As últimas palavras de Nemtsov foram para criticar papel russo na Ucrânia

Boris Nemtsov ocupou o cargo de vice-primeiro-ministro no final dos anos 1990 e foi considerado por Ieltsin para lhe suceder. Em vez disso o Presidente foi Putin e Nemtsov morreu a 100 metros do Kremlin.

Nemtsov num comício em 2011 - o opositor era considerado um forte orador
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Nemtsov num comício em 2011 - o opositor era considerado um forte orador KIRILL KUDRYAVTSEV/AFP
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Flores e retratos de Nemtsov junto ao local onde foi morto Sergei Karpukhin/Reuters

A última tarefa que ocupava Boris Nemtsov, o político que se tornou dissidente e crítico de Vladimir Putin, era a denúncia da intervenção russa na Ucrânia, e a falta de reconhecimento de Moscovo de que os seus soldados estão a lutar no país vizinho.

Nemtsov foi morto a 100 metros do Kremlin, aos 55 anos, com quatro balas nas costas. Vinha de uma emissão na rádio Eco de Moscovo, onde tinha apelado à participação numa manifestação contra a guerra que estava marcada para este domingo. “A nossa marcha pode conseguir fazer o Kremlin pensar. Se aparecerem 100 mil pessoas, pode dar a volta ao Kremlin, e será um choque absoluto para eles”, disse Nemtsov. “Porque mente, sr Putin, comandante supremo? Renuncia aos nossos soldados, que estão hoje a morrer na Ucrânia”, declarou. Nemtsov acusou ainda Putin de “cometer um crime” com a anexação da Crimeia.  

Ao sair da rádio, acompanhado por uma amiga (a vida sentimental de Nemtsov era descrita como “colorida” e muitos comentadores antecipam que este poderá ser um dos focos da investigação à sua morte) foi atingido e morreu.

O Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, declarou que Namtsov foi assassinado porque planeava revelar provas do envolvimento russo na Ucrânia, que o Kremlin nega. O opositor russo tinha-lhe dito isso mesmo há algumas semanas, declarou o líder ucraniano.

Um político de oposição, Ilia Iashin, também confirmou que Nemtsov estava a investigar a participação de soldados russos na Ucrânia, um tópico sobre o qual escrevia recentemente nas redes sociais. 

Numa mensagem de condolências, Putin garantiu que “será feito tudo o possível para que os organizadores e executantes deste crime cínico recebam o castigo que merecem”. O Presidente disse ainda que Nemtsov “exprimiu sempre aberta e honestamente as suas posições” e que “deixará a sua marca na História da Rússia.”

Ameaças repetidas
Nemtsov, físico de formação, envolveu-se na política entusiasmado pelas mudanças da petrestroika. Foi governador da cidade de Nizhni Novgorod (mais conhecida pelo seu nome soviético de Gorki) aos 32 anos, um jovem reformador comprometido com ideias de liberdade e de funcionamento do mercado.

Seis anos depois, foi convencido por Boris Ieltsin para se mudar para Moscovo e ser vice-primeiro-ministro, cargo que ocupou entre 1997 e 1998 (e durante o qual foi superior de um ex-agente do KGB chamado Vladimir Putin). Em 1999, Ieltsin terá pensado em Nemtsov para lhe suceder. Mas acabou por escolher Vladimir Putin, acreditando que este seria o líder moderado de que a Rússia precisava, segundo a agência Reuters (também há quem diga que Nemtsov foi preterido por causa das suas raízes judaicas).  

Inicialmente apoiante de Putin, Nemtsov tornou-se em pouco tempo um dos principais críticos do Presidente. Passou para a oposição no início dos anos 2000, passando a denunciar as tentativas do regime cortar liberdades e, mais recentemente, o enriquecimento dos seus líderes. Focou-se em casos como a Gazprom, as residências que serão propriedade de Putin, e fundos desviados das olimpíadas de Sochi. Nemtsov foi uma das principais figuras dos protestos de 2012 contra o regresso de Putin, o Presidente que se tinha tornado primeiro-ministro à espera de ser novamente Presidente.

Ao mesmo tempo, o regime acusava-o de “traição” e de ter pilhado recursos do estado durante o clima de mudanças políticas dos anos 1990. Nemtsov e outros líderes da oposição processaram Putin por estas alegações, sem sucesso.

Ilia Iashin disse que Nemtsov recebia ameaças de morte com frequência. “Ele estava preocupado, mas não queria segurança. Dizia que se o quisessem matar, fá-lo-iam.”

O opositor não tem dúvidas: “O assassínio está ligado às actividades de Boris na oposição. Mataram um dos mais brilhantes membros da oposição russa para intimidar e semear o medo”, declarou.

Nemtsov é descrito como um dos principais opositores de Putin, mas apesar da sua importância e influência (observadores notam a sua forte oratória) nos últimos anos não era tão interventivo publicamente passando um pouco o testemunho a uma “nova guarda” de políticos mais jovens como Alexei Nalvani, que usou a sua candidatura à câmara de Moscovo em 2013 sobretudo para atacar Putin (e que está agora a cumprir 15 dias de detenção).

Numa entrevista este mês no diário Sobesednik, Nemtsov declarou: “Tenho medo de que Putin me mate”.

Do Kremlin veio a promessa rápida de uma investigação mas a linha de investigação parecia estar traçada: o porta-voz de Putin disse que o crime era “uma provocação” contra as autoridades. Putin tinha recentemente dito que a oposição estava à procura de uma figura a sacrificar. “Vão acabar com ele, e depois culpar as autoridades”, tinha dito Putin em 2012. Nemtsov tinha retorquido que era da responsabilidade de Putin e das agências de serviços secretos impedir este crime. “Tem de fazer tudo para o impedir e não assustar publicamente os russos.”

Marcha no domingo
As últimas investigações a crimes de opositores, como Sergei Iushenkov, morto a tiro horas depois de registar o seu partido liberal para eleições em 2033, Anna Politkosvkaia, jornalista que investigava crimes na Tchetchénia morta também em Moscovo, no elevador do seu prédio, em 2006, ou de Alexander Litvinenko, ex-espião que acusou o regime de vários crimes, morto em Londres no mesmo ano, acabaram com processos não totalmente esclarecidos.

Os opositores russos dizem que o assassínio de Nemtosv marca uma subida no grau de ameaça. “Agora que Boris morreu, nenhum de nós se pode sentir seguro. Deveríamos levar mais a sério as ameaças de morte que recebemos”, disse o deputado Dmitri Gudkov.

“Poderíamos imaginar que o líder da oposição fosse morto às portas do Kremlin? Não. O país está a cair pela ribanceira abaixo”, disse o também opositor e antigo primeiro-ministro Mikhail Kasianov numa entrada emocionada no seu blogue.

“Há três anos, éramos uma oposição. Agora não somos mais do que dissidentes”, tinha dito Nemtsov ao Financial Times ainda este mês. “A tarefa é organizar uma oposição real de novo.”

A marcha de domingo contra a guerra, que estava planeada para os arredores de Moscovo, vai-se transformar numa acção pela memória de Nemtsov que terminará no centro da capital, na ponte onde foi assassinado.