Abdullah, o monarca que arriscou reformar para que tudo ficasse na mesma

Abriu a economia e usou os lucros do petróleo para tentar fortalecer-se como potência regional. Anunciou mudanças profundas mas acabou por deixar uma herança de “iniciativas largamente simbólicas", que "produziu avanços concretos extremamente modestos”.

Abdullah só ascendeu ao trono em 2005, mas já era líder de facto há dez anos
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Abdullah só ascendeu ao trono em 2005, mas já era líder de facto há dez anos Brendan Smialowski/AFP

É possível descrever como reformista o líder de uma das últimas monarquias absolutas do mundo? A lógica diria que não, mas no caso da Arábia Saudita a complexidade parece desafiar a lógica. Como o antecessor, Abdullah navegou com prudência entre as alas mais liberais e os membros mais conservadores da família real, ao mesmo tempo que ensaiava mudanças desejadas pela população, metade com menos de 25 anos, sem desafiar realmente o establishment religioso ultraconservador, que desde a nascimento do país divide o poder com a família que o fundou.

Rei antes de o ser, Abdullah, que morreu aos 90 anos, só ascendeu ao trono em 2005, com a morte do rei Fahd, mas a débil saúde do seu irmão fizera dele o líder não oficial da Arábia Saudita dez anos antes. Era já o rosto do poder no difícil período aberto pelos atentados do 11 de Setembro e parte do seu legado prende-se com o combate ao extremismo.

Enquanto reforçava o poder da família real, tentava estabelecer o país como a grande potência regional e se esforçava por mantê-lo abrigado face às crises no mundo árabe, desiludia os reformadores. Promoveu o diálogo inter-religioso, prometeu atenuar o extremismo da doutrina ortodoxa wahhabita, que é lei no país, deu alguns passos para promover a educação das raparigas e o acesso das mulheres ao mercado de trabalho. Mas as revoltas de 2011 e o receio de consequências internas, assim como a rivalidade com o Irão, exacerbada pela guerra síria, trouxeram de volta as perseguições à crítica interna.

“As reformas não existem na Arábia Saudita. Sejamos honestos, é uma monarquia absoluta”, escreve Ali al-Ahmed, ex-prisioneiro político no reino. “Abdullah deu grandes passos na abertura de novos horizontes para as mulheres sauditas, marginalizadas numa sociedade que usa várias interpretações da religião para suprimir os seus direitos e a sua identidade”, defende, pelo contrário Tariq al-Maeena, comentador político saudita, num texto publicado no jornal Gulf News. “Enfrentou os religiosos que pregavam o fundamentalismo e usavam os seus púlpitos para falar contra as liberdades das mulheres.”

Hala al-Dossari, uma activista dos direitos das mulheres da cidade de Jidá, diz à BBC que “houve algumas reformas mas, ao mesmo, a instabilidade regional foi tanta que os assuntos mais importantes da polícia nacional e local são negligenciados há algum tempo”. Dossari enumera “projectos bem-sucedidos, como a universidade mista e a abertura às mulheres do trabalho em lojas”. Mas sublinha que vive no único país que “prende as mulheres que conduzem” e “num dos poucos sistemas do mundo onde quem peça mais direitos e participação [política] é preso”.

Em 2005, a sua chegada ao trono foi saudada pelos que viam nele a força motora de alguns pequenos sinais de mudança, como o convite à organização Human Rights Watch para visitar o país ou a organização de um encontro inédito que juntou sunitas e xiitas (uma minoria considerável e não reconhecida), liberais e tecnocratas para discutir extremismo, direitos e liberdades no reino, no Verão de 2003, a Convenção para o Diálogo Nacional.

Combate ao extremismo
Foi o culminar de um processo que se iniciara com o 11 de Setembro, movido pela sensação de urgência de mudança para combater o extremismo. A maioria dos responsáveis pelos ataques eram sauditas, como Bin Laden, e Riad promoveu uma avaliação dos responsáveis pelas 50 mil mesquitas do país para identificar pregadores com “falta de conhecimento” – mais de 1000 foram reenviados para a escola para serem instruídos na rejeição do “extremismo” da Al-Qaeda.

Depois dos ataques contra o aliado histórico, o atentado suicida que matou 34 pessoas em Riad em Maio de 2003 pareceu reforçar ainda mais as correntes reformistas. “Somos uma parte deste mundo e não podemos isolar-nos. Não podemos ficar paralisados enquanto o mundo avança”, disse Abdullah.

Numa mensagem à convenção de 2003, o então príncipe herdeiro e regente defendia que a defesa dos cidadãos sauditas contra “ideias prejudiciais” não podia continuar a ser feita com recurso a uma lógica de proibições. “As reformas no papel não conduzem a muito se as práticas governamentais permanecem iguais”, dizia então a Human Rights Watch, lamentando que muitas “anunciadas reformas” continuassem por se materializar.

Os activistas lembram um rei que “foi um grande paladino do respeito pelas religiões no estrangeiro” – foi o primeiro chefe de Estado saudita, e guardião dos santuários do islão, a encontrar-se com um Papa, Bento XVI, em 2007 -, mas que pouco fez pela minoria xiita do seu próprio país.

Iniciativas simbólicas
“O rei Abdullah chegou ao poder com a promessa de reformas, mas a sua agenda ficou longe de alcançar ganhos institucionais duradouros para os sauditas”, comentou agora a Human Rights Watch, descrevendo um legado “de maior tolerância face ao papel público das mulheres” que acabou por resultar “em iniciativas largamente simbólicas e produziu avanços concretos extremamente modestos”.

Abdulllah nomeou 30 sauditas para a Shura, o conselho consultivo que faz recomendações ao Governo. Mas não ousou tocar no sistema de “guardião masculino”, que proíbe qualquer mulher de obter um passaporte, viajar, casar ou entrar na universidade sem a aprovação do seu “guardião”, pai, irmão ou marido. Alguns empregadores exigem que o guardião autorize a contratação, da mesma forma que há hospitais que só asseguram alguns procedimentos médicos com a sua aprovação.

Na Shura, passou a haver um portão especial para os membros femininos. “Não chega nomear mulheres para se sentarem no conselho consultivo se elas nem sequer podem conduzir-se a si próprias até ao trabalho”, denuncia a Human Rights Watch.

Em 2009, inaugurou a Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah, a primeira e única sem segregação de sexos no país, com professores contratados nos EUA, no Canadá ou na Alemanha, parceiras com Oxford, Cambridge ou o MIT, e alunos vindos de 61 países (quando abriu, só 15% dos estudantes eram sauditas).

Uma das mais bem equipadas do mundo, a universidade anunciou ter como ambição tornar o reino num centro científico global e combater estagnação científica no mundo árabe. Um oásis que, como sublinhou o Financial Times, podia não deixar de ser isso mesmo: “uma infra-estrutura de fachada, operada por estrangeiros e isolada, enquanto o sistema permanece imutável”. Muitos críticos notaram que a prioridade deveria ser reformas as escolas primárias e os liceus, com currículos ainda centrados nos estudos religioso.

O mais amado?
Um diplomata ocidental ouvido pela AFP garante que Abdullah era “o rei mais amado na Arábia Saudita depois de Faisal”, assassinado em 1975. Filho de uma descendente de beduínos, Abdullah viveu grande parte da infância no deserto. Quando chegou ao poder cortou as mesadas dos 7000 príncipes e obrigou-os a deixar de usar os cofres do Estado como as suas carteiras. Respeitado pela sua honestidade, mantinha-se à margem da imagem de luxo e das acusações de corrupção que manchavam grande parte da família.

Um dos 44 filhos do fundador do reino, Abdul Aziz Saud, teve uma educação tradicional numa escola religiosa e manteve sempre uma vida discreta. Sabe-se que nunca teve mais de quatro mulheres ao mesmo tempo e terá tido quatro filhos e 15 filhas. A base do seu poder foi desde sempre a Guarda Nacional, uma espécie de milícia formada por beduínos, que comandava desde 1962.

Em termos políticos, a única mudança concreta foi a introdução de eleições municipais – as mulheres deverão participar pela primeira vez, como candidatas e eleitas nas deste ano. Mas os conselhos eleitos continuam a dispor de poucos poderes.

Outra das suas primeiras iniciativas foi o perdão concedido a cinco activistas, três deles detidos por defenderem uma monarquia constitucional. Ao mesmo tempo, visitou bairros onde sauditas viviam em condições miseráveis, no que foi aplaudido como o primeiro reconhecimento público por parte do Estado de que a pobreza existia no reino. Era, ao mesmo tempo, sinal de um tipo de governação diferente: num obituário muito crítico do seu legado, o Guardian escreve que Abdullah “terá sido o primeiro líder saudita que procurou uma nova legitimidade, uma que emanasse do seu serviço ao povo e não apenas da aplicação da lei divina”.

Privatizações e investimento
Preocupado com o crescente desemprego, criou um programa de formação profissional para jovens, privatizou alguns sectores e abriu o país ao investimento externo directo, integrando-o na Organização Mundial do Comércio, e usou parte dos lucros do petróleo para lançar mega-projectos como a Cidade Económica. Reconheceu que mesmo com um quinto das reservas conhecidas de petróleo do mundo, o país tinha de diversificar as actividades económicas.

Sem tocar nos termos da aliança com os EUA – petróleo em troca de segurança –, Abdullah não deixou de tomar posições que irritaram Washington. Contra a invasão do Iraque, em 2003, que descreveu como “uma ocupação ilegal”, recusou aos norte-americanos que usassem as bases que então tinham no país. Antes, fora o primeiro líder da região a conseguir o apoio a um plano de paz israelo-palestiniano que incluía o reconhecimento de Israel por todas as nações árabes – estas aceitaram a iniciativa, aprovada pela Liga Árabe; Israel rejeitou-a.

Obcecado com “a ameaça xiita” e o aumento da influência do Irão depois da queda de Saddam Hussein e a chegada da maioria xiita iraquiana ao poder, investiu milhões a tentar reforçar os líderes sunitas do Líbano e enfraquecer o Hezbollah xiita libanês, sem grande sucesso.

Generosidade e repressão
Depois das revoltas de 2011, a obsessão tornou-se imunizar o país à mudança e o resultado foi o recuo nos direitos humanos. Abdullah ofereceu refúgio ao tunisino Ben Ali e trabalhou com outros países do Golfo para derrubar a Irmandade Muçulmana no Egipto. Não só de dinheiro se fez a contra-revolução: Riad enviou tropas para o Bahrain, liderado por uma família árabe sunita e a braços com uma revolta da maioria xiita. Em casa, proibia os protestos da sua própria população xiita, enviava dezenas de dissidentes para a prisão e comprava a paz, gastando 36 mil milhões de euros em subsídios alimentares, criação de empregos, construção de alojamentos sociais e ajudas aos desempregados.

Na Síria, criticou a Administração de Barack Obama por não apoiar os rebeldes sunitas e financiou grupos da oposição, travando uma guerra por procuração com o Irão. Em Julho, juntou-se à coligação formada por Washington para combater o autoproclamado Estado Islâmico.

O New York Times descreve-o como “uma força inteligente que transformou” o seu país. O jornal refere um programa de bolsas de estudo no estrangeiro que levou dezenas de milhares de jovens a estudarem em países ocidentais e que vários especialistas admitem poder vir a ser a sua maior herança. As “mudanças a que as forças conservadoras há muito resistem podem acontecer um dia, à medida que estes homens e mulheres chegam ao governo, à indústria e à academia”.

O Guardian é bem menos elogioso, falando de um monarca que será lembrado “como alguém que no seu próprio reino sobreviveu a uma vaga de mudança, apoiado pelo ‘ouro negro’, distribuindo generosidade e repressão e assim ajudando a derrubar a possibilidade de democracia no mundo árabe”. Alguém que “prometeu muito mas alcançou muito pouco”.