Pediatra é a nova directora clínica do Amadora-Sintra

Administração não esclarece se directores de serviço demissionários retiraram ou não pedido de demissão. Fonte da unidade diz apenas que ficam como médicos.

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JOÃO CORTESÃO

Os 28 directores de serviço do Hospital Amadora-Sintra que tinham pedido a demissão em bloco, devido à falta de condições de trabalho e de recursos humanos, vão continuar como médicos no hospital, que passa a ter uma nova directora clínica, a pediatra Helena Isabel Almeida, segundo uma fonte da unidade de saúde.

Num curto comunicado divulgado ao início da tarde desta quarta-feira, o Conselho de Administração do hospital não esclarece se o pedido de demissão dos directores de serviço se mantém. Adianta apenas que "manifestou disponibilidade para a elaboração de um documento conjunto, a enviar à tutela, no sentido de apresentar, uma vez mais, os problemas e respectivas propostas de solução". A questão das demissões não terá sido discutida, uma vez que será a nova directora clínica a indicar os directores de serviço, explicou a mesma fonte da unidade de saúde.

Contactado pelo PÚBLICO, um dos directores de serviço demissionários escusou-se a prestar declarações, adiantando apenas que "tudo continua como antes".

O nome da nova directora clínica, que era responsável pela grupo de crianças em risco, foi conhecido no final da reunião entre a administração e os directores de serviço que tinham colocado o cargo à disposição. A pediatra vai substituir o gastrenterologista Nuno Alves, que já tinha pedido para sair há três semanas, depois da onda de contestação de muitos profissionais, que diziam não se rever na sua liderança.

Sem recursos nem estratégia
O pedido de demissão dos 28 (de um conjunto de 33) directores de serviço do Hospital Fernando da Fonseca (conhecido por Amadora-Sintra) foi conhecido na terça-feira, mas a carta em que colocaram o lugar à disposição tem data de 11 de Fevereiro. Os médicos queixavam-se da "ausência de uma estratégia para evitar a contínua degradação das condições de trabalho e assistenciais do hospital" e frisavam que, desde há dois anos, a situação tem-se agravado.

Insistiam na escassez de recursos humanos e argumentavam que a administração e a direcção clínica não tinham sido capazes de "defender os interesses da instituição e das populações", avisando ainda que muitos dos problemas com que se depararam tinham sido "previstos" e que foram apresentadas propostas de soluções. Entre as especialidades mais afectadas pela falta de recursos, destacavam a Imagiologia/Neurorradiologia e a Anatomia Patológica, mas alertavam igualmente para a "diminuição preocupante do número de anestesistas e os problemas do Serviço de Urgência".

Mais tarde, em conferência de imprensa, o presidente da Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo reconheceu a existência de dificuldades neste hospital, sobretudo na urgência, que atribuiu a internamentos mais prolongados e à falta de médicos.

“Nós não escamoteamos a verdade […], o número de doentes que vai aos serviços de urgência não aumentou, mas temos doentes mais graves, doentes mais idosos, mais doentes internados", disse Luís Cunha Ribeiro.

"Não há milagres"
Admitindo que há falta de médicos nos outros serviços, Cunha Ribeiro notou que já este ano foi autorizada a contratação de 12 novos médicos e que em 2014 o hospital recrutou, no total, 120 novos profissionais de saúde, entre médicos, enfermeiros e técnicos. Pelas contas de Cunha Ribeiro, de 2013 para 2014 houve uma diminuição de quatro médicos num universo de 400. Reconheceu que são necessários mais profissionais, mas enfatizou que "não há milagres": "Nós não temos médicos que cheguem no país em algumas especialidades.”

Não foi a primeira vez que médicos do Amadora-Sintra entregaram um pedido de demissão. Em Janeiro de 2014, a direcção das urgências do mesmo hospital também chegou a apresentar um pedido idêntico, alegando que as condições de trabalho de então colocavam em risco a qualidade mínima no atendimento e a vida dos doentes. A situação acabou por ser ultrapassada e a equipa acabou por se manter em funções. Em Novembro passado, vários chefes de equipa do serviço de urgência colocaram igualmente o lugar à disposição.

Já em Janeiro deste ano, os sete chefes da equipa do serviço de urgência do Hospital Garcia de Orta, em Almada, também apresentaram a sua demissão, invocando uma degradação das condições de trabalho.