Crítica

A musa desinspiradora

Rui Massena: tentativa confrangedora de criar uma imagem de romântico inspirado do século XXI, ao piano.

O novo “maestro pop” conhecido da televisão lança agora um disco chamado <i>Solo</i>
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O novo “maestro pop” conhecido da televisão lança agora um disco chamado Solo

Rui Massena é famoso sobretudo pelas suas aparições televisivas. Mas aqui apresenta-se como compositor e pianista. Se faz sentido falar deste disco, infelizmente não é pelas suas qualidades, mas para percebermos a que ponto pode chegar a tentativa de criar e promover uma certa imagem da música clássica. Na TV ele é um músico jovem e brincalhão de aparência moderna (para variar da imagem do velhinho engraçado, mas mantendo os cabelos no ar), divulgador light de música “séria”, e ao mesmo tempo reforçando a imagem de compositor e intérprete inspirado (o modelo ainda é Beethoven): muitos acharam que o futuro da música erudita dependia da superfície — ou se mudava o “estilo” para mostrar como é fixe a música clássica, ou o seu público novo desapareceria, porque já poucos iam querer música de peruca. E assim a coisa passaria a ser jovem, moderna, fácil de entender e fácil de consumir. Rui Massena pode até ser sincero nas suas intenções, apesar dos imensos artifícios de que se socorre para construir esta imagem de romântico apaixonado para o século XXI. Mas as intenções não chegam.

O novo “maestro pop” conhecido da televisão lança agora um disco chamado Solo, em que reúne e toca ele mesmo algumas das suas composições ao piano. E apresenta-as com a pretensão de uma grande estrela. Será mesmo? Então vamos lá ouvir o disco e ler o livrinho.

Antes de mais, salta à vista o pretensiosismo: em D-Day Rui Massena escreve que se trata de “uma metáfora” do seu “desembarque enquanto compositor”, numa guerra consigo próprio. Pena que a Normandia do compositor seja uma música que, de uma ponta à outra, é o contrário da afirmação de uma identidade própria. Batalha perdida: onde é que eu já ouvi isto? O tema Presente no futuro, outro bom exemplo, pretende ser uma reflexão sobre Portugal em 2030 — “uma canção que tem a esperança do futuro assente num presente criativo”. Mas o resultado é muito pouco criativo: um chorrilho pseudo-romântico de frases musicais onde a banalidade é empolada e pintada em cores melancólicas normalizadas.

Em Família abundam os clichés de “música de filme”. E que pobres imagens suscitam! Seguem-se Flocos, em que a ilustração sem saída se socorre de fundos etéreos para fazer uma paisagem lambida onde se brinca “à Satie”. Mas Satie tinha sentido de humor precisamente levando ao extremo os tiques românticos para os desmontar, e não para os exaltar de forma bacoca. As imagens prosseguem em Dias assim, agora em versão intimista. No entanto, o que sai cá para fora é música de centro comercial, até surgirem sequências harmónicas que a pop despretensiosa já usou mil vezes melhor. E regressa o entretenimento de ir às compras. Igualdadetem ambições ainda maiores: começar “com o som de Debussy” (?) e fazer com as “notas pretas do piano” um tema de sabor jazzístico e “impressionista” que não nos leva a lado nenhum. “Notas pretas”? Não quererá dizer “teclas pretas”? “Metáfora à igualdade”? Às vezes mais valia não escrever sobre a música que se faz. E esta peça até é das mais agradáveis. Para o assunto da igualdade entre as teclas pretas e brancas, é preferível ainda assim consultar a excelente canção anti-racista Ebony and ivory, de Stevie Wonder e Paul McCartney.

Rui Massena pode achar “perfeitos” os seus concertos — um certo convencimento de si faz sempre parte de uma afirmação como artista. Talvez até tenha graça acabar um tema de auto-promoção chamado Carnegie Hall com uma citação vaidosa de My way. Presunção e água benta... Mas este disco deixa-nos perplexos quando pensamos a que ponto podem chegar a auto-complacência e um certo “desejo de estrelato” (do artista e do mercado). Rimos ou choramos ao ouvir Clarinha? Rui Massena diz ser a sua musa. Ó Clarinha, não podias ter inspirado qualquer coisa menos oca em vez de música de anteontem e decorações aborrecidas para vidas de tédio?

Infelizmente o disco não acaba com a musa desinspiradora. Vem ainda Porque não?, uma peça a que o compositor devia ter respondido logo: se calhar não, se só vão sair coisas ideias estafadas e pieguices vazias. 13 é uma tentativa dramática falhada, com a curiosidade de ser uma encomenda de um clube de futebol, o que também já não é novidade. Finalmente Techno line, um último regresso modernizado às “amelices” de cinema, brincando aos clássicos sem graça. Acabou? Ufa!