O que une os jogadores patológicos? Começaram a carreira a ganhar

Comparação entre jogadores patológicos que preferem o online, e os que apostam sobretudo nos casinos e bingos reais mostra que os primeiros atingem a fase da dependência cerca de dez anos antes dos segundos.

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São sobretudo homens. Com a excepção do poker, preferem jogos mais solitários, como as slot machines, a banca francesa, ou ainda as apostas desportivas, muitas vezes feitas à medida que decorre um jogo de futebol, por exemplo. Quantos golos vão ser marcados? Quem vai marcar o golo seguinte? Quem vai fazer falta?

Tudo é motivo de aposta em tempo real nos sites da especialidade. Mas há mais características comuns aos chamados jogadores patológicos, prefiram eles os tradicionais casinos e bingos ou o computador. Desde logo, esta: entre 50% e 60% dos que participaram num estudo nacional contaram que ganharam prémios significativos nas primeiras vezes que apostaram.

Já entre os chamados jogadores recreativos, sem sintomas de dependência, a percentagem dos que relatam ter tido ganhos dignos de nota nas suas primeiras experiências ronda os 14%. No jogo, a tão famosa “sorte de principiante” pode ser, afinal, uma espécie de maldição?

“É um sinal de alerta para as pessoas que têm uma predisposição para a adição. É mesmo um preditor de problemas, porque o que fica registado de forma muito intensa do ponto de vista emocional é o ‘isto dá’. E se juntarmos isto aos traços clássicos de personalidade do jogador, que são a iniciativa, a grandiosidade, a vontade de poder, o ‘isto dá’ é ‘eu sou melhor do que os outros’, ‘eu sou especial e diferente’”, explica o psicólogo Pedro Filipe Hubert, que defendeu no mês passado uma tese de doutoramento onde traça o perfil dos “jogadores patológicos online e offline”.

Prossegue Pedro Hubert: “Tive um paciente que era espanhol e ele contava que na Andaluzia havia uma praga cigana que era esta: ‘Espero que vás ao casino e ganhes.’ Era uma praga, é revelador.”
Perto de 1800 pessoas responderam a diferentes tipos de questionários: um para jogadores online outro para jogadores offline, conforme o seu modo preferencial de apostar.

O questionário foi colocado num site criado para o efeito. O projecto de investigação foi divulgado em jornais, revistas e televisão. Quem aderisse receberia, depois de devidamente preenchido o questionário, um diagnóstico rápido: em que fase está? Recreativa, abusiva ou patológica? Uma espécie de recompensa pelo esforço. Foram validados inquéritos de 1599 participantes, entre os 16 e os 80 anos. 

Destes, 26,7% dos jogadores que jogam preferencialmente em espaços físicos, os chamados jogadores offline, foram considerados patológicos. O mesmo aconteceu com 17,8% dos jogadores online, os que usam mais os jogos virtuais.

Há um estádio intermédio, antes de se chegar ao comportamento patológico: são os chamados jogadores abusivos, “ou seja, em risco de dependência”. E quase metade dos 1600 inquiridos apresentam características que os colocam nesse estádio, o que preocupa o investigador. Jogadores recreativos, apenas 30,1%.

Pedro Hubert sublinha que este é o primeiro estudo no país que identifica e compara “os diversos elementos referentes a estas populações”. O que permitirá, desde logo, traçar melhores estratégias de prevenção. A amostra, alerta, não é contudo representativa dos jogadores portugueses em geral. “Porém, pretendeu-se alcançar a representatividade da população de jogadores patológicos em Portugal pela grande dimensão” do grupo de participantes.

O Governo prepara-se para dar esta semana luz verde à nova lei do jogo online, em Conselho de Ministros. A Inspecção de Jogos do Turismo de Portugal e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa passarão a ter acesso a uma base de dados onde constam informações pessoais (como a idade e o número de contribuinte) de quem se regista nos sites online e de quem faça apostas em locais físicos. Além disso, a publicidade aos jogos é permitida, mas com mais limitações para proteger os menores e os grupos mais vulneráveis.

O valor do dinheiro
Algumas conclusões do estudo de Pedro Hubert: os jogadores patológicos offline são mais velhos (média de 40 anos), os online mais jovens (média de 30). Os primeiros, mais do que os segundos (32% contra 25%), dizem já ter tido um diagnóstico de depressão. E o mesmo se passa quando se pergunta se já tiveram problemas com a justiça (10,6% dos patológicos offline e 3,5% do patológicos online dizem que sim).

Em ambos os grupos, as tentativas de suicídio são elevadas (8% relatam já ter tentado pôr termo à vida). E o consumo de outras substâncias (álcool, drogas e tabaco), sendo, em geral, mais baixo do que o verificado em estudos feitos com jogadores noutros países, é mais elevado nos jogadores dependentes offline, o que estará relacionado com a “carreira mais longa de jogo”.

Fica demonstrado um “continuum” de “uso-abuso-dependência” nos dois tipos de jogadores. Mas há diferenças: “Apesar de seguir uma curva ascendente semelhante, os jogadores patológicos online atingem a fase da dependência cerca de 10 anos antes dos jogadores patológicos offline, o que permite contemplar a forte probabilidade de que o modo online constitui um acelerador dos factores de risco”, escreve Hubert na sua tese.

Os jogadores patológicos online apostam quase todos os dias da semana (mais de quatro dias contra 2,6 no caso dos offline) e mais horas por dia. E fica fácil perder a noção do dinheiro. “No jogo online, este fenómeno de relativização é frequentemente relatado pelos próprios jogadores que utilizam o multibanco ou o homebanking em mais de 70% das ocasiões”.

Os jogadores offline gastam em média mais, mas quando se procurou saber quantos dos inquiridos já tinham gasto mais de 10.000 euros num só dia, as respostas foram estas: 4,7% dos jogadores patológicos online e 4,1% dos offline já o fizeram. “Poder-se-á falar em maior descontrolo, maior perda de noção do dinheiro, maior impulsividade e resgate, na euforia do jogo por parte dos jogadores patológicos online[...] pelo menos no que respeita a valores elevados”, escreve Hubert.

São precisos mais estudos para concluir pela “maior perigosidade do que o modo de jogo offline”, diz Hubert. Mas há sinais. Os jogadores patológicos valorizam no jogo online o anonimato, a privacidade, a comodidade, a acessibilidade e a disponibilidade — na Internet os casinos nunca fecham e as apostas fazem-se em qualquer altura.

Os jogadores “mistos” também suscitam preocupações (80% dos jogadores patológicos da amostra jogam online, mesmo que o seu modo preferencial seja o offline). “Acho que se vai caminhar cada vez mais para a pessoa sair às três da manhã do casino, beber uns copos e ir para casa jogar no seu computador, continuar a jogar”, diz o psicólogo. E isso é um factor acrescido de vulnerabilidade.

A tese de Pedro Hubert tem o título “Jogadores patológicos online e offline: caracterização e comparação”, foi apresentada na Universidade Autónoma de Lisboa e recebeu a classificação de 17 valores e a qualificação de Muito Bom.

Perfil do jogador patológico online:
– Sobretudo do sexo masculino (mulheres são 20,7%)
– Média etária: 30 anos
– Solteiro, se há relação é estável. Sem filhos
– Predomina 12.º ano (42,9%) e licenciados (38,7%)
– Suburbano/urbano
– 38% em agregados familiares com mais de 40 mil euros por ano
– Profissões “intelectuais/científicas”; comercial
– Também joga offline
– Joga sobretudo poker, Euromilhões e faz apostas desportivas
– O que o motiva mais no jogo online é a fácil acessibilidade, disponibilidade e comodidade
– Muitas horas de jogo por dia, entre as 17h e a uma da manhã, solitariamente.
– Gasta menos dinheiro do que o jogador offline
Stress e ideação suicida; depressão e ansiedade
– Forte euforia, evasão, sensação de que o tempo passa depressa
– Por vezes substitui jogo por ver televisão ou fazer compras
– Consumo de tabaco problemático
– Tem historial de relação com jogos e computadores que remonta em média aos 16 anos.
– Sentimento de culpa, relatos de críticas e conflitos
– Aposta mais do que pretendia, sem conseguir parar

Perfil do jogador patológico offline:
– Sobretudo do sexo masculino (mulheres são 27,4%)
– Média etária de 40 anos
– Relação conjugal estável. Com filhos
– Predominam licenciados (40,8%) e 12.º ano (35%)
– Suburbano/urbano
– 41% em agregados familiares com mais de 40 mil euros por ano
– Profissão intelectual/científica, gestor, ou empresário
– Sente-se atraído pela ideia de ganhar dinheiro e pelo divertimento
– Aposta no Euromilhões, nos jogos de cartas e usa as máquinas no casino
– Também joga online (faz mais apostas online do que os jogadores online apostam offline)
– Muitas horas de jogo por dia, sobretudo entre as 17h e a 1h, solitariamente
Stress e ideação suicida; depressão e ansiedade
– Forte euforia, evasão, sensação de que o tempo passa depressa
– Por vezes substitui jogo por ver televisão ou exercício físico
– Consumo de tabaco problemático
– Determinação/obsessão no resgate (vontade de recuperar o dinheiro perdido).
– Sentimento de culpa, relatos de críticas e conflitos
– Aposta mais do que pretendia, sem conseguir parar