos últimos desenvolvimento historiográficos internacionais nesta área), mas múltiplas utilizações e produções de imagens em contexto colonial, cada uma delas passível de estruturas próprias e leituras que exigem um esforçado rigor crítico.

A extensa matéria deste livro, que analisa arquivos cuja temática versa a medicina, a botânica, a antropologia, a etnografia, ou mesmo colecções com origem mais política e económica, está também numa encruzilhada teórica, já que o próprio conceito de estudos pós-coloniais tem sido amplamente discutido, internacionalmente, nos últimos anos. Filipa Lowndes Vicente aponta no seu ensaio de apresentação do livro as inquietações que esta questão coloca aos investigadores nacionais, uma vez que o caminho percorrido pelos estudos pós-coloniais em países como a Grã-Bretanha ou a França obriga necessariamente a repensar a nossa abordagem, tão tardia, à nossa própria História nesta matéria.

O projecto e o livro elaboram várias abordagens, mas parece-me essencial que exista a construção de um discurso crítico que indague sobre a história das próprias fontes e do seu percurso político e que, ao mesmo tempo, consiga elaborar uma História que não é apenas nossa, sendo para isso necessário que as fontes sejam relidas pelos contextos culturais anteriormente colonizados.

É muito significativo que a coordenadora do projecto dedique grande parte do seu ensaio inaugural a questionar os limites éticos do estudo destas imagens, produzidas em contextos de subordinação política, social e cultural; interrogando-se sobre o direito dos investigadores a publicarem imagens que não foram produzidas para o ser, que foram, frequentemente, o resultado de actos de violência cometidos contra os povos colonizados. A sua resposta perante esta interrogação é que sim, devem ser publicadas, “Com consciência e reflexão” (p. 24), directrizes que defendidas como tendo sido criteriosamente seguidas na edição do livro, e que me parecem acertadas face à novidade dos materiais tratados.

Mas o âmbito desta atenção revela a susceptibilidade que o tema colonialismo ainda suscita no imaginário colectivo nacional, assim como a insegurança dos investigadores perante uma História que persiste em não se fazer, por razões que seria fundamental conhecer. Frequentemente, as instituições públicas que têm à sua guarda acervos documentais de interesse histórico resistem ao conhecimento transversal, daí que a concretização deste projecto seja por si só uma possibilidade de mudança na mentalidade dos poderes detentores das fontes da História.

Como a própria coordenadora afirma, os estudos reunidos neste livro são produzidos tanto por autores com obra mais consolidada na matéria, como por investigadores que se cruzaram com a fotografia colonial e nela reconheceram um potencial de estudo e análise. A edição ressente-se de alguma disparidade nas metodologias críticas, talvez consequência desta abordagem, ora escolhida ora ocasional, do objecto fotográfico, mas em nada compromete a dimensão da sua validade científica e historiográfica.

Falta, talvez, uma leitura crítica que, em cada capítulo, fizesse a análise transversal de cada estudo, algo que congregasse um pensamento abrangente sobre as linhas programáticas deste primeiro grande ensaio sobre a produção da imagem colonial portuguesa, articulando o mesmo com o estado actual dos estudos pós-coloniais e das suas divergências.

A agregação como consultor ao projecto de James R. Ryan, professor da Universidade de Exeter, na Cornualha, e um dos especialistas em fotografia e imperialismo britânico, procurou a internacionalização do mesmo, sendo meritória e fundamental para a afirmação dos investigadores portugueses. Diga-se, contudo, que o seu ensaio fica aquém do possível, comprovando que a especificidade e a matéria particular de cada realidade colonial não são assunto para leituras generalistas.

Este é um livro e um projecto que representam um início, fulgurante e ambicioso, para uma área concreta dos estudos coloniais portugueses. Oxalá possa ter o merecido reconhecimento institucional para que a sua continuidade seja assegurada, com o contributo de novos estudos e novas abordagens.