Chico e o romance que nasceu de acasos

Chico Buarque regressou à literatura com uma autoficção. O Irmão Alemão era o livro que precisava de escrever mas pode ter sido uma armadilha.

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Chico Buarque foi um dos escritores distinguidos dr
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BOB WOLFENSON

Uma grande história pode não dar um grande livro e em alguns casos a realidade é melhor do que a ficção. Mas há coisas às quais não podemos escapar. O Irmão Alemão (ed. Companhia das Letras) é um livro que Chico Buarque precisava de escrever.

Uma obra em que o autor de Budapeste se aventura na autoficção, partindo de uma história verdadeira da sua família para a efabulação: o seu pai, Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), antes de casar com a brasileira Maria Amélia teve uma namorada alemã em Berlim, Anne Ernst, de quem teve um filho, Sérgio Günther, que ele nunca conheceu pois só soube da sua existência quando já não estava na Alemanha. 

E se no livro, os conhecedores da biografia do compositor Chico Buarque se vão divertir com este jogo que o autor faz entre ficção e realidade - o narrador chama-se Francisco e alguns dos episódios que são abordados no romance de alguma maneira aconteceram com o compositor, como o roubo de carros na juventude, por exemplo -, terão a sensação de que a determinada altura o livro se perdeu ou que o autor se perdeu no livro. E isso ainda é mais notório, quando se pensa em como era bem arquitectado o seu romance anterior, o premiadíssimo  Leite Derramado.

Mas mesmo que O Irmão Alemão fosse o menos conseguido dos cinco romances de Chico Buarque – e apesar de tudo não o é - já valia a pena existir por causa de ter levado o autor a resolver um antigo mistério familiar e de ter finalmente conhecido a sua família alemã.

O editor brasileiro de Chico Buarque confirma-o ao Ípsilon. “Esse livro tem uma importância pessoal muito grande para o Chico. A sua literatura sempre esteve muito relacionada com o pai, Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), que foi um grande historiador mas também um grande crítico literário. Chico é um grande leitor e a sombra da biblioteca do pai - que de alguma forma se transforma em romance - está presente na vida do escritor”, diz Luiz Schwarcz, que considera que este livro trouxe novos desafios a Buarque, 70 anos, que o fez ousar mantendo o cuidado e a dedicação suprema que habitualmente dá a cada frase e a cada palavra das suas narrativas. “É um livro muito importante para a carreira dele e que lhe trouxe enorme satisfação porque junto do livro ele descobriu o irmão”, afirmou.

A divisão no Brasil
Mas, tal como escreveu o editor da revista Serrote Paulo Roberto Pires na crítica que fez ao romance no Blog do IMS (Instituto Moreira Salles), “trata-se de uma grande história que resulta em uma narrativa pelo menos um ponto abaixo de suas possibilidades”. O crítico nota que a primeira parte do livro, dedicada à juventude da personagem Francisco de Hollander, o narrador “Ciccio, que assim é chamado por Assunta, a mãe italiana, é cem por cento Chico Buarque, o escritor: narrativa nervosa, um humor gauche muito peculiar, a perambulação pela cidade, as mulheres como musas ambíguas”. Mas, à medida que a leitura avança, “o amadurecimento do personagem vai drenando a mão firme do estilista, que atropela tempo e espaço, como se quisesse logo chegar ao final, quando o tom soa protocolar na busca do irmão – toda ela autenticada num breve pós-escrito e na ‘nota’ que faz o ‘making of’, extraliterário, de sua busca”.

O crítico Marcelo Coelho, no jornal Folha de São Paulo, acrescenta que no romance se encontram "as qualidades de Chico Buarque escritor” - “não há nenhuma palavra mal escolhida, nenhuma frase fora do ritmo, nenhum parágrafo a que falte estrutura, nenhum capítulo que não acabe no momento certo” - mas, se “as palavras estão perfeitas", "a música de O Irmão Alemão, contudo, deixa a desejar”.

Também na Folha de S. Paulo, o académico e crítico literário Alcir Pécora escreveu que “a novela poderia guardar o encanto secreto das narrativas de busca, articuladas à tópica do duplo, não caísse em armadilhas fatais, que a tornam basicamente insossa.” Nomeadamente pela “incapacidade de ajustar o tom picaresco da narração” ou por “construir o passado com um realismo postiço, composto de marcas de carros, nomes de ruas, bares da moda, artistas, restaurantes, etc., de uma São Paulo de 1968”.

Outra opinião tem Humberto Werneck, que escreveu no Estado de S. Paulo que em O Irmão Alemão “realidade e ficção foram combinadas com talento e mão precisa. Em outras palavras - o romance não é bom porque é boa a história de Sergio Günther: na pena de um romancista, ela nunca chegaria a tanto”, considerou. Para este especialista na vida e obra do compositor, nunca se viu “tanto Chico num romance de Chico Buarque” e pelo texto até foi encontrando dezenas de “irretocáveis alexandrinos” e decassílabos. Também o crítico José Castello, em O Globo, disse que estes “fantasmas e visões – se espalham pelas páginas. O que confere à literatura o carácter vital, ainda que assombrado, de máquina propagadora da realidade”.

A história de um livro
Se tal como acredita Luiz Schwarcz, que esteve em Lisboa a lançar este livro na Fundação Saramago, os grandes motores das nossas paixões e vidas são os acasos e as coincidências, este romance tem muito de acasos. “O primeiro foi como Chico soube da existência desse irmão por uma indiscrição do poeta Manuel Bandeira numa roda de samba. O pai do Chico tinha relações com as altas rodas da literatura mas também com as altas rodas do samba: Pixinguinha, Vinicius de Moraes... Uma ocasião, na década de 1960, o poeta falou que o pai de Chico tinha deixado marcas profundas na Alemanha sem que ninguém da família soubesse. Essa sombra do irmão alemão permaneceu durante muito tempo, em algumas biografias ele é referido, mas nunca ninguém da família - enquanto a mãe do Chico estava viva - procurou saber o que lhe tinha acontecido”, contou Schwarcz no seu discurso de lançamento de O Irmão Alemão em Lisboa.  

Tal como de costume, depois da sua última tournée, Chico Buarque ligou ao editor e disse-lhe que “estava pensando” em algumas ideias para o novo livro. Pediu-lhe que lhe enviasse os melhores livros que tivesse publicado ultimamente. Schwarcz mandou-lhe, entre outros, Austerlitz, de W.G. Sebald e Paris - A Festa Continuou, de Alan Riding, um livro sobre a ocupação alemã em França. Depois das leituras Chico ligou-lhe a dizer que estava a pensar no irmão alemão, achava que ele talvez tivesse morrido num campo de concentração.

O escritor tinha sabido recentemente que o pai tinha tentado ajudar esse filho, pois depois da morte da mãe encontrou documentos em que o pai tentava responder ao governo alemão, nazi, que queria que ele provasse que o filho tinha origem ariana e não semita até quatro gerações. E começou a escrever um romance baseado naquilo que sabia desta história. Mas o livro estava a ser uma tarefa mais difícil do que o habitual. Um dia, já Chico trabalhava no livro há mais de um ano, ligou ao editor e confessou: “Luiz, tive um bloqueio. Não vou conseguir escrever sobre o meu irmão sem saber o que aconteceu realmente com ele. Não consigo. Estou a fazer uma obra de ficção mas mesmo assim não consigo escrever sem saber se ele está vivo ou se morreu.”

Foi nessa altura que a Companhia das Letras contactou investigadores na Alemanha para que descobrissem o paradeiro do irmão de Chico. E descobriram. “Chico foi para a Alemanha, o irmão tinha falecido da mesma doença que o pai, doença de pulmão, era muito semelhante ao pai, tinha a voz idêntica, assobiava identicamente e mais, outros acasos, era mulherengo, cantor e teve uma posição importante na Stasi (a polícia secreta)  e na política cultural alemã. Essa é um pouco a história de O Irmão Alemão que na minha opinião consolida uma relação de Chico Buarque com seu pai”, concluiu Luiz Schwarcz que lembrou que, quando Chico Buarque lhe foi mostrar pela primeira vez nos anos 1990 o primeiro capítulo do seu primeiro romance, Estorvo, lhe disse: “Estou tão nervoso, parece que estou entregando para o meu pai e ele dizendo: ‘Literatura é coisa séria, Chico’.”