Torne-se perito

Já vimos este filme independente nos Óscares

Vinte anos depois de Pulp Fiction, o filme que mudou tudo para o cinema indie nos EUA, ter perdido nos prémios da Academia, a cerimónia desta noite divide-se entre Birdman e Boyhood.

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Michael Keaton Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância, de Alejandro G. Iñárritu DR

Há 20 anos, um pequeno filme de um jovem realizador esperava pelo Óscar. Já tinha a Palma de Ouro de Cannes, fez-se popular no circuito dos festivais europeus, ganhou os prémios dos críticos e tornou-se o primeiro indie a ganhar 100 milhões de dólares na bilheteira. Nessa noite, Al Pacino e Robert De Niro entregaram o Óscar a Forrest Gump. Pulp Fiction, o filme que mudou a forma como o cinema independente se faz e promove nos EUA, ficou para trás. Esta noite, o risco de o Óscar fugir a um indie como Boyhood ou Birdman é escasso - é que há muitos na corrida, mas sobretudo porque já vimos este filme independente. É aquele que Hollywood tratou de assimilar.

Os oscarologistas já fizeram as suas apostas - Birdman e Boyhood são os grandes candidatos, mil contas feitas depois dos sinais emitidos pelos outros prémios - e continua a ouvir-se que há uma “sensação indie e de festival de cinema” entre os que competem pelo Óscar de melhor filme, como escreve a Hollywood Reporter. Cheira a Sundance e a baixo orçamento. 

Parte da temporada de prémios deste ano foi passada a discutir segmentos. O dos quase ignorados, como Selma depois de 12 Anos Escravo reaproximar Hollywood da história negra -“É como se a Academia nos dissesse: ‘Calma, amigos. Sabemos que o ano passado foi espectacular, mas lembrem-se: somos os tipos que preferiam Forrest Gump a Pulp Fiction. Quando se trata de nos desviarmos em vez de fazer história, não perdemos o jeito’”, irritou-se Robbie Collins, crítico de cinema do Telegraph, a propósito do tratamento dado ao filme sobre Martin Luther King. Também se esmiuçaram as histórias reais e sua verosimilhança (Selma, Sniper Americano, O Jogo da Imitação), e falou-se dos actores britânicos, que pela enésima vez encenam a sua invasão - Eddie Redmayne pode roubar o Óscar de melhor actor ao Birdman de Michael Keaton com o seu Stephen Hawking de Teoria de Tudo, por exemplo.  

E, finalmente, o foco dividiu-se entre a indústria que se celebra, e que por isso escolherá Alejandro G. Iñárritu e o seu Birdman ou a Inesperada Virtude da Ignorância, como fez em 2013 com Argo e em 2012 com O Artista, e a indústria que pisca o olho ao pedigree indie que entretanto acolheu - e por isso escolherá Boyhood, de Richard Linklater. O primeiro custou à Fox Searchlight, a divisão de especialidade da major homónima dedicada ao cinema independente, 16,5 milhões de dólares. O segundo, financiado pela IFC Films - sigla para Independent Channel Films -, foi feito ao longo de 12 anos por 2,4 milhões. “Era um filmezinho ‘artístico’ de que a maioria nunca iria ouvir falar porque foi feito sem dinheiro e não tinha dinheiro para marketing”, como descreveu Boyhood a forte candidata à estatueta de melhor actriz secundária, Patricia Arquette, ao PÚBLICO há um ano em Berlim.

Onde estávamos nos anos 90?
O cinema independente, que os compêndios nos dizem ser uma produção e distribuição feita fora dos grandes estúdios e tradicionalmente com pouco dinheiro, visto das colinas de Hollywood em Fevereiro de 2015 também pode ser isto: o domínio de sete dos oito candidatos ao mais cobiçado dos prémios, o dourado homem que atesta que o seu detentor fez o melhor filme de 2014. Sniper Americano (Warner, 58 milhões) é o filme de estúdio oficial da corrida. Os outros sete  custaram menos de 30 milhões de dólares e têm caução de estreias ou prémios em habitat de festival - Boyhood entre Sundance e Berlim, onde conviveu com Grand Budapest Hotel de Wes Anderson, Birdman em Veneza, A Teoria de Tudo em Toronto, Nos Limites (Whiplash) novamente em Sundance e O Jogo da Imitação, distribuído pela Weinstein Co. Sundance e Weinstein, as duas forças que nos trouxeram aqui. Que não é exactamente onde estávamos no início da década de 1990. 

Para o historiador de cinema Peter Biskind, tudo começa com Sexo, Mentiras e Vídeo (1989), entre Cannes e o festival que viria a chamar-se Sundance, onde ganhou o prémio do público. Steven Soderbergh, os irmãos Bob e Harvey Weinstein e Robert Redford como os pistoleiros que pegaram na caravana indie e a levaram até o Oeste do sucesso comercial - leia-se Hollywood. Ou, como diz Hawke no livro de Biskind, Down and Dirty Pictures - Miramax, Sundance and the Rise of Independent Film, que tornaram o cinema independente “sexy”. Não só a Miramax, a distribuidora fundada em 1979 pelos irmãos Bob e Harvey Weinstein “transformou a distribuição, mas eles mediaram um casamento do indie e do mainstream que resultou num novo tipo de filme que fez mais do que ter sucesso no outro lado - trocou ADN com os filmes comerciais”, escreve Biskind: O Meu Pé Esquerdo, Kids, Clerks, Jogo de Lágrimas. Primeiro veio um certo cinema low-budget, americano e britânico, e depois chegou uma suposta nova sensibilidade do público e dos filmes assumidamente comerciais. 

“Dos anos 1990 em diante, um número crescente desses pequenos filmes ‘independentes’ começou a ser financiado, produzido e distribuído por empresas que pertencem aos mesmos conglomerados de entretenimento que os grandes estúdios”, lembra Yannis Tzioumakis, professor de Comunicação e Media da Universidade de Liverpool, no site The Conversation. “E à medida que os anos passaram estas empresas disponibilizaram orçamentos e recursos de marketing cada vez maiores mesmo para os filmes ‘pequenos’.” Uma lição aprendida com Pulp Fiction (1994). Custou cerca de 8,5 milhões de dólares e a Miramax tratou de o distribuir em massa, ao contrário da tradição dos pequenos filmes que crescem com o passa-palavra, e de o promover agressivamente. Fez mais de 213 milhões. 

Isso “transformou a atitude da indústria para com os pobres indies”, escreve Peter Biskind em Down and Dirty Pictures, e nasceram divisões como a Fox Searchlight (Birdman, Grand Budapest Hotel), a Sony Pictures Classics (Nos Limites, Foxcatcher) ou a Focus Features da Universal (Teoria de Tudo). 

A outra agenda

Ainda assim, os representantes desta nova estirpe de indie saúdam a Academia, porque afinal, segundo Ethan Hawke, prémios como os Óscares “são importantes para o cinema indie. É como os filmes independentes sobrevêm no turbilhão corporativo. São importantes, mantêm-nos todos a lutar e isso torna o cinema independente parte da cultura popular”, disse ao site Deadline depois de ter sido nomeado como melhor actor secundário pelo seu pai divorciado de Boyhood - embora o prémio pareça já estar entregue ao duro professor de jazz de J.K. Simmons em Nos Limites

“Os prémios são a forma de a indústria se publicitar. Se não tivéssemos prémios, então os produtores não tinham uma agenda. A única agenda seria fazer dinheiro e os prémios criam uma contra-agenda de algo mais substancial.” 

Mas em 2004, quando foi publicado Down and Dirty Pictures, Soberbergh já avisava: “O movimento do cinema independente, tal como o conhecíamos, simplesmente já não existe e talvez já não possa existir.” Uma década depois, e duas após Pulp Fiction, entre os nomeados há apenas um filme independente, defende Yannis Tzioumakis. O Jogo da Imitação, que é distribuído pela Weinstein Co., sem laços empresariais com as majors nem com as multinacionais que as detêm - até a IFC Films de Boyhood vexa o professor, por ser parte do conglomerado de média AMC Networks.

E se falamos em 2004, podemos recuar ainda mais. Este indie made in América que agora parece ser novamente coroado nos Óscares - depois da vitória de 12 Anos Escravo, um filme de 22 milhões de dólares com ligações à Fox -, que é herdeiro de Sexo, Mentiras e Vídeo e de Pulp Fiction, já nem existia verdadeiramente em 1995 quando Tarantino recebeu o Óscar de melhor argumento com Roger Avary para Pulp Fiction. A Disney já tinha comprado a Miramax aos Weinstein por 60 milhões de dólares em 1993. 

Portanto, ainda que o gigante Forrest Gump (1994) sozinho tenha feito dois terços das receitas de bilheteira dos conjunto dos oito pequenos e médios filmes em contenda em 2015, “os Óscares deste ano não sugerem uma mudança nos gostos da Academia”, defende Tzioumakis. “Em vez disso, demonstram que as majors de Hollywood continuam a tentar copiar e assimilar o sector do cinema independente”, continua professor de Comunicação e Media de Liverpool. “Os underdogs não são de facto e de todo underdogs, mas parte de Hollywood.”

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