Entrevista

Fernando Medina “está em teste”, com Roseta e Cordeiro no seu encalço

João Gonçalves Pereira, vereador do CDS na Câmara de Lisboa, antecipa que com a saída de António Costa “haverá alguma instabilidade política à esquerda”. E aponta a presidente da Assembleia Municipal e o vereador da Higiene Urbana como possíveis candidatos do PS nas eleições de 2017.

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O vereador do CDS escolheu ser fotografado no Bairro Alto, já que o reforço das verbas para a remoção de graffiti ilegais foi uma das suas batalhas Rui Gaudêncio

Na semana em que a câmara vai apreciar o Plano Municipal de Combate ao Desperdício Alimentar, projecto do qual é comissário, o vereador centrista Joãoi Gonçalves Pereira avalia o trabalho do seu partido e garante que este continuará a ter “um papel um bocadinho de bom e de mau polícia”.

Em Maio foi designado comissário municipal de combate ao desperdício alimentar. Que trabalho foi feito desde então?

Quando fui eleito vereador na Câmara Municipal de Lisboa (CML), tive uma conversa com António Costa em que lhe disse que podia fazer uma oposição clássica, que é muitas vezes sustentada apenas na crítica e em que existe pouco papel construtivo, ou ter uma iniciativa de fiscalização, mas, ao mesmo tempo, colocar-me ao serviço da cidade. Na altura, falei em dois ou três projectos que estaria disponível para desenvolver, sem que isso condicionasse o meu voto. Um desses projectos tinha a ver com o desperdício alimentar. Em Maio de 2014 foi proposta em câmara a criação de um comissariado, do qual eu seria comissário. Isso obrigou a contactos com as várias forças partidárias para reunir um largo consenso. Foi um sinal de uma enorme maturidade política que não é muito habitual, principalmente num projecto encabeçado por um vereador da oposição.

E que não deve ser visto como um sinal de aproximação a António Costa?

Não. Diria que se percebeu que o direito a uma refeição é um direito fundamental, é uma questão suprapartidária. Acho que é desta forma que devemos estar na política. Os portugueses estão exaustos de ver um debate político assente no bota-abaixo. O CDS tem tido um papel na CML um bocadinho de bom e de mau polícia e essa é uma conduta que levarei até ao fim.

Independentemente de António Costa ser agora secretário-geral do PS?...

A postura manter-se-á como tem sido desde o início: uma oposição construtiva, que, quando diz que está contra, propõe alternativas. Um bom exemplo disso foi o último orçamento da CML, onde tivemos propostas em concreto como o reforço da verba [para a remoção] dos graffiti.

Que ficou prometido, mas não consagrado no orçamento...

Não acharia normal que, depois de um compromisso assumido perante todas as forças políticas, a verba não fosse duplicada na primeira revisão orçamental. Não se pode querer criar três taxinhas turísticas sobre um sector que é campeão nas exportações e gerador de emprego e que está em franco crescimento na cidade e depois não se ter cuidado naquilo que é essencial, que é, por exemplo, a preservação do património público e privado, a questão dos buracos, quer nos passeios, quer nas estradas, o lixo

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Também propôs um reforço das verbas para a repavimentação das ruas, mas não foi bem-sucedido...

Mas não vou desistir, e a pressão daquilo que é a opinião pública vai forçar a que haja um plano de emergência a curto/médio prazo. A questão neste momento é absolutamente caótica.

Na altura, acusou o executivo de ignorar os reais problemas dos lisboetas. O orçamento para 2015 reflecte isso?

António Costa tem-nos habituado a uma política muito assente na imagem e na propaganda. Há um orçamento e uma política assentes mais na obra de fachada do que no pequeno problema. O lixo e os buracos ou os graffiti são uma espécie de acne na pele da cidade. E é preciso tratá-lo todos os dias. Caso contrário, a beleza de Lisboa pode-se tornar invisível e só termos olhos para as suas borbulhas. Temos, de uma vez por todas, de ter presidentes da câmara que estejam apenas concentrados em Lisboa e que não encarem a cidade como um trampolim para outros voos políticos. E quando tivermos esses presidentes, se calhar estarão mais concentrados nos detalhes que dizem mais às pessoas que cá vivem e àqueles que nos visitam do que nas grandes obras de fachada. Como tivemos recentemente, na questão das taxas turísticas, a criação de alguns elefantes brancos, de que a câmara já desistiu.

Está a falar do centro de congressos...

Toda a gente estava contra, mesmo o próprio sector. Em relação às taxas turísticas há uma grande precipitação e uma grande trapalhada. Não houve uma preparação do dossier relativamente à forma como as taxas vão ser cobradas, para onde vão ser canalizados os dinheiros. A suspeita que tenho é que é para tapar os buracos, não das ruas e dos passeios, mas das contas da câmara. António Costa disse sempre que veio e colocou as contas em ordem. Se colocou as contas em ordem, por que é que precisa de criar mais taxas, por que é que no último orçamento da câmara aumentou em 10% a carga fiscal?

O executivo tem sublinhado que Lisboa tem das mais baixas taxas de IMI e IRS da Área Metropolitana de Lisboa...

Aí tratamos de uma falácia, é a tal retórica. Ao mesmo tempo que se diz que não se aumentam taxas e que se tem as taxas mais baixas, ao lado estão-se a criar novas taxas.

Há de facto o risco, como dizia Paulo Portas, de se estar a matar a galinha dos ovos de ouro com a taxa turística?

Claro que há. Isto é uma atitude tipicamente socialista: vêem qualquer coisa a crescer, a ter sucesso, e vamos lá taxar! Tudo isto revela precipitação e trapalhada e é um sinal errado relativamente àquele que poderá ser o futuro de António Costa. Caso venha a ser primeiro-ministro, se for gerindo as várias áreas como geriu a questão das taxas turísticas, é um absoluto desastre. Ou como geriu os brasões da Praça do Império, que foi outro desastre. O vereador José Sá Fernandes anda completamente à solta, porque enquanto António Costa anda preocupado com outras coisas, a câmara tem passado para segundo plano.

António Costa já devia ter saído da câmara?

Entendo que é uma decisão pessoal. Não é a primeira vez que presidentes de câmara são simultaneamente líderes de partidos.

Mas é possível fazer bem as duas coisas: ser secretário-geral de um partido e presidir a uma câmara como a de Lisboa?

Se eu fosse presidente da CML e líder de um partido, imediatamente ia optar por uma das coisas. Isto não é uma câmara qualquer. Se fosse eu, tinha consciência que não é possível ser presidente da CML a meio tempo.

Até quando é que António Costa pode manter esta situação?

A percepção que tenho é que irá tentar manter esta situação até antes do Verão ou sairá no Verão. E porquê? Porque lhe dá jeito estar na CML. Primeiro, porque tem um palco para ir fazendo política. As moções que o PS apresenta na câmara, em regra, têm a ver com assuntos que dizem respeito ao Governo, são uma forma de pressão e de fazer combate político. Por outro lado, mantém um estatuto importante que é o de presidente da câmara. As pessoas têm o direito de mudar de opinião, mas lembro-me de quando ele disse que era absolutamente incompatível ser presidente da CML e secretário-geral do PS. Agora basta ligar os telejornais e perceber onde é que ele anda: anda a fazer tudo menos a tratar de Lisboa...

E Fernando Medina tem condições para assumir a presidência? É uma pessoa que não tinha experiência autárquica e que é praticamente desconhecido dos lisboetas.

O legado está a ser passado. Isso é notório.

Nota isso? É que também se diz que António Costa ainda não lhe deu o palco...

Estão ali numa situação híbrida em que um ainda não saiu e o outro não está em condições de assumir o lugar. Acho que Fernando Medina vai ter muito que provar até 2017. Internamente, porque com a saída de António Costa vai colocar-se, no PS, a questão de quem será o próximo candidato à CML.

Não é expectável que seja Fernando Medina?

Diria que há mais dois na corrida. É mera especulação política, mas a intervenção que tem tido a presidente da assembleia municipal, Helena Roseta, dá sinais de alguém que tem ambição política em Lisboa. E depois há o facto de no executivo estar alguém que foi deputado, que é presidente da concelhia, alguém próximo de António Costa, que até tem estado a fazer um bom trabalho como vereador.

Duarte Cordeiro, que tem o pelouro da Higiene Urbana, que é uma das áreas de actuação da câmara que mais críticas têm gerado...

É, mas que ele tem conseguido, de alguma forma, corrigir. Vai ser muito interessante perceber, quando António Costa sair, se Fernando Medina consegue manter todos os equilíbrios internos, do PS, dos Cidadãos por Lisboa, de José Sá Fernandes. Acredito que com a saída de António Costa haverá alguma instabilidade política à esquerda.

Houve quem tivesse falado em eleições antecipadas, mas a verdade é que não havia um candidato evidente à direita.

Diria que não havia motivo para eleições antecipadas mantendo-se a equipa e estando assumido um vice-presidente. Estava assumido há muito tempo por António Costa, mas não quer dizer que estivesse pelo partido. Acho que Fernando Medina está em teste, está a ser posto à prova. Agora, evidentemente que a direita num cenário de eleições teria as suas candidaturas, em coligação ou não.

Há algum candidato forte que pudesse avançar?

Essa questão não se põe neste momento. Há, evidentemente, sempre candidatos fortes no espaço da direita para concorrer à CML.

Pensando nas eleições de 2017, vê alguns nomes possíveis?

É extemporâneo e prematuro estarmos a falar em nomes. Eventualmente, a questão pode precipitar-se um pouco a seguir às eleições presidenciais, uma vez que aí, deixar à esquerda um candidato que não é conhecido pelos eleitores passear sozinho na rua e não ter ninguém no terreno a dar a cara, dizendo que é o rosto da oposição a Fernando Medina, pode ter custos para a direita.

Como é que avalia o trabalho do vosso parceiro de coligação? Fernando Seara não tem tido visibilidade...

Cada oposição deve falar por si, não tenho que avaliar a oposição dos outros.

Estamos a falar daquele que foi o parceiro de coligação do CDS.

Sim, mas acho que cada um deve fazer uma avaliação própria. Posso falar pelo trabalho que o CDS tem desenvolvido em Lisboa. Foi o partido que no ano de 2014 apresentou mais propostas, mais moções e mais recomendações do que toda a oposição nos anos de 2010 a 2013. Há trabalho feito. Foi graças ao CDS que se conseguiu que a ModaLisboa vá ter um desfile de abertura para todos os lisboetas, que se travou a loucura de José Sá Fernandes relativamente aos brasões da Praça do Império, que os radares de Lisboa estão a ser reactivados. E vai ser graças ao CDS que o inventário da câmara pela primeira vez vai ser feito. Ou seja, o voto no CDS foi um voto útil, há muito trabalho feito.

Mas considera Fernando Seara um candidato possível à eleições de 2017?

Acho que primeiro passa por uma decisão pessoal. Fernando Seara é uma pessoa com enormes qualidades. Independentemente do apreço pessoal que tenho por ele, penso que é alguém que tem condições políticas e que foi um grande autarca em Sintra. Agora, como digo, estamos muito longe das eleições. Estou concentrado na marca que o CDS deve deixar na cidade, uma marca que tem sido muito centrada na área social, que é absolutamente prioritária em Lisboa.

A esse nível a actuação do executivo tem sido suficiente ou tem ficado aquém do desejável?

Se eu fosse vereador da Acção Social, evidentemente que havia coisas que faria diferente, mas reconheço que em matéria social a câmara tem dado passos muito significativos. O vereador João Afonso tem conseguido ouvir as várias forças políticas e tem andado muito no terreno.

Já do trabalho do vereador Sá Fernandes tem sido bastante crítico. Disse que ele anda à solta.

Acho que se Sá Fernandes tivesse hoje os pelouros que tinha no mandato passado este primeiro ano teria sido absolutamente o caos na cidade. Nas últimas eleições António Costa resolveu esvaziar o vereador e mesmo assim ele ainda faz as suas tropelias.

Regressando à questão do comissariado contra o desperdício alimentar, o que é que foi feito nestes meses de trabalho?

Há muito que tem sido feito. A câmara tem aqui duas funções: de facilitador e de agregador. O plano [municipal de combate ao desperdício] irá à câmara no dia 14 de Janeiro e é o resultado não de uma imposição de um comissário ou de um vereador, mas aquilo que resultou do trabalho das quase 70 entidades que integram o comissariado. E este projecto é um enorme desafio e uma enorme responsabilidade para o município, na medida em que Lisboa pode ser, com a concretização deste plano, o primeiro município não só do país, não só da Europa, mas do mundo a ter uma rede alargada a toda uma cidade de recuperação alimentar com um objectivo social.

Um marco deste mandato foi a reforma administrativa de Lisboa. Como avalia este processo?

Se há ponto positivo que posso atribuir a António Costa, é a reforma administrativa. Penso que houve também um trabalho bem feito ao nível da frente ribeirinha, mas é bom lembrar que esse trabalho foi feito através de uma empresa dependente do Governo, que era a Frente Tejo. Outro ponto positivo foi a requalificação da Praça do Intendente, mas que ficou muito aquém daquilo que era a expectativa, porque os problemas de insegurança se mantêm. E, para além disto, que marcas é que António Costa deixou? Deixou a intervenção na Rotunda do Marquês, em que está o caos em toda aquela zona. 

Tem feito várias críticas a António Costa pela forma como lida com a oposição. Desde falta de resposta a requerimentos, não aceitação de propostas...

Dos 18 ou 19 pedidos de informação escrita que dirigi ao presidente da câmara, recebi resposta a cinco ou seis.

António Costa lida mal com a oposição?

Lida mal com a crítica. Ele passa uma imagem que não corresponde à realidade. É um homem inteligente e muito hábil politicamente, que gosta de controlar a comunicação. Há muita propaganda, muito boa imprensa. A António Costa parece que tudo se lhe permite. Agora vamos ver por quanto tempo é que ele terá esse estado de graça. Penso que os lisboetas já estão a sentir alguma desatenção relativamente àquilo que são os problemas da cidade.