Afeganistão nomeia novo Governo após longos meses de impasse

Presidente e o seu antigo rival entenderam-se para formar um governo que integra representantes dos dois campos.

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Ghani e Abdullah chegaram em Setembro a um acordo de partilha de poder Jim Bourg /Reuters

Após três meses de espera, o Afeganistão conheceu finalmente nesta segunda-feira o elenco do novo Governo, negociado arduamente entre o Presidente Ashraf Ghani e Abdullah Abdullah, que depois de ter sido seu rival nas eleições de 2014 assume agora as funções de chefe do executivo. As nomeações têm ainda de ser aprovadas pelo Parlamento, mas abrem caminho ao fim de um impasse que paralisou o país.

Os nomes dos 25 ministros – incluindo três mulheres – foi lido pelo chefe de gabinete do Presidente, numa cerimónia em que Ghani, no poder desde 29 de Setembro, esteve presente mas não fez qualquer declaração. Segundo as agências internacionais, a lista revela um propositado equilíbrio entre os dois campos e as principais etnias que compõem o Afeganistão, com as quatro principais pastas a serem divididas em igual porção entre os apoiantes de Ghani e Abdullah.

O general Sher Mohammad Karimi, um pashtun (etnia maioritária do Afeganistão, a que pertence o Presidente) considerado próximo do chefe de Estado, foi o escolhido para chefiar a Defesa, enquanto Nur ul-Haq Ulumi, igualmente um pashtun mas apoiante de Abdullah (de etnia tajique) será o titular do Ministério do Interior. É sobre os dois que recairá a tarefa de coordenar os cerca de 350 mil efectivos que, desde a retirada das tropas da NATO, em Dezembro são agora os responsáveis pela segurança do país, numa altura em que a rebelião taliban continua a mostrar a sua força – 2014 foi o ano mais mortífero tanto para os militares como para os civis afegãos.

O Ministério das Finanças será ocupado por Ghulam Jailani Popal, um pashtun apoiante do novo Presidente – que ocupou ele própria a pasta num dos governos de Hamid Karzai – ao passo que o próximo chefe da diplomacia será Salahuddin Rabbani, um tajique aliado de Abdullah e filho do antigo chefe do Alto Conselho para a Paz, criado por Cabul para tentar negociar a paz com os taliban. Entre as três ministras está Najeeba Ayoubi, uma jornalista e activista dos direitos humanos, que assumirá a tutela das Questões Femininas.

Este não é ainda o executivo tecnocrático e livre das redes de interesse prometido por Ghani. “Muitos deles fizeram campanha por um ou outro campo em troca de algo”, disse à Reuters Zia Rafat, professor de Ciência Política da Universidade de Cabul. Mas outros observadores afirmam que a inclusão de nomes menos conhecidos poderá indiciar uma tentativa de dar um cunho mais reformista ao governo. “Nota-se que o Presidente e Abdullah trabalharam arduamente para conseguir as melhores escolhas, mas dificilmente podemos dizer que todas as expectativas foram cumpridas”, resumiu à AFP o politólogo afegão Haroon Mir.

Não há ainda data para a entrada em funções do executivo, mas a sua nomeação é já um bom indício. Se o Parlamento aprovar o elenco, as instituições paralisadas há meses poderão voltar a funcionar em pleno e é de novo afastado o cenário de um regresso da violência étnica, alimentando pelas acusações de fraude trocadas entre Ghani e Abdullah após a segunda volta das presidenciais, em Junho, e que só foram resolvidas por um acordo de partilha de poder mediado pela ONU e os EUA.

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